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Terror, orgulho e desespero

Publicado por Carlos Scheid em Europa, Oriente Médio, Terrorismo
data: 23/11/2015

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Os acontecimentos recentes em Paris são uma nova página de um caderno que deverá receber ainda muitas anotações. Para que eles fossem uma página final, seria preciso que os dois lados exercitassem duas virtudes fundamentais na construção da paz.

Que pode levar uma jovem na flor da idade a envolver a própria cintura com explosivos e acioná-los em lugar público para espalhar a destruição e a morte à sua volta? Só encontro uma resposta: o desespero. Só a absoluta falta de esperança pode movê-la a isto. Nem o ódio nem a ilusão de heroísmo justificam esta forma de terror.

Por outro lado, como reação aos ataques de Paris, os cidadãos franceses, herdeiros de 1789, saíram em caminhada entoando a “Marselhesa”. Na letra cantada, um desejo coletivo era expresso: “Que um sangue impuro ensope as eiras de nossas plantações” [Qu’um sang impur abreuve nos sillons.] Fica implícito: nosso sangue é puro. O sangue do inimigo é impuro. Será mesmo?

Muitos já comentaram que a letra do hino nacional francês não faz sentido em nossos tempos, em claro contraste com os hinos de outras nações, muitos deles autênticas orações que agradecem a Deus pelos dons e pelas belezas de sua pátria. Seja como for, é visível o “orgulho nacional”. Nacional, ou não, orgulho é orgulho. Exatamente o contrário da virtude da humildade.

Se os franceses fossem mais humildes, haveriam de lembrar-se dos tempos que os soldados franceses marcaram com sua presença vastas regiões do continente africano: África Equatorial Francesa (hoje, Congo, Gabão, República Centro-Africana e Chade), África Ocidental Francesa (hoje, Mauritânia,Senegal, Mali), Guiné, Costa do Marfim, Níger, Burkina Faso e Benim), além de Marrocos, Tunísia, Argélia, Mauritânia e Madagascar.

Nestas áreas, a famosa Legião Francesa bateu-se com o orgulho nacional de tuaregues e berberes, bambaras e cabilas, entre outras tribos locais, deixando um rastro de sangue e miséria. A mesma humildade não se esqueceria das riquezas que foram rapinadas da África, desde as presas dos elefantes aos minérios do subsolo.

Se a Europa fosse humilde, faria um mea culpa e pensaria em reparar – inclusive financeiramente – todo o mal perpetrado contra os africanos. Tal reparação talvez oferecesse aos terroristas de hoje uma janela de esperança que lhes permitisse divisar um futuro melhor. Se não há futuro, o presente não faz sentido.

Assim, com esperança de um lado e humildade do outro, creio que o terror sairia de cena.
Em tempo: amo a França. Estudei com padres franceses e recebi da cultura francesa um tesouro inestimável. Mas nada disso me impede de ver a dor e o desespero do outro lado do terror…

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Carlos Scheid -
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