Poesia

São João era natal

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 24/06/2020

Foto: Militão dos Santos lá vai o balão cai cai balão tinha traque a explosão a fogueira brincadeira a bombinha de salão o foguete as chuvinhas coloridas um clarão repentino lamparinas estreladas vão-se os fogos de artifício rebuliço diversão tem leitoa tem sanfona noite fria tem quentão céu se acende e o meu pai já me leva pela mão noite escura antigamente tudo esplende soltam bombas relampeia dentro em cada co...

O rio que quase apagou

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 18/06/2020

O som das águas ruivas do rio da pequena cidade, quase esqueci. Ficava no fundo do vale. Como eu, revoltou-se poucas vezes. Era brando, exceto quando a enchente exalava toda a sua fúria, a vontade de destruir. Hoje, enxuto, minguante: predominância de margens. O esquecimento devora, esfomeado, o seu, o meu manancial. Em seu curso, atravessei a infância. Água secou, lágrima também. Os peixes, o anzol no barro, a mantegue...

“Please I Can’t Breathe”

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 15/06/2020

Por demais tarde E o momento não permite Concomitância de astros Sangue e lua Grito e choro O ar que falta A face contra o asfalto Cenário de Goya Norte? Sul? Indiferente Nem o vento Que ora sopra Sabe nos mostrar Para onde fugir Comecemos pelo que intuímos Vai dar em caos, guerras Irmãos matando irmãos Carnificina, estupros E as mãos que reagiriam Tentando a sobrevivência Estão às costas atadas O que não se vai esq...

As palomas e os nomes

Publicado por Lucio Carlos Ferraz
Data da publicação: 10/06/2020

Minas são muitas, As “palomas” são mais, Minas do coronel, As “palomas” de aluguel. As palomas não cabem no mundo, Mundo tanto e singular, Mas as “rameiras” das Minas, São das Minas bem gerais. A “paloma” é uma “hetaira”, Que se revela singular, Tanto no seu prazer, Que é muito desigual, Quanto na própria dor, Mais que tudo, visceral. Neste ofício tão antigo, Quanto o primeiro castigo, O pecado já...

Alto da Partida

Publicado por Herr Augsten
Data da publicação: 04/06/2020

No caminho pro alto apertado Vejo de longe escalavrado Esquecido sujo, destelhado O descampado a me esperar… Caliandras e faveros florindo A primavera por pouco já vindo Numa fria tarde de domingo Formosa cagaiteira pra sombrear… Jacucaca e juriti-pupu chegando Inhambu-chororó assuntando Caburé buraqueiro aninhando Codornas em bando a assanhar… Chego cansado ao topo Carregando todo aquele esboço De mente,...

Pra onde tão longe vou?

Publicado por Herr Augsten
Data da publicação: 26/05/2020

Pra onde tão longe vou? De onde tão longe venho… Rompe-se o morro Mas não tem enfretamento Ladeia-se a serra. Passa-se o Bicudo Ribeirão escuro Indo pras bandas das Velhas. Luz de trás das moitas O que será da noite ? Brota-se mais um dia. Lá embaixo o vale O quão doce esse detalhe Inspira-se com valentia. A direita o Muquém Vive-se lá alguém ? Rumou-se sem covardia. Léguas se passaram Pensamentos vazaram O p...

Solidão sitiada

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 15/05/2020

fique em casa olhe pela janela na parede do prédio ao lado descubra manchas amorfas figurações um rosto de velho um borrão ilegíveis pichações abaixo no pátio mendiga curvada sobre o lixo seguida por um cão depois olhe para dentro para o espelho os vincos em torno à boca cabelos encanecidos para os pés os disformes joelhos que há muito não se dobram ante o deus esfacelado não fique em casa em direção qualquer n...

O pêndulo nos arrabaldes

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 11/05/2020

O poeta, qual enxadrista, avança, peça a peça, sobre o tablado onde dançam, entrelaçados, os tempos todos em que ele, o poeta, se refestelou. Delira perante a vitrine: ali expostas, uma a uma, as palavras que escreveu com seu sangue, desde a juventude, o inevitável caminho. Eis o script ante seus olhos de bardo que primeiramente os óculos e depois as larvas moldarão – ossos do ofício da sagrada mãe natureza. Terá ...