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Itacambira – terceira parte

Publicado por Sânia Campos em Turismo
data: 09/11/2009

Itacambira - terceita parte

Iniciamos nossa caminhada. Estávamos descendo uma das encostas da Chapada conhecida como “Água Limpa”, que faz parte da Serra do Espinhaço, serra que começa perto de Ouro Preto, Minas Gerais, ruma para noroeste na direção de Belo Horizonte, e daí vai decididamente para o Norte, separando as bacias do rio São Francisco das bacias do leste, assumindo várias formas como a Serra do Cipó, o Serro, Diamantina, passa por Itacambira, Grão Mogol e segue na direção do Estado da Bahia onde forma a Chapada Diamantina. Quem conhece estes lugares sabe do perigo que representam as “trombas d’água”, chuvas que caem de uma só vez gerando grandes enchentes. O céu estava nublado, o que por si só não é incomum nessas altitudes de mais de 1300 metros. Mas o forte mormaço é que preocupava o guia, pois era o prenúncio da temida “tromba d’água”.

Itacambira - terceita parte

Logo tivemos que atravessar dois braços do córrego Mocó, que neste lugar forma uma pequena ilha. Cuidadosamente tiramos nossas meias e tênis para que não molhassem. Trabalho danado para colocar de novo. Mas comentou-se: “não quero andar de tênis molhado porque fica muito pesado.” Eu pensei: deve ser por isto que eu prefiro caminhar sem sapatos nem chinelos. Mas me avisaram que aqui não seria possível. “Eta trabalheira!” Apesar de raso, havia muitas pedras escorregadias no fundo, então a travessia era lenta. Voltamos à terra firme, ou melhor mais ou menos firme, porque em alguns trechos havia muitas pedras soltas e era muito escorregadio. A estrada foi tomada em algumas partes por espinho de lobeira, capim navalha, cipó cortante, gravatá e unha-de-gato. Era preciso ser atento e forte.

Itacambira - terceita parte

Daí a cinco minutos começa uma chuva. O céu fechou! Continuamos nossa caminhada e logo percebemos como foi inútil tirarmos as meias e calçados para que não molhassem no rio. A chuva engrossou, mas para não “morrermos na praia”, ninguém titubeou. Todos com coragem  e determinação seguiam em frente.

E a chuva engrossava mais e mais. Subíamos a estrada morro acima rumo ao divisor de águas dos córregos Mocó e Mocozinho. E ela ia se transformando num córrego tal o volume da enxurrada que descia. Não era possível ver o piso da estrada, ou a trilha que um dia foi estrada. Até os buracos imensos feitos pelos tatus canastra ficavam encobertos e de vez em quando afundávamos neles. Naiara, minha filha mais velha, bióloga, observava e nos esclarecia sobre os tipos de árvores que margeavam a estrada, o cerrado sujo: vinheiro preto, pau d’óleo, barbatimão, canela de ema…

E eu comecei a cismar. Estávamos ensopados, a chuva não dava sinal de trégua e a enxurrada descia para o córrego. E nós não tínhamos nenhuma forma de nos abrigar ou acampar do lado de cá do rio. E estava esfriando.

O Edivaldo, que era motorista e guia e o companheiro que já conhecia o local caminhavam mais rápido e estavam mais à frente, a perder de vista. Lembrei que o lanche estava com eles.

Depois de mais de uma hora de subida, debaixo do toró, decidi: “eu quero voltar!” Eles queriam chegar lá até o córrego Mocozinho, depois da outra vertente, mais meia hora de caminhada. Eu peguei o lanche e sem consultar os outros companheiros de aventura, mas sentindo a aprovação da Dona Coló, a falta de opção da Naiara e apesar da contrariedade de seu então namorado Carlinhos, ex-mestre de escotismo, que guiava adolescentes em caminhadas ecológicas, decidi voltar. Nós quatro então demos “meia volta, volver!’

Agora a descida escorregava que nem quiabo. Tentei apressar o passo e o Carlinhos me disse: Não adianta correr agora. A água da enxurrada vai chegar no córrego antes de você!”

Que sufoco! Chuva que não pára, pedras e barro, buraco de tatu canastra encoberto pela água, literalmente alguns trechos da estradinha viraram córregos. Escorreguei e torci o joelho. Que susto! Pensei que ia travar. Mas consegui levantar, esticar e não tive outra saída a não ser esquecer o joelho e seguir em frente. Dona Coló também escorregou, mas foi só um arranhão leve e se levantou. O Carlinhos cortou um galho de árvore e preparou uma bengala, ou melhor um cajado. Ficou sem graça de preparar o meu e ofender a sogra. Sim, porque ele, caminhante velho de guerra, agora teria que adaptar as técnicas para a “terceira idade”.

Dona Coló pensou que se cantássemos, nossa tensão diminuiria. Bem que a Naiara e o Carlinhos tentaram, mas não foram felizes na escolha da música:

“Sabiá danado do bico dourado…

Capim que ele come é capim do alagado

O capim do alagado é capim do meu amor

Sabiá danado do bico dourado!”

