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A rainha triste

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 16/01/2019

É um déspota esclarecido que bem trata os súditos e cobra-lhes justos impostos. Ninguém o vê em público a usar indevidas palavras ou cometendo disparates. À Rainha, entretanto, não cumula de cuidados: observam-na criados à noite a caminhar pelo corredores, cabelos soltos, passos medidos, sem destino definido. Outros em cerimônias em seus olhos percebem lampejos de furtivas lágrimas. Por que ao dela se aproximar o Re...

Poemas quase ineludíveis

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 20/12/2018

I Somente o seu nome É que ouvira Urdira Somente o seu colo é que Se conformara Relance inesperado Somente o estreito – incêndio Sob o cenário do ventre E adentro II Há de me atirar do alto Do penhasco Flechas direcionadas Ao meu peito Um revólver? Pontiagudo punhal? De me extinguir todos os jeitos De engendrar há de E eu, derrotado, ofegante Talvez genuflexo, sem a mínima Capacidade de perante ela Mínima intenção...

O trágico fim de Theodomiro Costa Paranhos

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 29/11/2018

Naquela manhã, logo que saiu de sua mansão nos Jardins, Theodomiro C. Paranhos disse a seu motorista: - Paulo, passe perto do Parque dos Ipês; vi na televisão que estão carregados de flores. À sua esquerda, na poltrona, largou a pasta, onde o motorista imaginava documentos secretos, e ficou a olhar através dos vidros enquanto o carro deslizava pela avenida. Quadras à frente, Paulo pode vê-lo a ler jornal do dia, rotin...

O que vejo

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 13/11/2018

Por mais que em sua plenitude Se instale a Primavera À minha volta Pontificam os arautos do monetarismo Por mais que a Lua flutue no ar Com indescritível beleza e sedução Vejo que à minha volta Mais atrai olhares a televisão Por mais que no jardim O tenro broto da Democracia viceje Vejo à minha volta os que se uniformizam E armas exibem à cintura Por mais que a alvorada Transpasse as janelas, imprima-se nas paredes Vej...

Doação

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 29/10/2018

Hoje ouvi a mulher dizer que quer doar um rim à irmã que tem insuficiência renal e está em hemodiálise - Ela tem uma filha… A mulher que pretende doar também tem um filho mas isto não impede seu intento Quantos irmãos tem você? – perguntei. - Quatro disse ela mas nenhum se manifesta nenhum Aquela mulher negra que por certo muito penou tanto deve ter sido menosprezada e que ainda assim capaz é de tanta gen...

A praça não é do povo

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 15/10/2018

Na Praça dos Três Poderes o Brasil não se assiste; na Praça dos Três Poderes a Pátria será que existe? Lá, a democracia rasteira, cega, circo de vaidades, criação esdrúxula, estreita, de oligarquias arcaicas. Na Praça dos Três Poderes, o que faz a Justiça, um executivo sem freios, uma Assembleia cediça? Ao Povo, só dividendos, impostos a mãos cheias, sementes lançadas ao vento no plantio sem colheitas. Tempos...

O noivo de Ordália

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 08/10/2018

Depois que terminou com Ordália Amaro ficou a se interrogar: - Por quê terminei com Ordália? Culpou o vento que lhe levantou a saia quando subia as escadas do Colégio e deixou os colegas extasiados ante a solidez de suas pernas colunas de inspirado escultor Culpou janeiro quando ela fez as malas rumando para a praia Quando voltou, era toda Gabriela urdindo feitiços e cheiros com sua nova cor de canela Mas, acima de tudo d...

Viagens fragmentadas

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 17/09/2018

Logo que chegou ao porto arriou âncora, dispensou-me e contratou outro marinheiro. Preciso de homens robustos - disse-me. Voltou a partir; acompanhei o barco até que sumiu no horizonte. Neste lugarejo permanecerei vivendo de ajudas fortuitas, pequenos trabalhos e pescarias. Daqui não arredarei pé. Semana após semana, como estaca no cais, esperando seu retorno. Sei que a qualquer instante o barco de novo acostará e então...