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Tuplec-tuplim

Published by Saulo Soares in Cultural Chronicles
data: 19/11/2021

Tuplec-tuplim

Contava os dias na plástica e octogonal caixinha de remédios. Sexta, sábado, domingo e… “Reserva”. Havia um espaço a mais: oito casinhas, sete dias. Pensar que a caixinha com isto lhe dissesse: “Reserve um tempo para si, rapaz!”, seria tão óbvio quanto desnecessário. Havia lido em algum lugar que a palavra “semana” etimologicamente significa “sete manhãs”. Primeira manhã, segunda manhã… Ah, seria tão mais belo, divagou, se disséssemos: “A primeira vez que nos vimos foi no final daquela ensolarada terceira-manhã, 24 de abril de 1892…”

Se tivéssemos mais 1 dia, o tal dia “reserva”,  para completarmos o ciclo, vá lá, que seja semanal, talvez significasse que a Terra giraria mais devagar e levássemos quatrocentos e poucos dias para completar um ano. Talvez… não entendia nada dessas coisas. Das estrelas, só queria ouvi-las.

Não lhe agradou a ideia de um ano tão longo. Ora, do planeta girando um pouco mais devagar, ah… isto, sim. Não haveria tanta pressa, não engoliríamos palavras no afogadilho, não estaríamos fadados a voltar aos grunhidos, como disse certa vez Saramago.

Mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto, listou as adversativas como fez para decorá-las nos tempos do ginásio, pensou nas dores do mundo, tantas e pungentes. Se tudo fosse mais devagar, as dores, também. É melhor deixar o universo como está, assim mesmo, concluiu, pensando no amigo Professor que dizia: “Ainda bem que não sou Deus!”

Olhou para o gato sentando ao seu lado, budisticamente, com superior ar felino, com  olhos entreabertos e orelhas para trás, como que a lhe dizer: “A caixinha de remédios é sua. Se vira!”. Quis miar um xingamento para o peludo, mas deixou pra lá.

Lá, lá onde? No limbo das palavras não ditas, das coisas que não se fizeram, dos amores perdidos, dos dias em dormição? Dos versos riscados, das anotações em guardanapos, dos choros engolidos, das reticências, dos “para um bom entendedor, meia palavra basta”?

Percebeu que este “dia reserva”, da bendita caixinha filosófico-existencial, “reservava” tudo isso, guardava para um tempo onde as coisas se ajustariam, se houvesse um tempo assim. Deu-se conta que, a cada semana vivida, bem ou mal vivida, um oitavo dia se formava, era preenchido na medida certa das nossas renúncias. O dia que não. Apenas “que não”. Gato safado…

Pegou a caixinha e sacudiu-a feito um chocalho. Lembrou-se de Orlandivo, compositor, percussionista, da época da bossa-nova, que marcava o compasso  balançando um molho de chaves. “Bolinha de sabão, tuplec-tuplim… bolinha de ilusão.”, cantava Orlandivo ao ritmo do chaveiro. Começou, então,  a batucar nas casinhas de terça e quarta-feira, fazendo um contra-tempo – trocadilho não intencional – na de sábado, já vazia.

E o tuplec-tuplim transformou-se noutra onomatopeia: tuplac-ti-ti-xiiiii… A caixinha caiu no chão e os dias se misturaram. Pegou-a. Vazia. Quis filosofar sobre o vazio, mas, ao ver o verso da caixinha, leu: Indústrias Pandora Ilimitada.

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Saulo Soares - Saulo Soares é poeta, cronista, compositor, funcionário do BB, formado em Ciências Contábeis, Empreendedorismo e Inovação, MBA em Operações e Serviços pela FGV. Atualmente cursa Letras.
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