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Betim, a volta por cima dos bandeirantes

Publicado por Padre Joao Delco Mesquita Penna em Crônicas Culturais, História
data: 10/12/2021

Betim, a volta dos bandeirantes

Por volta de 1709, com sua derrota para os emboabas, após o sangrento episódio do Capão da Traição na região do Rio das Mortes, atual São João d’El Rey, quando 300 paulistas teriam sido massacrados, os Bandeirantes paulistas se reagruparam, e com o apoio do governador recém nomeado da Capitania Unida do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas do Ouro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, iniciaram seu retorno organizado para a Região das Minas. Antônio de Albuquerque, que havia sido governador das Capitanias do Grão Pará e Maranhão, era filho de mãe mestiça de origem pernambucana e de um fidalgo português, Antônio de Albuquerque Coelho, que foi governador de Macau, na China e Timor, na Oceania.

Devido à situação tumultuosa representada pela Guerra dos Emboabas, a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro foi desmembrada da Capitania do Rio de Janeiro, e Antônio de Albuquerque se dirigiu para a Região das Minas, anistiou os participantes do conflito emboaba, tendo o líder Manuel Nunes Viana se retirado para sua Fazenda no Rio Jequitaí, e estabeleceu subsede do governo da Capitania na Comarca do Rio das Velhas, atual Sabará, sob responsabilidade de Manuel de Borba Gato e também cuidou de estabelecer uma forte comunidade paulista no Ribeirão do Carmo, atual Mariana, que passou a polarizar com Vila Rica, reduto emboaba.

Veja também: https://www.metro.org.br/padre-joao-delco-mesquita-penna/a-guerra-dos-emboabas-parte-v-desdobramentos

Em 1711 foram criadas as comarcas de Vila Rica, atual Ouro Preto, e Rio das Mortes, atual São João d’El Rey. Através de tropas de burros os bandeirantes paulistas continuaram controlando os suprimentos para as Minas a partir dos portos de Santos e Paraty, passando por Taubaté, através do que mais tarde veio a se chamar Caminho Velho da Estrada Real, sendo que o Caminho Novo, para o Rio de Janeiro, foi criado mais tarde. Um dos principais entrepostos do Caminho Velho era a Vila de Bandeirinhas do Paraopeba, que teve esse nome porque se tentou sem muito êxito uma busca de minerais, mas se estabeleceu ali um pequeno povoado. Foi nessa região que o Conselho Ultramarino da Corte Real Portuguesa outorgou em 1711 sesmaria a Joseph Rodrigues Betim que abrangia duas léguas ao longo do Rio Paraopeba na região do Ribeirão da Cachoeira, atual Rio Betim, terras pertencentes à imensa Vila Real de Sabará, com a função de vigiar e guardar os caminhos para as vilas do ouro.

Joseph Rodrigues Betim era um dos irmãos mais novos de Maria Betim, esposa do bandeirante Fernão Dias Paes Leme. Esse casal também foi quem levou o pequeno Joseph à pia batismal. Além de bandeirante e sertanista, Joseph Betim tinha a patente de Capitão-Mor.

O Caminho Velho ou paulista era muito mais competitivo para a Região das Minas que o Caminho do Norte que trazia suprimentos através do Rio São Francisco a partir de Salvador na Bahia, o que fez com que o povoado de Bandeirinhas, e atualmente o município de Betim, fosse assumindo desde aquela época sua vocação logística.

Enquanto a região de Vila Rica permanecia sob o comando dos remanescentes dos emboabas, os bandeirantes paulistas retornavam expandindo suas pesquisas minerais na direção Oeste. Em 1715, Antônio Rodrigues Velho, o “Velho da Taipa”, meio irmão de Joseph Rodrigues Betim, fundou a Vila da Piedade de Pitangui, que era conhecida como Sétima Vila do Ouro, atualmente na região central do Estado de Minas Gerais. Ele se estabeleceu em um local chamado Batatal, tal o tamanho das pepitas de ouro que ali afloravam. Segundo o historiador Agripa de Vasconcelos a Coroa Portuguesa contabilizou historicamente a produção de 400 toneladas de ouro em Vila Rica e Mariana, enquanto em Pitangui, o segundo maior centro produtor, foram contabilizadas 90 toneladas. A partir de Pitangui os bandeirantes paulistas se dirigiram para a região de Paracatu, onde também descobriram importantes jazidas, e daí para os atuais estados de Goiás e Mato Grosso. Por Betim passavam os suprimentos do litoral paulista para a antiga e para a nova área de mineração à oeste.

O nome da cidade  está relacionado ao sobrenome daquele que é considerado seu fundador, o bandeirante Joseph Rodrigues Betim. O nome Betim é de origem alemã ou holandesa, seu étimo estaria ligado ao suposto sobrenome do pai de Gerard Thoenis, ou Thonis, Betinck ou Betting, forma inglesada, Joseph Rodrigues Betim era neto de Gerard Thonis Betink.

Betim não deu ouro, mas fazia parte dessa estrutura logística criada pela coroa Portuguesa, devido à sua posição geográfica favorável,  estava localizada no entroncamento dos caminhos vindos de São Paulo que seguiam para as três principais vilas do ouro daquele momento, Pitangui, Sabará e Vila Rica. Por isso, o povoado das Bandeirinhas do Paraopeba foi durante esta época um ponto estratégico no caminho do ouro para Portugal.

Entre 1711 e 1750, a sesmaria de Betim recebeu diversos núcleos de povoação. Por volta de 1745, os habitantes solicitaram à Igreja Católica a construção de uma capela. O local escolhido, por tradição, foi um monte e a capela foi construída onde hoje se encontra a Praça Milton Campos. Em memória da velha matriz foi implantada no local uma estrutura metálica com os contornos arquitetônicos do velho templo. Como já havia outras capelas na região, em Mateus Leme e Santa Quitéria, hoje Esmeraldas, o novo templo tornou-se conhecido como Capela Nova do Betim, nome que depois se estendeu ao arraial surgido em seu entorno.

Entre 1760 e 1800 o arraial de Capela Nova do Betim cresceu em importância, sendo elevado a distrito em 1797. Nessa época, Betim sofreu a crise econômica que atingiu toda a  região de mineração e passou a desenvolver atividade econômica de subsistência com base na agricultura e a pecuária,  já consolidadas no Ciclo do Ouro.

O crescimento de Capela Nova do Betim e sua relativa autonomia econômica, além da atuação de lideranças políticas, fizeram com que o distrito se tornasse município, já com o nome de Betim em 1938. Nas décadas de 1940 e 1950, Betim volta a ter importante função de abastecimento, desta vez destinado à capital, Belo Horizonte. O planejamento estadual destinou a Betim uma industrialização de base, representada por siderúrgicas, e a produção de alimentos para o abastecimento da capital, mas cumprindo seu destino histórico, a saída privilegiada para o grande polo industrial de São Paulo, através da importante rodovia que homenageia o desbravador Fernão Dias, se tornou destino das grandes indústrias oriundas do parque paulista.

 

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