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Com Medo da Rua

Publicado por Sânia Campos em Devaneios
data: 22/03/2012

Com medo da rua,

não se pode mais ver a lua

andando pelas ruas de Belo Horizonte

numa noite de lua cheia

 e passando pela rua da minha infância e juventude,

fiquei tocada com o “medo” que predomina,

insegurança e isolamento das famílias,

muitas cercas elétricas, muros altos, cadeados etc…

Veio este Devaneio …

Quem ainda olha o céu, admira a lua

e caminha tranqüilo pelas ruas?

A lua que foi cantada em prosa e versos

Inspirou poetas e amantes

Anda esquecida por nós

Cidadãos urbanos produtivos

“Homo economicus”,

vivemos em alta  velocidade.

A lua cheia está lá, ainda

Ao alcance dos nossos olhos

Lua pública, é de todos

Nem cobra pedágio.

Mas não temos mais tempo

Corremos pelas ruas da cidade.

Ah, as ruas da cidade!

Rua pública, é de todos.

Para ser ocupada, lugar de encontro.

Mas qual rua ????

Revisito a rua da minha infância

No espaço e na memória.

Fim de tarde, início de noite

Encontros que alegram o coração,

Vozes e gritos de crianças povoam a rua

Brincar de esconde-esconde, de rouba bandeira, jogar bola.

Jovens namoram no portão.

Passaram-se os anos

E como tudo, também mudou a minha rua.

Derrubaram a casa da vizinha

Construíram prédios, construíram muros.

Grades e cercas elétricas.

Os moradores ficam trancados em suas casas,

Isolam-se cada vez mais.

Fim de tarde, início da noite

A rua quase deserta.

Sussurram as últimas notícias

Sobre o risco, a morte, as armas e a violência.

Perigoso demais circular.

O medo agora é o que povoa esta rua.

Um silêncio de vozes,

Ouve-se o barulho das sirenes e dos carros.

Apreensivos, num passo apertado e tenso

Os estudantes e trabalhadores noturnos se cruzam pelas ruas,

Nenhum se arrisca a levantar a cabeça

Olhar e ver o outro.

Os vizinhos agora são estranhos,

Poucos ainda se cumprimentam,

Deu até saudade das fofocas,

Que com exagero e censuras

Faziam circular as notícias e acontecimentos da rua.

Já não se sabe quem morreu, quem nasceu

Quem chegou e quem partiu.

Todos se fecham em suas casas.

E atrás dos muros

Ligados na TV e nas redes virtuais,

Buscam conectar com o mundo.

Distantes do próximo

Na ilusão de que assim

Estaremos seguros!

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Sânia Campos - Economista com Mestrado em Educação pela UFMG. Professora da PUC-Minas, já exerceu vários cargos na Administração Pública. Residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Antonio Ângelo

    É isto mesmo, Sânia. Triste saber que moramos em cidades em que, ao invés de nos acolher, ruas e praças se tornam locais onde mora o perigo. Andar nas madrugadas e curtir lua e estrelas, quem diria, passou a ser atividade de risco!

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