Poesia

Novos tempos

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 18/02/2019

O carteiro daquela vila perdida nos sertões gerais especula: Porque o trabalho se amesquinhou? Cadê as cartas do namorado que vinham de longe e deixavam a mocinha saltitante? Perguntava, tão logo o via: Senhor Carteiro, que traz para mim hoje? Agora a moça ao fim da rua depois da ponte sobre a linha férrea já não o espera no alpendre em meio a vasos, margaridas, samambaias com olhos brilhantes de expectativa. O carteiro...

Campo de mártires

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 11/02/2019

“Deus! Ó Deus! Onde estás que não repondes? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes embuçado nos céus?”Castro Alves  Da janela do meu apartamento Vejo os helicópteros Que seguem rumo Ao campo da morte de Brumadinho  Vão para onde não mais Bosques, fazendas, pousadas Águas cristalinas Gorjeio de pássaros  Agora é só Lama Desespero Corpos trucidados O lento escorrer da massa amorfa Semovente ...

De estimação

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 31/01/2019

Feito um cão que ladra e não morde Demarco meu território. Daqui até lá, de lá pra cá, acolá. Depois estico as pelancas Sobre o capacho, a rede na varanda, E astuciosamente faço a vigília. Ao modo de um cão, todo lealdade. Diferentemente de um cão Prescrevo-me logo um cálice de vinho Que, como queria o meu compadre João Sebastião, sábio o bastante Para ir morar distante da capital, Esfria o sangue quente Esquen...

Todos minerais

Publicado por Antonio Carlos Santini
Data da publicação: 29/01/2019

Foto: Agência Brasil – EBC Imagens que não passam da retina, Imagens que se afogam nos meus olhos: São barcos de papel que nos escolhos Encontram indefesos a ruína… Enquanto a morte investe contra a mina, Os césares não tiram seus antolhos: Resta ao povo beber dos Santos Óleos E dar seu sangue à fome da oficina… O rio escuro chora sob a bruma, Pois não lhe resta mais pureza alguma Para a sede de peix...

A rainha triste

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 16/01/2019

É um déspota esclarecido que bem trata os súditos e cobra-lhes justos impostos. Ninguém o vê em público a usar indevidas palavras ou cometendo disparates. À Rainha, entretanto, não cumula de cuidados: observam-na criados à noite a caminhar pelo corredores, cabelos soltos, passos medidos, sem destino definido. Outros em cerimônias em seus olhos percebem lampejos de furtivas lágrimas. Por que ao dela se aproximar o Re...

Finitude

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 15/01/2019

Eu vi Isnaldo Coqui descer a ladeira Com os cabelos agora esbranquiçados E pensei: é a neve – o inverno chegou. Não que o inverno seja tempo insosso Nada disso, meu amigo, longe de mim. O frio é branco como a face do osso Que nos olha nos olhos de Rubim em Rubim. Então vi Dona Maria vendendo bananas Num carrinho de mão, ladeira acima Com saudades do filho que a vida levou. Pois Sinésio sumiu no caminhão do circo Para...

Uma pequena prece

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 09/01/2019

Com o barro cozido do chão Faremos outra cidade Vamos nascer nessa cidade Antes que o dia se apague Erguer uma nova nação Com o pó que resta no chão Por toda a eternidade Brindaremos à amizade Nós vamos nos dar as mãos Antes que seja tarde E sobrevenha a escuridão É tudo que eu lhes peço Do fundo do coração Compartilhar este Artigo

Poema natalino

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 28/12/2018

Neste Natal envio essa caixa com presentes para os amigos cheia de jovens anos e de anos antigos Há quem os prefira empoeirados outros os que saem do forno vai um ano bem passado? ou um tinindo de novo? Recebam como gestos de ternura contidos ao passar do tempo em toda falta de abraço em cada longo silêncio Tantos anos vou distribuindo eles me carregam em seu bojo então recomendo cuidado ao abrirem o estojo São quase sess...