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A esmola em baixa

Publicado por Antonio Carlos Santini em Comportamento, Crônicas, Religião
data: 06/04/2020

a esmola em baixa

Foto Maurício Melo/G1

Este ano, fui convidado a falar para um grupo de sacerdotes sobre a espiritualidade da Quaresma. Entre os ouvintes, havia também alguns leigos e duas religiosas. O auditório esteve sempre atento e me fez excelente acolhida.

Naturalmente, ao desenvolver o tema, não podia deixar de fazer referência aos três tópicos que a liturgia católica põe em evidência nessa fase do ano litúrgico: a oração, o jejum e a esmola.

Ao final, deixada livre a palavra, um dos presentes observou que, nos últimos tempos, temos sido aconselhados a não dar esmolas. Um dos motivos seria a existência de vagabundos que vivem de esmola simplesmente por aversão ao trabalho.

Lembrei-me, então, dos anos 70, em Volta Redonda, quando o CDL – Clube dos Diretores Lojistas fez uma campanha no mesmo sentido, com o objetivo de livrar o centro comercial da presença de mendigos que, segundo a entidade, “atrapalhavam o comércio”.

Ou seja, não é bem uma novidade a aversão pela esmola na sociedade de produção e consumo. Afinal, dar dinheiro chega a ser um ato de impiedade, quando o deus Mamon, nosso ídolo de plantão, é adorado incondicionalmente por essa multidão de fiéis pagãos, desde a Bolsa de Valores até o Fundo Monetário Internacional… Dinheiro não se dá, conquista-se pelo trabalho e acumula-se, posto a render.

Não é bem esta a mentalidade cristã. Francisco de Assis abriu mão do dinheiro do pai para identificar-se com os mais pobres e viver de esmolas. Dom Bosco saiu pelas ruas, adotando os pivetes de Turim, para dar-lhes educação religiosa e formação profissional. E, para mantê-los, Dom Bosco esmolava, esvaziando a bolsa dos príncipes e dos condes. O Santo chegou a chamar Nossa Senhora Auxiliadora de “esmoler”, pois através dela é que vinham as doações.

Dom Bosco, cuja biografia, com quase 1.500 páginas, acabo de traduzir do italiano, dizia aos primeiros Salesianos: “Não tenham vergonha de pedir esmolas. Os ricos precisam disso. Pode ser a última oportunidade de salvação para eles”. De fato, como um ato de misericórdia, a esmola nos abre para o amor de Deus, libertando-nos da escravidão aos bens materiais. O Apóstolo chega a dizer que a caridade “perdoa uma multidão de pecados” (cf. 1Pd 4,8).

Meditando sobre o assunto, vejo que a recusa da esmola está associada a uma baixa no sentimento da misericórdia. O pobre deixa de ser o objeto de nosso amor para tornar-se o alvo de nosso incômodo.

Vale recorrer à etimologia das palavras? “Esmola” nos veio do latim eleemosyna, que importou o termo do grego eleemosyne. Este substantivo está ligado ao verbo eleein, no sentido de “ter compaixão”, ou melhor, “com palavras, excitar a compaixão de quem ouve”. É por isso que, no antigo ato penitencial, nós rezávamos “Kyrie, eleison”, na condição de mendigos que estendem a mão vazia para Deus, à espera de sua compaixão e, simultaneamente, do seu perdão.

Ora, se precisamos da misericórdia divina, por que não exercitar a misericórdia humana? Será que não se lembram da lição do Mestre, que se identifica com os que têm fome e sede? “Eu tive fome e me destes de comer…” (Mt 25,35.)

Peço licença para revelar uma antipatia: não gosto daquela oração do dizimista que diz para Deus: “não é esmola, pois não precisais dela”. Primeiro, somos nós que precisamos da esmola, como gesto de libertação. Segundo, vejo nosso Deus como autêntico esmoler: a mão estendida, à espera de nosso amor, nossa piedade, nossa obediência. Um Deus faminto que não se cansa de comparecer ao nosso portão: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, eu entrarei em sua casa e cearemos juntos, eu com ele e ele comigo”. (Ap 3,20.)

No fundo, eu entendo: é muito chato um Deus que dá prejuízo… Mas não posso calar que Jesus de Nazaré elogiou as duas moedinhas que a viúva pobre deu de esmola. Claro que ele não olhou para as moedas… olhou para o coração…

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Antonio Carlos Santini - Licenciado em letras – Português e Francês. Professor de Artes e Ciências Humanas. Evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia/ Licenciado en letras - Portugués y Francés. Profesor de artes e ciencias humanas. Es evangelizador católico, compositor de músicas religiosas, autor de varios libros de catequesis y poesía. Residente em Belo Horizonte MG
Comentário
  1. Antonio Ângelo

    Bela reflexão nestes tempos convulsos, de tantas necessidades!
    Principalmente para os destituídos de tudo, inclusive muitas vezes da própria ‘persona’.
    “Meditando sobre o assunto, vejo que a recusa da esmola está associada a uma baixa no sentimento da misericórdia. O pobre deixa de ser o objeto de nosso amor para tornar-se o alvo de nosso incômodo”.
    Pura verdade. E que nos faz repensar conceitos que fazem a prática usual da realidade que nos cerca.

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