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A outra face

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 19/03/2019

Dizes-me, Sacerdote Oferece a outra face Para que? Se esta mesma face Por várias vezes Foi estapeada? Mas, ainda me repetes É preciso oferecer a outra face Como se fosse neste ato Que me redimisse Dentro de mim há um grito Um basta! Fraco que sou Não revidarei Fraco que sou Talvez até fuja O mais reles, covarde A fugir Mas a outra face Esta Manterei incólume Compartilhar este Artigo

Adventismo

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 25/02/2019

Já fui rei e profeta andei sobre as águas domei povos bravios meu exército invadiu terra de bárbaros hereges mandei à degola. Depois cansei-me virei pastor construí templos onde todos os dias subo ao púlpito pregando minha descrença Compartilhar este Artigo

Novos tempos

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 18/02/2019

O carteiro daquela vila perdida nos sertões gerais especula: Porque o trabalho se amesquinhou? Cadê as cartas do namorado que vinham de longe e deixavam a mocinha saltitante? Perguntava, tão logo o via: Senhor Carteiro, que traz para mim hoje? Agora a moça ao fim da rua depois da ponte sobre a linha férrea já não o espera no alpendre em meio a vasos, margaridas, samambaias com olhos brilhantes de expectativa. O carteiro...

Campo de mártires

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 11/02/2019

“Deus! Ó Deus! Onde estás que não repondes? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes embuçado nos céus?”Castro Alves  Da janela do meu apartamento Vejo os helicópteros Que seguem rumo Ao campo da morte de Brumadinho  Vão para onde não mais Bosques, fazendas, pousadas Águas cristalinas Gorjeio de pássaros  Agora é só Lama Desespero Corpos trucidados O lento escorrer da massa amorfa Semovente ...

A rainha triste

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 16/01/2019

É um déspota esclarecido que bem trata os súditos e cobra-lhes justos impostos. Ninguém o vê em público a usar indevidas palavras ou cometendo disparates. À Rainha, entretanto, não cumula de cuidados: observam-na criados à noite a caminhar pelo corredores, cabelos soltos, passos medidos, sem destino definido. Outros em cerimônias em seus olhos percebem lampejos de furtivas lágrimas. Por que ao dela se aproximar o Re...

Poemas quase ineludíveis

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 20/12/2018

I Somente o seu nome É que ouvira Urdira Somente o seu colo é que Se conformara Relance inesperado Somente o estreito – incêndio Sob o cenário do ventre E adentro II Há de me atirar do alto Do penhasco Flechas direcionadas Ao meu peito Um revólver? Pontiagudo punhal? De me extinguir todos os jeitos De engendrar há de E eu, derrotado, ofegante Talvez genuflexo, sem a mínima Capacidade de perante ela Mínima intenção...

O trágico fim de Theodomiro Costa Paranhos

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 29/11/2018

Naquela manhã, logo que saiu de sua mansão nos Jardins, Theodomiro C. Paranhos disse a seu motorista: - Paulo, passe perto do Parque dos Ipês; vi na televisão que estão carregados de flores. À sua esquerda, na poltrona, largou a pasta, onde o motorista imaginava documentos secretos, e ficou a olhar através dos vidros enquanto o carro deslizava pela avenida. Quadras à frente, Paulo pode vê-lo a ler jornal do dia, rotin...

O que vejo

Publicado por Antonio Ângelo
Data da publicação: 13/11/2018

Por mais que em sua plenitude Se instale a Primavera À minha volta Pontificam os arautos do monetarismo Por mais que a Lua flutue no ar Com indescritível beleza e sedução Vejo que à minha volta Mais atrai olhares a televisão Por mais que no jardim O tenro broto da Democracia viceje Vejo à minha volta os que se uniformizam E armas exibem à cintura Por mais que a alvorada Transpasse as janelas, imprima-se nas paredes Vej...