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Dona Joaquina do Pompéu, a Dama do Sertão

Published by Padre Joao Delco Mesquita Penna in Cultural Chronicles, History
data: 30/05/2022

Dona Joaquina, óleo sobre tela, Yara Tupynambá

Dona Joaquina, óleo sobre tela, Yara Tupynambá


A história do país é repleta de mulheres corajosas, empreendedoras e sempre dispostas a vislumbrar, de cabeça erguida, novos horizontes e oportunidades. Entre os grandes nomes da nossa história está o de Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco Souto Maior de Oliveira Campos, a poderosa Joaquina do Pompéu, a Dama do Sertão, ou simplesmente a Sinhá Brava! Não se sabe como era a real fisionomia da fazendeira, mas um quadro que existe no salão nobre da Câmara local, pintado em 1998 por Yara Tupynambá, dá o tom da figura valente, determinada e que parecia viver em dois mundos.

“O pé calçado simbolizaria as suas ligações com a corte, enquanto o descalço indicaria o amor pelo sertão”, diz o diretor do centro cultural e presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, Artístico e Histórico de Pompéu, Hugo de Castro. Segundo pesquisas, a mineira era grande criadora de gado, destacando-se pelo fornecimento de alimentos para a corte portuguesa, tão logo dom João VI (1767–1826) e sua corte esfomeada desembarcaram no Rio de Janeiro em 8 de março de 1808. Joaquina era filha do português Jorge de Abreu Castello Branco, bacharel em Teologia e Direito pela Universidade de Coimbra, que depois de ficar viúvo se ordenou padre, e de Jacinta Tereza da Silva, nascida na Ilha do Faial. Em 1760, a família se mudou para Pitangui, onde a menina, com apenas 12 anos se casou com o capitão Inácio de Oliveira Campos, neto do bandeirante Antônio Rodrigues Velho, o Velho da Taipa.

O casal foi morar na Fazenda de Nossa Senhora da Conceição, que havia pertencido a Antônio Pompeu Taques, primeiro morador da região – o nome da cidade de Pompéu é uma homenagem a ele. Tiveram 10 filhos, 87 netos, 333 bisnetos e 1.108 trinetos. O número de descendentes chega a 80 mil, com pessoas espalhadas pelo Brasil e documentadas em livro, conta Hugo.

Rica e poderosa, assim era a Dama do Sertão. Tanto que teria um patrimônio estimado em 1 milhão de alqueires de terra, 2,4 mil juntas de bois carreiros e cerca de 10 mil cavalos, além de muitos escravos. O pequeno império se estendia de Pará de Minas a Pitangui e de Pompéu a Paracatu, na Região Noroeste. A sanha empreendedora teria aflorado com a doença do marido, que ficou paralítico, obrigando a mulher a ficar à frente dos negócios.

Aproveitando as boas chances que a vida e o mercado lhe ofereciam, dona Joaquina teve o nome em alta nas esferas reais por suprir e doar mantimentos à corte portuguesa recém chegada. Dizem que foram 200 bois e essa ajuda, aceita de bom grado por dom João VI, teria fortalecido a imagem comercial da fazendeira e aberto as portas da praça do Rio de Janeiro para venda de gado e de outros mantimentos provenientes de Pompéu. O historiador Agripa de Vasconcelos afirmou que Joaquina era talvez a maior produtora rural da Colônia, que veio a se tornar Reino Unido e Império.

No seu solar em Pompéu, demolido em 1954, dona Joaquina recebeu e hospedou em 1811 expedições chefiadas pelos barões Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777–1855), diretor do Real Gabinete de Mineralogia do Rio de Janeiro, e, dois anos depois, Georg Wilhelm Freyreiss (1789–1825). Ao retornar à corte, Eschwege dedicou seu livro Pluto Brasiliensis à matriarca de Pompéu e sua família. Eis um trecho da obra: “…de Pitangui em diante viajamos por améns campos, banhados por numerosas lagoinhas, onde ao lado de uma jiboia, milhares de aves palustres aquáticas, grandes e pequenas ostentam a sua deslumbrante plumagem… Chegamos assim à Fazenda do Pompéu que possui uma superfície de 150 léguas quadradas pelo menos. Ela é habitada unicamente pela proprietária deste principado, dona Joaquina Bernarda, cujos súditos são as 40.000 cabeças de gado…”

Entusiasmado com o legado da fazendeira e acostumado a fazer palestras sobre a vida dela, Hugo conta que dona Joaquina fez também grandes doações de gado para abastecimento das tropas, no período que antecedeu a independência, em 1822. Segundo o escritor Agripa Vasconcellos, o patriotismo de dona Joaquina era tão grande que, nessa época, ela “usava em sua roupa fitas na cor verde-e-amarelo”. E mais: ela esteve com dom Pedro I (1798–1834) quando o príncipe visitou Vila Rica, atual Ouro Preto e, segundo relatos da época, “uma grande comitiva suportada por mais de 10 mulas chegou a Vila Rica, parecia até o cortejo de um bispo”.

“Foi uma grande senhora, e das lendas que existem, pouco se pode aproveitar. Se analisarmos a lógica da época e documentos, percebemos que era uma boa mãe, uma boa sinhá, enfim, uma grande matriarca à frente de seu tempo. Podemos concluir tudo isso com um exemplo simples e de conhecimento geral, mas que as pessoas nunca param para pensar. Ela mandou construir um cemitério cristão para sepultar seus escravos, fato inédito, pois os cativos, na maioria das vezes, eram tratados como animais. Na fazenda dela, quando os negros morriam tinham direito a missas e a uma sepultura digna”, diz Hugo.

Quem for a Pompéu deve visitar o Centro Cultural Dona Joaquina do Pompéu, no Bairro São José, a um quilômetro do Centro. O casarão colonial com dois pavimentos abriga o Museu da Cidade, anfiteatro e área administrativa, guardando objetos que pertenceram à Dama do Sertão, como oratórios, bengala com cabo de bronze, espadas do filho e do neto da matriarca e outros pequenos tesouros. Pintado de azul e datado de 1871, o prédio foi erguido pelo bisneto da personagem ilustre, Antônio Cândido de Campos Cordeiro, nas terras da sua antepassada – a Fazenda do Laranjo, perto do Rio Paraopeba.

FONTE: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/08/25/interna_gerais,313821/conheca-a-historia-da-dama-do-sertao-uma-mulher-a-frente-do-seu-tempo.shtml

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2 Comentários
  1. Maria de Fátima cunha

    Lindo quadro . Sou descendente e gostaria de saber se há previsão de atualização do livro, minhas filhas não constam da última edição.vou encaminhar o artigo para meus primos.varios tem manifestado interesse em adquirir o livro com a árvore genealógica, mas não sabemos se ainda está a venda e onde comprarm

  2. Antonio Angelo

    Detalhes interessantes da rica história de Minas, tão pouco em destaque entre os que nascemos aqui!
    Padre João Delco nos ajuda a entendê-la um pouco.

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