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Em defesa do pseudônimo

Publicado por Carlos Scheid em Crônicas Culturais, Literatura
data: 05/02/2016

em defesa do pseudonimo

O escritor Pierre L’Ermite escreveu durante 60 anos no jornal católico francês “La Croix”. Publicou 27 romances, traduzidos em vários idiomas, 16 dos quais atingiram tiragem superior a 100.000 exemplares. O único problema é que Pierre L’Ermite nunca existiu. Era apenas o pseudônimo do Pe. Edmond Loutil [1863-1959]. Em tempo: o verdadeiro Pedro, o Eremita, vivera no Séc. XI e pregou a Cruzada no tempo do Papa Urbano II.

Na história da arte e da literatura, os pseudônimos ocupam um lugar à parte, desempenhando funções muito especiais. Graças a um pseudônimo com ar de sambista – Julinho de Adelaide -, o músico Chico Buarque de Holanda pôde driblar a censura do governo militar e continuar publicando suas composições.

Além de ferramenta na luta contra a opressão, o pseudônimo permite a luta contra o preconceito. Nos anos 50, o mundo acadêmico na Argentina era claramente anticlerical. O livro de um padre jamais teria acesso às universidades. Um sacerdote da Congregação de Bétharram acabara de escrever excelente compêndio de Literatura Espanhola. Teve a idéia de ocultar sua real condição e assinou a obra com o nome de Tristán Valdaspe, adotando como sobrenome a região em que nascera: o Valle de Aspe, no lado francês dos Pirineus. O livro foi adotado e recebeu aprovação geral.

Outros se ocultaram por trás de pseudônimos em defesa de sua própria imagem. Seria o caso de Alceu Amoroso Lima que hesitava em assinar páginas de crítica literária, talvez um trabalho “menor”. Adotou o pseudônimo que logo deixaria na sombra o próprio autor: Tristão de Athayde. Anos depois, não sem desgosto, descobriu que existira na história um Tristão de Athayde, sanguinolento pirata português…

Até Machado de Assis recorreu a números pseudônimos. Um deles – “Boas Noites” – assinava as críticas de Machado, um afrodescendente, dirigidas aos fazendeiros pró-abolição. Nelson Rodrigues tornou-se mulher com o nome de Suzana Flag para publicar folhetins pornôs. Ainda bem que nem todo pseudônimo será castigado…

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