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IV – A internacionalização do futebol

Publicado por Mateus Resende, Abner Faustino e Rafael Orsini em Futebol
data: 27/07/2017

IV – A internacionalização do futebol

Seleção de futebol inglesa em 1908

O futebol apareceu na Olimpíada de 1900, em Paris, e em 1904, em St. Louis, apenas como esporte de demonstração, por ser considerado de pouca expressão. O Comitê Olímpico Internacional (COI) aceita o futebol como parte do programa olímpico apenas na Olimpíada de 1908, em Londres. A Grã-Bretanha conquistou a medalha de ouro em casa e em 1912 em Estocolmo. Os Jogos Olímpicos não foram disputados em 1916, por conta da Primeira Guerra Mundial. Em 1920, a Bélgica foi campeã dos Jogos de Antuérpia. Em 1924, em Paris, e em 1928, em Amsterdã, o Uruguai conquistou as medalhas de ouro, dando início ao conhecido jargão de ‘celeste olímpica’. Em 1932, a Olimpíada seria disputada em Los Angeles, mas por causa da força do futebol americano sobre o ‘soccer’ (como é conhecido nos Estados Unidos), o futebol foi deixado de fora do programa olímpico. A Fifa, então, decidiu criar a Copa do Mundo paralela às Olimpíadas, também de 4 em 4 anos. O então bicampeão olímpico, Uruguai, foi escolhido como sede da primeira Copa do Mundo, por causa dos feitos dentro de campo e também para homenagear o país que acabara de completar 100 anos de independência. O Uruguai se comprometeu a pagar a despesa da viagem para todas as seleções, mas poucos países, principalmente europeus, compareceram ao torneio. Participaram do torneio: Uruguai, Argentina, Bélgica, Bolívia, Brasil, Chile, Estados Unidos, Iugoslávia, México, Peru e Romênia.

No Brasil, a preparação e a expectativa para a Copa do Mundo de 1930 era tamanha que uma multidão fez festa para a seleção antes do embarque no navio SS Conte Verde. “O Conte Verde transpunha a barra levando em seu bojo os depositários da esperança de todos os verdadeiros sportmen de nossa pátria.” (JORNAL do BRASIL, 3/7/1930). A seleção brasileira não foi bem na primeira Copa. Dois jogos, uma vitória contra Bolívia e uma derrota para a Iugoslávia. A seleção foi eliminada na primeira fase. O Uruguai terminou como o campeão mundial.

Mas foi na Copa de 1938 que o futebol foi incorporado à identidade do brasileiro. Com uma seleção formada de craques como Leônidas, Domingos da Guia e Romeu, o Brasil ficou com o terceiro lugar. A única derrota da seleção canarinho foi para a campeã Itália. A popularização do esporte nas classes marginalizadas também se deve ao fato da seleção ter ídolos de raça negra, como Leônidas e Domingos. As inaugurações de estádios como o São Januário, no Rio, no final da década de 1920, e do Pacaembu, em São Paulo, em 1940, transformaram o futebol em um esporte de multidão.

O surgimento de jogadores como Pelé, Didi e Garrincha, oriundos da classe trabalhadora e pobre, os títulos das Copas do Mundo de 58, 62 e 70, e a utilização de suas imagens, principalmente durante o Regime Militar, desenvolveram a identificação do futebol ao nacionalismo, a cultura popular e ao ‘sucesso’ do país como um todo.

O futebol é muito mais que um esporte, ou mesmo um modo de vida: é uma metáfora da nova ordem mundial, com toda a sua complexidade. Os clubes de futebol espelham classes sociais e ideologias políticas, e frequentemente inspiram uma devoção mais intensa que as religiões. É um esporte com interesses reais – capaz de arruinar regimes políticos e deflagrar movimentos de libertação. (FOER, 2005, s/p)

A Organização das Nações Unidas para Educação e Cultura (Unesco, 1982), considera a cultura como “o conjunto dos traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abarca, para além das artes e das letras, os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”. Nesse parâmetro, é comum ver referências ao Brasil como “país da bola” e “país do futebol”.

“Cultura também é considerada o meio social no qual vive e convive o indivíduo” (SOUZA, 2013, p.11), no contexto que se encaixa a paixão de uma pessoa por um clube, tornando-se um seguidor fiel e defensor de tal camisa. Para Eliana das Dores de Souza (2013, p.11), “uma pessoa é capaz de trocar de carro, casa, terminar uma relação amorosa, se distanciar dos entes queridos, mudar de emprego, profissão e cidade, mas raramente troca de time”.

O futebol brasileiro visto como uma prática social, também se constitui num meio pelo qual os indivíduos expressam determinados sentimentos…o fato de torcer por um time mesmo quando esse não ganha títulos durante muitos anos pode ser vivido como um teste de fidelidade. Suportar as gozações de torcedores contrários após uma derrota põe à prova a paixão pelo time, mesmos nos momentos difíceis. Vencer um jogo contra um time tecnicamente mais forte reaviva a crença em um ser superior que realiza milagres (DAÓLIO, 1997, p. 122).

O futebol não está presente apenas no comportamento passional e no nacionalismo brasileiro. O futebol se verifica na literatura, nos filmes, nas novelas, nas músicas e em todo o contexto histórico do Brasil. Para Rinaldi, o futebol tem a capacidade de expressar a sociedade brasileira:

Pode-se verificar que o futebol expressa a sociedade, pois o jogo está na sociedade tanto quanto a sociedade está no jogo. Ambos expressam-se mutuamente, principalmente no que se refere à subjetividade das relações estabelecidas dentro do contexto de uma partida de futebol, as transgressões às regras, à ordem e à desordem, o envolvimento da torcida com seu time de coração, chorar ou se alegrar, brigar ou festejar. O futebol teria, assim, uma riqueza simbólica, que poderia expressar a sociedade brasileira. (RINALDI, 2000, p.171)

O futebol, por se tratar de um esporte de massa, moveu e move multidões por onde passa. Sejam dos adeptos espontâneos, que se fascinam pela forma como a partida se desenrola, até os fanáticos que acompanham suas equipes por onde for, as torcidas sempre estiveram presentes desde a fundação dos clubes e ganharam forma com o passar dos anos.

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Mateus Resende, Abner Faustino e Rafael Orsini - Mateus Resende Alves (in memoriam), Abner Cristian Moreira Faustino e Rafael Pinho Orsini são formados em Jornalismo pela PUC Minas. Os três trabalharam sobre a temática das torcidas organizadas Galoucura e Máfia Azul analisando o Estado de Minas.
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