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Enchente das goiabas ou de São José

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas Culturais, Datas Especiais
data: 16/03/2021

Goiabeira

As águas de março fecham o verão. Está em “O caçador de esmeraldas”, do poeta parnasiano Olavo Bilac (“Foi em março, ao findar da chuva, quase à entrada / do outono, quando a terra em sede requeimada / bebera longamente as águas da estação (…)”)

Em Março, a Igreja Católica comemora, no dia 19, o dia de São José sem fazer nenhuma ligação entre São José e as condições climáticas. Mas é fato que, no final do verão, as chuvas são mais constantes e, coincidentemente, é o mesmo período em que se comemora o dia do santo e que as goiabas estão maduras. Os padres, geralmente formados no meio urbano, sorriem discretamente pela crendice dos capiaus. Já os produtores rurais são capazes de afirmar que “o santo gosta mesmo de chuva. Não é apenas São Pedro não, São José também manda chuva para nós”, dizem.

No interior de Minas Gerais e dos estados vizinhos, no dia 19, alguns dias antes ou depois, a enchente é esperada com sobressaltos. Os antigos diziam que era o dia mais chuvoso do mês e muitos afirmam que é do ano inteiro. Os dados da meteorologia não confirmam a crendice popular. Qualquer ameaça de chuva requer muitos cuidados. Em geral, nesta data, como uma tempestade das derradeiras chuvas da temporada, cai uma tromba d´água de intensidade imprevisível. ”É a chuva chovendo, é conversa ribeira; Das águas de março, é o fim da canseira… São as águas de março fechando o verão” (Tom Jobim,”Águas de Março”).

Não chove necessariamente no dia 19. Meu pai contava que pode ser seis dias antes ou depois do dia de São José, e é muita água mesmo! No meio rural, há algumas décadas, nas margens dos rios, ribeirões e córregos era comum vicejarem as goiabeiras. As goiabas começavam a amadurecer em janeiro, de modo que em Março a maioria estava amarelinha nos pés caindo facilmente, os pés de goiabas ficam carregados de frutas maduras. Essa deliciosa fruta era saboreada principalmente pelos moradores e outra parte era para a deliciosa goiabada de produção caseira. Não havia ainda a logística para vender a fruta in natura nos “sacolões” das cidades.

Lembro-me que, quando era criança, cansava de comer goiabada nesta época porque minha mãe se desdobrava e fazia uma tachada. Muitas vezes ela era armazenada em uma caixa de madeira com capacidade de até 10 quilos, com tampa de correr e consistência dura para corte. Abria-se a tampa na medida certa para ir cortando as fatias daquele saboroso doce. Me lembro da travessura de uns primos meus que, sem que sua mãe percebesse eles pegavam a bem vigiada caixa na calada da noite, abriam a tampa inteira e iam cortando a partir do fundo. Enquanto sua mãe achava que ainda tinha a metade o doce acabava, pois só restava uma paredinha no meio.

Voltando à tão esperada enchente, no dia 19 ou próximos, os cursos d’água cresciam e transbordavam com força e velocidade. As águas limpas ou barrentas, conforme o local, num forte turbilhão, saiam lambendo os terrenos lindeiros, libertando as margens de todos os entulhos porventura existentes. E, nessa fúria inclemente, arrastava quase tudo que encontrava pela frente. Logo após a enchente, no meio dos pastos restavam milhares de goiabas maduras que eram devoradas pelas criações.

As pessoas adultas, em especial as mulheres, rezavam pelo abrandamento das chuvas. Em situações mais alarmantes chegavam a fechar as janelas tampando as gretas com cobertores, acendiam velas e rezavam o terço entremeado de “Salve Rainhas”. Para nós, ainda crianças, achávamos um espetáculo fascinante que fica em nossa memória! Nas pequenas cidades do interior era uma delícia nadar na enxurrada e fazer barquinhos de papel. Os filhos dos ricos ganhavam navios coloridos de matéria plástica, que era uma novidade, e ao contrário dos nossos barquinhos venciam a força das águas barrentas e ameaçavam ir embora por sua grande velocidade.

Os tempos mudaram. Este ano de 2016 até nos surpreendeu pelo melhor volume de chuva que os dois anos anteriores e os amigos da natureza esperamos que o agronegócio respeite mais as matas ciliares e preserve as nascentes cercando-as, para seu solo permanecer fofo e permeável e que os gestores urbanos se conscientizem da importância de se desimpermeabilizar o solo das cidades para que a água das chuvas, ao invés de provocar as indesejáveis inundações, possa alimentar os lençóis d’água que suprem os mananciais nos meses não chuvosos, garantindo vida para nossos rios, e principalmente que nossos filhos e netos tenham água pura para viver.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
4 Comentários
  1. Antonio Ângelo

    É isto, né Verly; quando vamos como sociedade nos conscientizarmos de que rios, riachos e tudo que tem a ver com a água são o que de mais rico tem uma nação?
    Obrigado pelo resgate desta visão interiorana tão autêntica e evocativa das águas de Março.

  2. Ronaro

    Obrigado. Eu queria entender o porque da expressão “enchente das goiabas”. Passei por mais de 10 sites, que só citavam o nome e não sabiam de onde vinha. Você foi o primeiro a realmente falar do assunto.

  3. Fernando

    É o encontro com a liberdade deixem as águas rolarem.

  4. Antonio Ângelo

    Ainda na semana passada, Verly, estive em São Bartolomeu, próximo a Ouro Preto, e à beira de uma estradinha de terra pude apanhar deliciosas goiabas ainda molhadas pela chuva recente.
    Pude reviver o prazer simples de nossas infâncias interioranas, quando estes preciosos frutos estavam sempre próximos, nos quintais ou no campo, a nos oferecer a delícia gustativa de suas polpas, em especial as vermelhas.
    Esta sua crônica fez-me reviver isto.
    Não nos falte S. José com as águas de março! E as goiabeiras carregadas

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