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Desenvolvimento Integrado

Publicado por Afonso Machado em Políticas Públicas
data: 23/04/2009

Até os anos 70, desenvolvimento era, a bem dizer, sinônimo de industrialização. Não se falava de G7, falava-se de países industrializados, como se falava de países não-industrializados que era o mesmo que países pobres ou subdesenvolvidos. Não se falava em emergentes, mas em países semi-industrializados, ou em industrialização. Os militares brasileiros, no governo, evocavam para o país que governavam o título de país em desenvolvimento, ou seja, o país estava deixando a retaguarda e caminhando para ser vanguarda do desenvolvimento. É desta época que veio o conceito de fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo. A industrialização, medida pelo crescimento do PIB era um conceito absoluto e inquestionável. Os Atlas Geográficos eram editados com gráficos coloridos de todas as formas para mostrar o resultado do “desenvolvimento”. Eram os tempos ufanistas do “Milagre Brasileiro”. A conquista do tri-campeonato mundial de futebol no México em 1970 era usado para ilustrar a euforia do Crescimento Econômico. Era o “Brasil Grande”, “Potência de Amor e Paz” como dizia um hino feito de encomenda para a ocasião. “Ninguém Segura o Brasil”, diziam os outdoors. Na época do “Milagre”, governo Médici, em uma reunião da Câmara de Comércio Brasil-EUA em Nova Iorque um diplomata brasileiro que já havia sido Ministro das Relações Exteriores e Embaixador do Brasil nos EUA, virou-se para uma platéia de empresários e falou: “Invistam no Brasil. Lá nós temos muitos rios para vocês poluírem à vontade”.

Quando o ciclo econômico do “Milagre” se esgotou, deixando o país com cidades inchadas pela proliferação das favelas, desemprego, inflação, marginalidade, indigência, degradação ambiental, trânsito caótico, a saúde pública em frangalhos, o general Médici foi obrigado a reconhecer em 1973, ao final de seu governo que “a Economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Como a partir do governo Geisel, iniciado em 1974, já se ensaiava os primeiros passos da “abertura”, uma antecipação das demandas políticas para que a redemocratização parecesse uma concessão e não uma conquista, e algumas reivindicações quantitativas eram permitidas à oposição, esta se apegou ao discurso da importância do social, e do desenvolvimento social confrontado ao desenvolvimento econômico. As prefeituras da oposição, passaram a destacar as Secretarias de Desenvolvimento Social. No início da década de 80 o BNDE passou a se chamar BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Em suma, descobriu-se que a industrialização de per si não levava à melhoria da qualidade de vida. Até nos nichos mais conservadores passou a ser moda abrir os discursos com o seguinte jargão: “o objetivo de todo desenvolvimento é o homem”.

Em 1972 houve a Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente patrocinada pela ONU, mas foi na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada em junho de 1992, que ficou conhecida como Rio-92 ou Eco 92, contando com representantes de quase todos os países do mundo, que caiu a ficha de que era preciso buscar meios de conciliar o desenvolvimento sócio-econômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra. Era introduzida a idéia do desenvolvimento sustentável, um modelo de crescimento econômico menos consumista, visando o equilíbrio ecológico para assegurar a existência das gerações futuras. A diferença fundamental da Rio-92 é que pela primeira vez em uma reunião de natureza ambiental houve a presença maciça de Chefes de Estado. Com a restauração dos regimes democráticos, nenhum político se elegeria mais sem um discurso ecológico afinado e atualizado. Surgiu a “Carta da Terra” e a “Agenda 21″, que foram incorporados por políticos de todas as ideologias.

Com a universalização do discurso ecológico o diferencial dos políticos progressistas passou a ser a democratização da gestão, ou seja, os governos participativos. Surge a consciência de que as sociedades participativas, sejam elas instituições políticas, educacionais e até empresariais passam a ter condições de apresentar resultados sociais e até econômicos vantajosos em relação às hierárquicas ou não participativas.

Surge o conceito de desenvolvimento cultural, em um sentido amplo, onde cabe o tecnológico, o conhecimento, que é a nova base da agregação de valor, e o político, onde se insere a cultura de participação e controle do estado pelas instituições sociais não formais, em suma, o conceito de desenvolvimento integrado.

Robert Putnam na década de 90 define capital social, como práticas, normas e relações de confiança que existem entre cidadãos, levando ao funcionamento de um sistema participativo e cooperativo chamado de redes sociais, e mostra que estas redes são um fator fundamental para o desenvolvimento em todos os âmbitos. Há também estudos demonstrativos de que em regiões onde existe uma cultura de participação dos pais no sistema escolar, há um efeito sensível em sua eficiência. Ou seja, o desenvolvimento econômico-social-ambiental-cultural, entendido em sua plenitude, é também chamado desenvolvimento integrado.

O Brasil tem a característica da integração, da tolerância, do sincretismo, da miscigenação, do reconhecimento da alegria do negro, da sabedoria do indio, somadas às contribuições culturais de migrantes de todos os quadrantes do Velho Mundo, e o fato de o país acreditar que tem um lugar reservado no futuro cria uma distensão natural no plano ideológico. Uma outra questão, é que a palavra inclusão não pode soar como uma concessão ou liberalidade. É preciso reconhecer cruamente a existência entre nós do apartheid social, visível no acesso às universidades, nos sistemas de saúde público e privado, nos transportes coletivo e individual, na prevalência do direito individual sobre o coletivo, na impunidade dos ricos, nos privilégios das corporações. Mas o importante é que a confiança no futuro da nação leva o brasileiro comum, homem da rua, a acreditar que nossas diferenças, mesmo as de caráter abissal têm solução: “É preciso aparecer alguém que faça o que tem que ser feito!”, foi a fala do imaginário social que ouvi certo dia da boca de um transeunte anônimo.

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Afonso Machado - Jornalista, residente em Belo Horizonte MG
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