Como nós nos sentíamos alagados, a canção não nos inspirou.

E o córrego, ou melhor, o rio? “Não adianta preocupar. Vamos pensar no rio quando lá chegar” ponderou o Carlinhos, fingindo calma. E para nos tranqüilizar, relatou que como escoteiro teve vários treinamentos e portanto, era doutor em técnicas de sobrevivência na selva, fez cursos de primeiros socorros e até de resgate em rios. Não imaginava o efeito que estas informações tiveram. Fiquei aflita, só de pensar na hipótese  de que ele teria que aplicar todos esses conhecimentos, que eu temia serem mais teóricos que práticos, ali, conosco.

Finalmente avistamos o córrego Mocó, agora promovido a rio, e que rio! As pedras e o  trecho da margem que na ida nos serviu de “toilette”, agora estavam totalmente encobertos pelas águas rebeladas. E agora? Será que conseguiríamos atravessar? Este primeiro braço era mais estreito e na vinda tinha sido o mais fácil de atravessar. Vamos arriscar!

Com o galho de árvore, o Carlinhos testou a profundidade e avaliamos que ainda era possível. Fomos um a um, com apoio do Carlinhos e agora cada um tinha seu cajado. Chegamos na ilha. E o segundo braço do rio? Muito mais cheio e bravo. Mais largo também. Agora a água já puxava, e o risco de uma nova enchente (cabeça d’água) e de que o volume da água subisse rapidamente era real. Mas com  fé e coragem decidimos ir em frente. Ficar aqui só ia nos complicar. A dona Coló se prontificou a ir em primeiro lugar, depois que o Carlinhos atravessou e sentiu a situação. Ao caminhar para o rio ela tropeçou e caiu sentada, mas não se machucou. Então rapidamente atravessamos para a outra margem.

Neste momento fiquei preocupada com os dois que ficaram para trás, porque o rio enchia. Mas eles não eram marinheiros de primeira viagem.

Que bom! A chuva parou e, olhando para o céu, entre as nuvens surgia o azul para o lado do Mocozinho, para onde eles foram. Daí pensamos que a enchente ia passar.

Neste instante meus companheiros de viagem calaram e demonstraram certa frustação: “Será que não deveríamos ter seguido até o nosso destino?”. Percebi que até a Dona Coló estava um pouco arrependida do nosso recuo. E eu me senti meio culpada, por trazê-los de volta. Afinal viajamos mais de 400 km desde Belo Horizonte, e aquela era a aventura principal!

Ainda faltava mais meia hora de caminhada até o carro: subida, e que subida! No meio do caminho encontramos argila branca, segundo dona Coló, medicinal. Ela garante que cura até câncer. Se o meu joelho doesse seria um ótimo remédio. Esquenta-se num pano e aplica-se por quinze minutos, serve para cólicas, dores musculares. Cavamos com as mãos e trouxemos o que conseguimos colocar numa sacola plástica.

Resolvi abrir a mochila para trocar de blusa porque estava com muito frio. Que ilusão! Dentro da mochila tudo estava encharcado, blusas, cangas, carteira com  dinheiro, cheques e documentos. A filmadora também molhou. Mais uma lição para aventureiros do eco turismo: o que carregar e como?

Chegamos onde estava o carro, nas ruínas do rancho dos garimpeiros. Logo a Naiara sugeriu: “Vamos comer os biscoitos?”, e já se acomodou na estrutura de banco de jirau. No chão estava uma poça de lama. Então o Carlinhos ponderou que preferia lanchar na carroceria do carro, porque os “mosquitinhos pólvora” nesse momento atormentavam a todos, nos braços, no pescoço, mas principalmente na cara e nos olhos. Mas Naiara faminta não queria se deslocar. Então eu e a dona Coló aderimos a idéia do lanche e fomos nos acomodar na estrutura de troncos, que parecia ter sido construída para ser uma cama. Dona Coló sentou-se num canto e eu, depois de colocar o pote de biscoitos no meio,  fui me assentar no outro canto. E, num segundo, os troncos podres quebraram  num estrondo. E eu só não me esborrachei no chão de lama, porque os braços e as pernas ficaram dependuradas nos troncos mais fortes da estrutura da cama que resistiram. Consegui salvar o lanche segurando o pote que quase virou. Só caiu um biscoito, o que foi profundamente lamentado pela Naiara, que me via dependurada e disse: “Oh, que pena! Caiu um biscoito!”

Vivendo esta cena eu é que rachei de tanto dar gargalhada. Ri da barriga doer.

Mas tenham paciência que a aventura vai continuar. Até breve!

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Sânia Campos - Economista com Mestrado em Educação pela UFMG. Professora da PUC-Minas, já exerceu vários cargos na Administração Pública. Residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Maria de Lourdes Torres - Betim/MG

    Puxa, que aventura!!!! Mas deve ter sido muito divertida, apesar dos pesares.

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