Poesia

Calendário

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 29/09/2021

Vagarosamente, anos passaram, passaram, Polvilhando areia de ampulheta em meus ombros. Vento leva areia como levasse pedaços de mim Por aí afora, pela jornada, pelo caminho, Pelas cidades onde enterrei a vasta cabeleira. Parcos vestígios ainda restarão, dispersos, Debaixo de alguma marquise onde parei um dia Para fugir da chuva – ou naquela praça fugidia Que a memória ora alcança, ora deixa escapulir. Provavelmente, u...

Espelhos vazios

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 13/09/2021

⠀⠀⠀⠀⠀ Nada do que é meu Posso eu te dar Pois o que tenho A mim não pertence ⠀⠀⠀⠀⠀ Do que possuis Não me apossarei Pois o que tens A ti não pertence ⠀⠀⠀⠀⠀ Mas se algo resta Que supomos nosso Bem percebemos De nós se ausenta ⠀⠀⠀⠀⠀ O que nos sustém Ante o imenso vácuo Se ao alcance apenas Reflexos, miragens? — ⠀⠀⠀⠀⠀ O que tenho, desdenhas Já me destes a senha Pouco i...

As três irmãs

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 24/08/2021

A Casa Seleta era a loja do meu avô, E ainda resiste, fincada no meio da praça. Seleta tem as mesmas letras de Estela. Estela quer dizer estrela. A Casa Seleta era um lugar mágico, Cheio de mil coisas, Maravilhosas vitrines Que ainda habitam os olhos de Laís, A irmã mais nova, Seis décadas depois daqueles dias. Seleta é um outro modo de falar O nome da minha mãe, e, Coincidência ou não, a praça foi rebatizada Com o ...

No hospital

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 17/08/2021

Professor, eu agradeço dos remédios o acerto as meizinhas é bem certo me darão algum sossego ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Ah! no ror de comprimidos não esquece as vitaminas que este corpo franzino cada vez mais se amofina ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Calmantes, muito bem vindos que a noite é um sacrifício anda o sono desgarrado me deixando aperreado ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀...

Itacarambi

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 21/07/2021

Ali o rio fez uma curva Uma curva suave Um cotovelo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ A rodoviária em que eu conversava com Careca A foz das águas que vinham do Peruaçu E que para a cidade convergiam ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Ali eu fiquei uns dez anos ou mais À margem esquerda do Velho Chico Vendo o meu filho subir em árvore Compartilhar este Artigo

À margem

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 01/07/2021

Aqui neste boteco de estrada sem destino Se encontra às sextas-feiras, à noite O solitário masculino Até alta madrugada, falam de dramas Enquanto, sem contenção Se embriagam, fumam, discutem Arremedo de teatro Ao som de canções melodramáticas Com a vida trapaceiam Este fala: paixão sem chances Aquel’outro: traições De viagens o que está ao balcão Um, da prisão recém-liberto Comenta, em palavras tortas Sobre o...

Da família

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 25/06/2021

Família é entroncamento, É quando os rios se encontram. Quando as águas se misturam. Assim verseja meu primo poeta, Lembrando as alturas de Tio Velho E as alegorias de ser Almeida. Também assim suponho eu, Que vim por intermédio de Seu Pio, O Almeida mais Almeida dos Almeida. Meu primo está certo quando diz Que viver gravemente é Almeidar: Uma maneira especial de se estar Neste mundo. Família é algo que se repete inc...

A tecedeira

Publicado por Antonio Carlos Santini
Data da publicação: 21/06/2021

Foto: pixabay.com O sol se põe. Na tarde sombreada A Tecedeira tece a sua teia: Entre oito patas o seu fio enleia E deixa a leve malha preparada. O tempo corre. Escorre a fina areia Da rocha que caminha para o nada. A Tecedeira espera, conformada, A hora de colher a vida alheia… Vejo a lua no céu: foice minguante Pronta a ceifar estrelas num instante, Inermes ante o gume de seu corte! Vejo na teia a paciente aranha: Ve...