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Não se aflija

Publicado por Antonio Ângelo em Poesia
data: 01/06/2018

Não se aflija

Não se aflija

Não se aflija, meu nego,
estou aqui.

Não se humilhe.
Você é um homem bom:
bom pai, bom companheiro.
Não se aflija.

Ainda que se sinta o último dos homens,
acabado, fraco, doente.

Sei, não é fácil vencer esta maré,
esta força que o derrota.

Mas vamos levantar a cabeça.
Não, não chore.
Olha que as crianças – que o admiram -
estão por perto e acabarão por também chorar.

O dia todo andou por esta cidade
e poucas latas, pouco vidro pode apanhar.
Quase não há o que vender.

Sei: na prateleira
apenas um resto de pão,
algum feijão,
e estamos famintos.

Mas é preciso resistir.
Não se amaldiçoe,
não veja só desgraça.
Descansa, procura dormir.

É um homem correto, um homem honesto
que não encontra emprego.
Sairei à rua, algum dinheiro vou conseguir…
Enquanto isto, vê se descansa.

Quem sabe Deus olhe por nós
e – se merecermos sua misericórdia –
motivo ainda encontraremos
para acalentar alguma esperança.

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Antonio Ângelo -
3 Comentários
  1. Sebastião Verly

    Antes de ir vê-lo li seu poema. Como v. entende a alma humana. Corpo e alma, mais existe mais corpo do que alma e você nos sensibiliza cada dia mais. Parabéns.

  2. aminthas

    Agora em que eu estou completamente desorientado, você me escreve NÃO SE AFLIGA . Será que terei motivos para acalentar alguma esperança….vou reler o poema em linha reta de F.Pesoa. abraços

  3. Wesley

    Quando nada mais restar, o que de nós restará? O poeta inconformado um mundo novo não refundará. Nem este mundo velho nos abandonará. Quando mais nada restar, há que se rezar e rezar… Um criador a nos ouvir, haverá?

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