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O Estado venceu
Não penso em quase nada
Que não seja atender a seus ditames
Tempo para a poesia, ler um romance?
Para diversão, idas à natureza?
Que não me iluda
Há relatórios sem fim a preencher
Documentos antigos a resgatar
Ofícios intimidantes a responder
Esqueceu-se de um detalhe com a Receita?
Logo chega à porta o Leão
A troar em rugido ensurdecedor
Há que se comprovar isto e aquilo
Boletos sem fim a pagar
Regulamentações incontornáveis
Obrigações de toda sorte
Que a autoridade, dedo em riste
Está – sem trégua – a me cobrar
E que não me meta a olvidar o exigido
Ficar no foco o tempo todo é preciso
Sabendo que ao fim e ao cabo
Há ainda uma infinidade de regramentos
A serem cumpridos
Até que toquem as cornetas do Apocalipse
Quando no post mortem, afinal
Caberá a prestimosos terceiros
Providenciar a certidão de óbito
(Que em minha lápide conste:
Aqui jaz o que se quis poeta
Mais tempo dedicou ao establishment
Que aos inefáveis acenos das Musas)
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