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Pitangui, a Revolta da Cachaça – parte II

Publicado por Padre Joao Delco Mesquita Penna em Crônicas Culturais, História
data: 26/04/2022

Pitangui, a Revolta da Cachaça – parte II
(continuação da parte I)
Em julho de 1719, Domingos Rodrigues do Prado, Manuel Dias da Silva e Suplício Pedroso lideram um motim contra a tentativa, por parte do capitão-mor João Lobo de Macedo, representante de Portugal em Pitangui, de estabelecer o estanco da aguardente na Sétima Vila. O estanco era um monopólio estatal, que determinava que apenas a coroa poderia usufruir da venda da aguardente.

A justificativa para o estabelecimento do estanco era que a Sétima Vila  crescia, mas não dispunha de prédios públicos essenciais para uma Vila Portuguesa, como uma boa igreja, uma casa para a Câmara que também funcionasse como Cadeia e uma casa para alojar o governador quando visitasse a região. Na segunda semana de janeiro de 1720, João Lobo de Macedo fez passar na Câmara a lei oficializando o “estanco” de toda a produção cachaceira local para financiar as obras que Pitangui precisava, justificando que somente a Coroa tinha autorização de comerciar a aguardente, motivando ainda mais a continuidade do movimento contra a coroa.

A Revolta chegou ao seu auge em meados de 1720, quando Domingos Rodrigues do Prado, bandeirante paulista, inimigo das autoridades lusitanas de Sabará, que era o principal desbravador daquelas terras e líder do movimento que conclamava que “quem pagasse o quinto deveria morrer”, expulsou o capitão Macedo de forma vexatória da vila, provocando o acirramento do conflito onde o presidente da Câmara que tinha aprovado o ‘estanco’ acabou sendo morto durante o violento levante.

A batalha se deu às margens do rio São João, no atual município de Conceição do Pará, movimento que ficou conhecido como sendo a primeira Sublevação da Cachaça, que também é chamada de Revolta da Cachaça de Pitangui ou simplesmente Rebelião da Pinga da Sétima Vila do Ouro.

Com melhores armas, os portugueses saíram vencedores. Mesmo assim seria  um desaforo impossível de ser aceito pelo orgulhoso Conde de Assumar, que governava as Minas desde 1717. O conde de  Assumar era um fidalgo português clássico e fiel a seu rei, sua função anterior foi a de Vice-Rei da India. Logo providenciou o envio de tropa à região, como nos conta o historiador Raimundo da Silva Rabello. Reuniu mais de 500 homens, certamente foi uma das maiores batalhas já vistas nas Minas até aquele momento e foi a primeira grande revolta contra a Coroa, antes mesmo da de Felipe dos Santos de 1722 em Ouro Preto.

A ordem era prender os líderes do motim, a fim de que eles fossem julgados pelo crime de lesa-majestade, e promover o sequestro de bens no valor da dívida dos pitanguienses. Os mineradores e produtores de cachaça no entanto foram aguerridos e conseguiram juntar 400 combatentes na defesa do direito de produzir e comercializar livremente a aguardente.

Apesar da derrota da Vila de Pitangui, os pitanguienses não pagaram e Conde de Assumar, então governador da Capitania, contrariamente à sua vontade, teve de anistiar a dívida, dizendo que “essa Vila deveria ser queimada para que dela não se tivesse mais memória”, chamando a população local de “mulatos atrevidos”.

Quanto ao líder do movimento, Domingos Rodrigues do Prado, fugiu para um esconderijo, soube-se apenas que todos os seus bens, que não eram poucos, haviam sido confiscados. Em seu lugar foi enforcado entre outros seu substituto no comando revoltoso, Alexandre Afonso. O governador, um ano depois de abafar a revolta em Pitangui, acabaria voltando para Portugal, após enfrentar outra rebelião, dessa vez em Vila Rica.

Quanto à produção de cachaça em Pitangui, depois do período de turbulências, foi retomada sem maiores danos. Já Assumar mostrou-se exasperado, numa carta ao rei de 1720, com a insubordinação daqueles mineiros. “A terra parece que evapora tumultos, a água exala motins, o ouro toca desaforos, destilam liberdades os ares, vomitam insolências as nuvens, influem desordem os astros, o clima é tumba da paz e berço da rebelião”.

Os mesmos cabeças do motim ocorrido em julho contra a tentativa de estabelecimento de estanco da aguardente são obrigados a ir às ruas novamente em novembro contra a possível volta de João Lobo de Macedo a Pitangui. Eles o haviam expulsado no motim anterior, que resultou em sua prisão. Agora, solto, desejava retornar ao local mas não sem reação de seus inimigos. A nova situação teve consequências trágicas como a execução do juiz Manuel de Figueiredo Mascarenhas. A reação da Coroa foi mais severa desta vez, nomeou militares para prenderem os potentados, operação da qual só escapou Domingos Rodrigues do Prado, que fugiu novamente.

A Revolta em Pitangui se deu como resposta a uma medida também das mais drásticas, uma espécie de estatização temporária da comercialização da cachaça nas terras da então Vila. Naquele momento, Pitangui, situada entre a região das Minas e a saída para o sertão dos Gerais através do Rio São Francisco, tinha ganhado a fama de produzir as melhores cachaças daquelas terras! Viva a cachaça! Salve a bebida genuinamente Brasileira com sabor de luta por liberdade!
(continua na parte III)

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Padre Joao Delco Mesquita Penna -
Comentário
  1. Maria de Lourdes Ferr9eira Machado

    Nada como essas crônicas capazes de contar a nossa história de uma forma tão objetiva, sem que se perca a riqueza dos detalhes.
    Adorei!

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