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Conversa de compadre

Publicado por Carlos Scheid em Cotidiano, Crônicas
data: 23/03/2017

conversa de compadre

- Entre, compadre! A casa é sua!

Primeiro, o Coronel Matias ouviu a porteira bater. Só depois o tropel cadenciado da mulinha marchadeira. Chegou à janela e reconheceu o visitante, que ia atravessando o raso do corguinho.
- Ó de casa! – gritou o compadre Janô.

Antes que o dono da casa respondesse, o velho Sultão deu dois latidos, meio rouco, só para cumprir a obrigação. Afinal, a visita era conhecida.
- Se abolete, compadre, e venha sentar junto do fogão!

Nada de sala de visitas, que o calor do dia já passara e começava a soprar uma aragem fria. Na verdade, a sede da fazenda não tinha sido construída em local muito apropriado. Quase numa encosta noruega. E junho andava pelo meio, a colheita praticamente finda, a friagem incomodando.
- Chegue-se ao fogo, compadre… Está esfriando…
- Certo, compadre Matias. Já invernou…

O dono da casa tinha acabado de enrolar um cigarro de palha. Voltou-se para o recém-chegado, que segurava na mão um surrado chapéu de couro, e ofereceu:
- O compadre aceita um cigarro? A palha é aqui da fazenda…
- É fumo forte?
- Goiano, compadre. E do bom!

Em silêncio, compadre Janô apanhou algumas palhas, prendendo-as entre os dedos. Abriu a lâmina do canivete com cabo de chifre, “JMC Campanha”, e foi alisando as palhas. Depois, sem pressa, como quem celebra um ritual, ia cortando bem fininhas as escaras do fumo de rolo. Quando ficou pronto, debruçou-se em direção ao fogão de lenha e acendeu o pito em uma brasa que tinha rolado.

Lá fora, o galo cantou, preparando-se para encerrar o dia. Na boca do forno, o gato rajado espreguiçou-se. Janô percebeu o bichano e notou que ele tinha as pontas do bigode retorcidas pelo calor do fogo.

Compadre Matias raspou a garganta e arriscou:
- ‘Tô notando que o compadre parece preocupado…
- Pois é, compadre. A vida são problemas…
- E que é que lhe incomoda?

Janô Medeiros olhou pela janela e viu as flores vermelhas do bico-de-papagaio, como se o arbusto estivesse sangrando.
Arriscou:
- É o Fidélis…
- Seu cunhado?
- Pois é, compadre. O safado me deu um cheque sem fundos…
- Isto não se faz!

A penumbra ia invadindo a cozinha de terra batida. O silêncio foi longo. Um graveto estralou no fogão, bem debaixo do bule de café que ficava em banho-maria.
- O pior é que minha mulher não quer que eu faça nada. Disse que o irmão dela tem seus motivos…
- Será mesmo, compadre? Esses assuntos de família são meio chatos… E delicados… É preciso muito jeito pra lidar com as pessoas…
- Pois eu acho que já esperei o que basta. ‘Tô pensando em partir pra ação…

Compadre Matias resolveu especular:
- E de onde apareceu o tal cheque?
- Bem, foi de uma novilha que eu vendi pro Fidélis. Novilha boa, girolanda. Já fez três meses… Eu nem queria vender. Foi ele mesmo que insistiu…
- E por que não pegar a rês de volta, compadre? Ele não aceita devolver?
- Diz o safado que já passou pra frente… Que a bichinha era meio cega e vendeu com prejuízo a um boiadeiro que passou por lá… Agora, eu acho que vou ter que tomar umas providências…
- Providências?
- Exato, compadre. E foi por isso que dei uma passadinha por aqui.

E, olhando de novo para o vermelhão do bico-de-papagaio, Janô pediu:
- O amigo compadre não me empresta a sua cartucheira? Aquela 28, de dois canos?

Coronel Matias mudou o cigarro de palha para o outro canto da boca e respondeu:
- O compadre me adesculpe, mas não vou poder atender… Ontem mesmo, passou por aqui o Fidélis e levou a espingarda emprestada.

E antes que o visitante dissesse alguma coisa, o compadre Matias emendou:
- A essas horas, amigo compadre, o seu cunhado já deve estar de tocaia, lá debaixo da paineira velha…

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