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Causos do Suzenando – I – Como um peixe fora d’água

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas Culturais, Humor
data: 11/07/2019

Causos do Suzenando – I - Como um peixe fora d’água

O município contava com 10 mil habitantes espalhados nas mais distantes fazendas e na cidade, não mais do que mil almas de gente, todas bem conhecidas. Aos domingos chegavam umas duzentas pessoas que vinham as mulheres para ir à Igreja e os homens para comprar sal e querosene e alguma ferramenta. Aproveitavam para tomar uma cerveja casco escuro no boteco do do Zé Poeta.

Durante a semana os homens da cidade tinham como diversão jogar truco nas mesas dos botecos. A turma ficava em volta da mesa esperava que o perdedor saísse para entrar no lugar dele…

Aos domingos na porta da venda do Dôco já era certa a presença de dezenas de pessoas para ouvir o Suzenando. Seus casos, encontravam sempre um gaiato que gritava escondido na turma: Vale seis!!! Numa referência de quando o cara truca sem cartas e o adversário botava seis. Vale seis, ladrão de milho…

Naquele domingo, Suzenando já esperava sua plateia logo depois da missa das oito, onde havia ido Dona Elvira, sua esposa para fazer suas preces demoradas…

O causo de hoje, se passou na fazenda do Lajedo, herança do velho Izidro Cordeiro, terreno que tinha uma lagoa funda quase braço do corgo do Salobro, onde “peixe era mato”, no dizer do povo mais simples. Traíra pulava o tempo todo nos dias de calor.

Na tarde de 18 de outubro, armava um chuvão danado e ele Suzenando passava na beirada da Lagoa quando viu uma enorme traíra “gemendo e chorando”. Pegou a bichinha e levou para casa, pensando num ensopado logo mais.

Elvira achou bonitinha e não deixou matá-la.

A traíra pulou da mesa para o chão e foi pulando pela casa toda.

Daquele dia em diante, onde ele, Suzenando, ia a traíra ia atrás.

Elvira adorava ver o marido sair sempre acompanhado da sua fiel e grata companheira.

Mas, veja o que aconteceu, dizia o velho entre uma cheirada de rapé e a limpeza do nariz com lenço bordado com S pela Elvira… ele explicava sempre:

“Dia 18 de novembro chovia como ventava e os dois voltavam do roçado, e, ao passar por uma pinguela no Corgo do Salobro, a traíra escorregou caiu no córrego afogou e a enchente a levou embora…”

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Antonio Angelo

    Esta é pra valer 6 mesmo, hein meu caro Verly!

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