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O guarda-chuva de Nhá Chica

Publicado por Carlos Scheid em Religião
data: 21/08/2018

O guarda-chuva de Nhá Chica

O leitor já notou que as imagens dos santos sempre trazem um objeto que sinaliza a vida e a missão do eleito de Deus? Para São Pedro, as chaves; para São Paulo, a espada. Com Teresinha de Lisieux, o crucifixo e as rosas; com José de Nazaré, o lírio. É sempre assim.

Agora, temos a nova bem-aventurada, Nhá Chica de Baependi. Preso em seus dedos magros, um guarda-chuva velhinho, bem surrado, batido por sóis e chuvaradas, amarrado com um retalho de tecido retorcido. E eu pergunto: que nos diz esse guarda-chuva?

Antes que alguém me responda, devo lembrar o testemunho de uma religiosa Marcelina a respeito de Madre Teresa de Calcutá em visita ao Brasil. Em São Paulo, ao descer da luxuosa limousine que haviam enviado para buscá-la no aeroporto, a Mãe dos Pobres trazia toda a sua bagagem em um caixote de biscoitos, amarrado com cordão de persiana aposentado. Lá dentro, uma pequena bacia de plástico, para lavar o próprio arroz, e uma muda de roupas. O rude contraste entre o veículo e a visitante vale por um Evangelho…

Por que será que essas mensagens, isto é, esses querigmas, ou mensagens cristãs para os não convertidos, anunciadores da Boa Nova, costumam passar despercebidos? Qual será o diferente foco que atrai nossos olhares e nos impedem de ver o essencial?

Nada novo, aliás! Já notaram como uma pequena imagem de Nossa Senhora, simples e singela, é trazida para nossas comunidades e, enquanto o diabo pisca um olho, lá vem um “fiel” com uma coroa dourada para descaracterizar a pobre mocinha de Nazaré? Não queremos santos humanos, precisamos angelizá-los, nobilitá-los, erguendo-os acima de nossa prosaica realidade.

Ora, nada mais prosaico que a santidade! Ela é feita de dias e noites, vigílias e madrugadas, abraços e pequenos serviços prestados ao próximo. Ouso dizer que os milagres estragam os santos, pois desviam nosso olhar de suas virtudes, que devíamos imitar! Para algumas inexpressivas levitações, bilocações estranhas e aparições um tanto fantasmagóricas…

Querem outra prova? É só comparar um retrato real de Santa Teresinha com a imagem-padrão que se divulgou pelo mundo. Sabem o motivo da deformação? Suas irmãs do Carmelo acharam que a Pequena

Teresa não tinha “cara de santa”. Assim sendo, deram um upgrade em seu rosto arredondado, ao mesmo tempo em que “editavam” seus manuscritos, hoje restaurados, graças a Deus!, para eliminar expressões um tanto infantis que julgavam impróprias em uma santa…

E o guarda-chuva? – pergunta o leitor impaciente.

Ora, o guarda-chuva? Já ouviram falar em simplicidade? Em desapego? Em opção pela pobreza, não pelos pobres!? Em ser tão livre neste mundo, que não precisamos acumular balangandãs no armário?

Pois é: simplicidade e pobreza. Isto basta para um santo. Mas se a Beata Nhá Chica quiser abrir seu velho guarda-chuva e nos proteger das tempestades deste mundo, não se faça de rogada. Nós aceitamos…

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Carlos Scheid -
2 Comentários
  1. Lenício

    Seria uma espécie de amuleto, que protege contra mau-olhado, inveja, ou mesmo como instrumento de defesa?

    • Saulo Soares

      Como vai, Lenício? Não, com certeza, não é um amuleto ou instrumento de defesa. Quando estive em Baependi me informaram que as mulheres, à época, não se utilizavam de bengalas com faziam e fazem os homens. O guarda-chuva era um apoio para uma senhora idosa, como Nhá Chica. Mas, para além da praticidade de um guarda-chuva, guarda-sol, vai a simplicidade da figura que nos encanta. Não, não precisava de amuletos aquela que disse: “Isso acontece por que rezo com fé!” Quem tem fé, como Nhá Chica, dispensa amuletos e, quem ora como ela orava, tem em Deus a sua defesa. Grande abraço e fique com Deus!

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