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Boas vindas aos imigrantes!

Publicado por Carlos Scheid em Cotidiano, Crônicas Culturais, Internacionais
data: 14/09/2018

Boas vindas aos imigrantes!

Será mesmo? Tem fundamento a fama de ser o Brasil uma nação hospitaleira? Entendo que essa auréola deve ser tomada cum grano salis, ou seja, com parcimônia! … Nossa história parece desmentir a fama de acolhedores…

Ouvi de amigos italianos – concretamente, a família Tomasi – que sua vida ao Brasil foi decepcionante. Saíram da Itália com documentos assinados no consulado brasileiro que garantiam condições adequadas de trabalho e moradia. Chegando ao Brasil, dirigiram-se para Pirajuí, SP, onde iriam trabalhar na lavoura. Para seu susto e revolta, as famílias dos imigrantes foram alojadas em pocilgas onde, até então, criavam porcos. Poucos meses depois, o patriarca preferiu regressar à Itália, deixando aqui alguns dos filhos. E não se trata de um caso isolado. Os contratos de trabalho raramente foram garantidos pelo governo ou respeitados pelos donos da terra.

Outro indício de nossa atitude em relação ao imigrante ficou vivo em nossa maneira zombeteira de nos referirmos aos estrangeiros. O japonês e o português foram reduzidos a “japa” e “portuga”. Sírios e libaneses eram todos atingidos pelo rótulo de “turcos”. Os alemães e os poloneses do Sul viram-se forçados a formar comunidades fechadas. Nas escolas públicas, suas crianças sofriam “bullying”, termo que ainda não existia, devido às dificuldades idiomáticas. O clima da Segunda Guerra Mundial agravaria as coisas. Em Belo Horizonte, o povo patriota chegou a identificar como canhão a extremidade do telescópio do Colégio Arnaldo, mantido pelos padres alemães da Congregação do Verbo Divino.

Quando o imigrante começou a acumular bens materiais e a destacar-se por sua capacidade de trabalho, foi a vez de nossos capiaus tupiniquins desenvolverem uma mistura de ciúme e irritação, pra não falar em ódio. Com perseverança e coragem, o imigrante conquistaria seu lugar no cenário brasileiro.

Só a título de exemplo, o ministério do Presidente Figueiredo incluía, entre outros, os seguintes sobrenomes: Karam, Stábile, Viacava, Cals, Venturini, Starling, Abi-Ackel, Heinz, Rischbieter, Andreazza, Simonsen, Jost, Ludwig e Farhat. Tudo gringo!

Agora, estamos recebendo africanos, haitianos e outras nacionalidades premidas pela fome e pela guerra, entre eles iraquianos, sírios e palestinos. Não me consta que nossa sociedade esteja se desdobrando para facilitar seu advento. São raras as comunidades paroquiais que organizaram equipes pastorais com esse ministério.

A partir da segunda-feira 2 de abril de 2018, o Brasil se tornou mais rigoroso em relação à entrada de visitantes espanhóis. Entre as exigências acrescidas pelo controle imigratório estão a exigência de bilhete aéreo de volta, com data de retorno marcada, comprovação de meios econômicos para permanência no Brasil, no caso, a quantia mínima de R$ 170 para ingressar em território brasileiro. Ainda que se trate de uma espécie de retaliação, apenas reforça nossa alergia aos estrangeiros.

Sim, o europeu não serve de modelo como pastoral de acolhida. Entre 2007 e 2011, informa o Itamaraty, 10.020 brasileiros foram barrados ao desembarcar em aeroportos da Espanha. As reclamações falam de tratamento ríspido e inflexível por parte das autoridades de imigração espanhola, o que não chega a espantar diante do quadro de desemprego em vários países do Velho Continente.

De qualquer modo, não somos tão cordiais quanto pensamos…

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Carlos Scheid -
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