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Das planícies ao Planalto

Publicado por Denise Paiva em Políticas Sociais
data: 11/06/2019

dasplanicies

Terminei o curso de Serviço Social na Universidade Católica de Minas Gerais em 1972, no auge da ditadura militar e num momento de grande vigor para a profissão que foi o movimento de reconceituação do Serviço Social na América Latina. Lá em Belo Horizonte, primeiro no prédio na Praça da Liberdade e depois do Campus Dom Cabral eu aprendi lições que confesso até hoje guiam minha vida profissional…. me abrem e me fecham caminhos, não as esqueço e sobretudo as pratico.

Compartilhando algumas lições

As leis e regras existem sobretudo para serem questionadas e aperfeiçoadas.

Pois “a única coisa fixa na realidade é a mudança”. Essa lição do eterno devir de Heráclito, como toda sua filosofia – base da concepção dialética da natureza e da história deve estar incorporada no cotidiano das nossas percepções e no nosso agir incessante.

“Sem saber que era impossível foi lá e fez”

Um dos maiores desafios que enfrentei na vida foi ter assumido a Assessoria de Assuntos Sociais da Presidência da República no Governo Itamar Franco em 1992, saindo diretamente do mundo das periferias e dos movimentos populares de São Paulo, onde fui assistente social concursada da Secretaria de Bem Estar Social da prefeitura, para o centro das decisões nacionais. Para preservar minhas utopias e enfrentar o poder e o desconhecido eu transformei o livro “Fernão Capelo Gaivota” no meu livro de cabeceira… .

Foi desafiar limites, quebrar regras, enfrentar a liturgia do poder a essência da minha atuação, antes de tudo como assistente social. Da minha janela privilegiada no quarto andar do Palácio do Planalto imaginava no cair da tarde uma curva onde o mar podia encontrar os astros e vislumbrava cada vez mais um horizonte… um horizonte de possibilidades e de um país melhor.

E repetia, para minha equipe e companheiros de trabalho: “Vamos em frente pois atrás vem gente!”, pois nas possibilidades e nas responsabilidades que sentia caber à minha função… eu me preocupava sempre em conjugar o verbo ADIANTAR.

O verbo adiantar tem um sentido profundo… ele é imperativo em toda a atitude de avaliação que impõe ser constante no trabalho e na vida pessoal.

De que adianta? Isto faz sentido?

De que adianta? Isto faz as coisas avançarem?

O verbo adiantar encerra e imbrica numa única palavra dois conceitos importantes: causalidade e evolução.

Fazer a diferença

Quantas pessoas passam pelos cargos de responsabilidade e agem apenas como elos na cadeia burocrática? Se tornam apenas reprodutores do instituído, de como as coisas são, ou apenas encenam mudanças para que tudo continue como dantes. Desafiar e quebrar os muros burocráticos e buscar o verdadeiro sentido daquilo que promove a felicidade das pessoas e da nação é a base da ação instituinte e empreendedora na administração pública.

Na minha vida profissional sempre atentei para não cair na ironia de Lampeduza: “tudo deve mudar para que tudo fique como está”.
Assim, participar, atuar, sempre foi para mim ter uma participação crítica, qualificada, transformadora e criativa.

Quando lideramos processos e pessoas temos que incorporar três “is”, no discurso e na atitude: Inspirar, Inovar e Influenciar. Estes três “is” nos remete ainda a um quarto e a um quinto “i”, temos que nos transformar em ímãs que irmanam ideias e pessoas em causas coletivas e mobilizadoras ao se constituírem e expressarem de fato necessidades.

Muito se fala em diagnóstico de problemas, mapa das vulnerabilidades e pouco se fala em mapa das potencialidades e mapa das esperanças…

Sempre me guiei mais pelo mapa das forças propulsoras das mudanças e minimizei as forças restritivas e é por isso que repito: “Sem saber que era impossível foi lá e fez.” Esta frase sensacional é atribuída sem muita certeza ao romancista francês Jean Cocteau amigo de Edith Piaf.

Os diagnósticos pesados, a evidência amplificada dos problemas sem conexão com o potencial de superação pode ter um efeito inibidor, castrador da nossa capacidade de intervenção.

O horizonte das utopias e as utopias do horizonte

O direito ao sonho e o direito à indignação, será mesmo que os valores da sociedade de consumo respondem aos anseios da alma humana?

Até quando as injustiças e as desigualdades farão parte da paisagem nos campos e nas cidades, como algo dado e inerente à vida?

Dizem que só os loucos desejam recuperar e reinventar o sentido heroico da existência preconizado pelos gregos… O que faz de fato sentido? A grandeza da vida, dos ideais, o clamor da mudança? Em seu livro que virou filme, “O nome da rosa”, Umberto Eco cita na epígrafe um provérbio alsaciano: “As crianças e os loucos dizem sempre a verdade”. No hinduísmo, uma das divindades mais relevantes, Shri Ganesha, representa a “potente inocência” da infância preservada.

A formação do assistente social no plano da reconceituação que aconteceu na América Latina nos anos de chumbo no Brasil, semeada no Chile, na primavera de Salvador Allende, nos coloca como Agentes de Transformação e jamais agentes burocráticos e acríticos mediadores de serviços e benefícios.

Por fim, há um preceito ético a ser lembrado, em contraposição aos muitos papéis, relatórios, pareceres técnicos e longas parafernálias ligadas aos processos de trabalho e não aos resultados, ligados à medição da eficiência e da eficácia e não da efetividade que tornam cada vez maior a distância entre a intenção e o gesto.

Um paradigma se impõe à pratica dos assistentes sociais e dos trabalhadores do social em geral: a ÉTICA DA URGÊNCIA e a URGÊNCIA DA ÉTICA.

Novembro de 2015

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Denise Paiva - Pós-graduada em Serviço Social – Assessorias: Ministério da Saúde e Ação Social de Moçambique (1978-1980) - P.M.Juiz de Fora em três mandatos – Gabinete da P.M.São Paulo na Gestão Luísa Erundina (1990-1992) - de 1992 a 2005 junto à Presidência da República e Ministério da Justiça em Brasília – Atualmente é Pesquisadora e Consultora. Residente no Rio de Janeiro - RJ.
Comentário
  1. leticia paiva

    Belo texto, bela história!

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