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De volta ao vale

Publicado por Carlos Scheid em Antropologia, Crônicas Culturais, Europa
data: 29/06/2016

de volva ao vale

Segundo os antropólogos, muitos idiomas arcaicos possuíam uma palavra para designar o “homem”, o ser humano, que só se aplicava aos membros da mesma tribo ou do mesmo clã. Os “estrangeiros” do vale vizinho não mereciam esse tratamento, não eram “humanos”.

Mesmo entre os gregos e os romanos, o estrangeiro era visto como um ser inferior. Os “de fora” eram chamados de “bárbaros”, uma espécie de onomatopeia para indicar alguém que gaguejava ao tentar falar o grego.

Nota-se, porém, uma sensível diferença entre os habitantes das grandes extensões, como os beduínos do Saara e os esquimós da Sibéria, notáveis por sua hospitalidade, e os povos insulares, muito mais fechados em sua própria cultura.
As Ilhas Britânicas sempre foram um caso especial de autossuficiência. É conhecida a blague sobre o noticiário de uma emissora inglesa: “Forte neblina cobre o Canal da Mancha. O Continente está isolado”. Pobre do Continente que não pode ter acesso às ilhas…

Mesmo assim, a Inglaterra descobriu o mundo. A partir do Séc. XV, seus navegantes e corsários singraram os sete mares, trazendo o chá da Índia, a seda da China e as batatas da América Central. E não se envergonharam de rebatizar nossas batatas: batata inglesa…

Nas primeiras décadas do Séc. XX, a presença inglesa se estendia por todo o planeta, desde o Caribe à Polinésia, com forte influência em grandes áreas, como os vales do Indo e do Nilo. Após a Segunda Guerra Mundial, essa presença se atenuou, mas o poder econômico inglês e o valor de sua moeda não cederam terreno.

Durante meio século pelo menos, a população inglesa aceitou a presença de imigrantes, ainda que os desprezasse. O próprio Mahatma Gandhi falou de sua experiência como imigrante na Inglaterra e dos maus tratos recebidos.
Agora, no entanto, em pleno Séc. XXI, a fatia mais conservadora do Reino Unido decidiu dar um basta ao crescente ingresso de estrangeiros em sua ilha, especialmente diante da perspectiva de ser forçada pela Comunidade Europeia a acolher os deslocados pelos atuais conflitos no Oriente.

Trata-se de uma escolha bem clara: nós nos bastamos. Não precisamos do outro. Aliás, o outro nos incomoda. Temos nossa própria terra, nossa própria língua, nossa própria moeda. Temos até nossas próprias medidas, completamente diferentes desse estranho sistema decimal inventado pelos franceses. Nossas medidas são a polegada, comprimento do polegar do Rei Henry I, a jarda, comprimento do braço do Rei Henry I, o pé do Rei Henry I etc…, sem falar na mão de direção das rodovias pelo lado esquerdo.

E assim, com pounds e shillings, com bushels e galões, com milhas e furlongs, o inglês faz questão de ser diferente. Se o custo dessa diferença for uma navegação contra a solidariedade e a integração, contra a fraternidade e a comunhão entre os povos, azar o deles!

E Deus salve a Rainha!

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