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Flor de pedra

Published by Antonio Ângelo in Poetry
data: 03/11/2021

Flor de pedra

Desconfio que em alguma madrugada

Em meio à neblina

Ela surgiu

⠀⠀

Talhada por um Aleijadinho

Advindo de traz-as-serras

Que em seu lapidar

Desvela a alma das brutas coisas

⠀⠀

Logo ao amanhecer

Em meu quintal

Não uma rosa

Ou margarida

⠀⠀⠀⠀

Uma flor de arquitetura angulosa

Talhada com delicadeza

Uma flor barroca

Em inusitada assimetria

⠀⠀

Em meio a ervas daninhas

Intrépida, à luz outonal

A flor a cinzel forjada

Em tortuosos relevos

E torturados entalhes

⠀⠀

Cuidei eu, todos os dias

De ciosamente aguá-la

Mesmo não a vendo vicejar

⠀⠀⠀⠀

Até que ouvi alguém sussurrar

Em maldoso comentário

- Enlouqueceu, está a regar

– imagina! – pedra como se planta fora

⠀⠀

Como assim? Louco?

Como podem assim me julgar

Não sentiram a essência

Que daquelas pétalas exalava?

⠀⠀

Alguns dias passei acabrunhado

Ensimesmado, pelos cantos

Sem ao quintal retornar

⠀⠀

Mas hoje, logo cedo, resolvi

Fui terreno abaixo decidido

A reiniciar os cuidados

Que não deveria ter suspenso

⠀⠀

Qual não foi a surpresa

Pelo que ali deparei

Poeira cinzenta apenas

Onde antes a magia da flor

Em meus dias rescendia!

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Antonio Ângelo -
Comentário
  1. Wesley

    Será a flor de urucum de que falavam as musas? Nesta pequena crônica creio a ter reencontrado. Por mais essa colher de chá, agradeço.

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