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Sol ao lado

Publicado por Antonio Ângelo em Crônicas Culturais
data: 03/04/2019

Sol ao lado

Aquela foi uma semana cheia de acontecimentos, todos imprevistos. Era então uma criança e só muito tempo depois pude entender o que se passou. Foi uma sucessão de fatos que me deixaram confuso, sem atinar por que e como as coisas estavam se dando. Lembro de ter entrado em um final de tarde no quarto de Lúcia, onde se mantinha reclusa por ordem de meu pai. À penumbra, logo que meus olhos se habituaram, observei que estava deitada encolhida na cama estreita, os longos cabelos negros espalhados no travesseiro. A janela estava fechada e apenas uma fraca luminosidade penetrava o cômodo, suficiente para que pudesse enxergar vagamente. Era mês de junho, fazia frio. Lúcia descoberta. Deu-me pena vê-la ali assim. Sabia que permaneceu sozinha por um bom tempo, desde o dia que meu pai a abordou aos gritos:

- Vai já pro quarto, não saia enquanto eu não mandar.

A um canto, próximo à cama, estava Capucho, seu cãozinho estimado que, solidário à dona, também se internou. Lembro que me estendi ao seu lado, envolvendo-a com meus braços e sussurrando que estava ali, que gostava dela. Ela se virou para mim, me olhando longamente:

- Eu sei, Pedrinho, sei que você gosta de mim. Mas papai me odeia, chamou eu de vadia…

Pude ver seus olhos se encherem de lágrimas. Sem compreender a razão de tanta desdita, aconcheguei-me, queria demonstrar tudo que estava ao meu alcance.

Papai, naqueles dias, chegava em casa sempre embriagado. Foi sempre de beber muito. Homem de seus quarenta anos, mas com aparência de muito mais. Vida e álcool desregrados trataram de consumi-lo. Andava tão esquentado que era só surgir no portão da casa que minha mãe me mandava para o quarto com ordem de não sair. Mamãe não tinha como se rebelar e hoje percebo o quanto se anulou, sem outra opção, na tentativa de manter a família com um mínimo de união. Morávamos em uma cidadezinha do interior com predomínio de população rural. Pequenos fazendeiros, comércio miúdo, a igreja, o cinema, o laticínio, o mercado popular, a delegacia com a cadeia logo atrás e não muito mais. Naquele vilarejo, as diversões rotineiras dos homens eram as conversas em botecos, jogos de baralho e sinuca. Aos domingos, muitos iam para o campo onde marmanjos levavam às últimas conseqüências a paixão pelo futebol. Às mulheres, depois de um dia de múltiplas tarefas, restava o convescote entre vizinhas, muitas vezes à porta das casas, enquanto a meninada brincava de roda, pega ladrão, casamento na roça, passar anel, e outros. Televisão, não existia, nem sonho.

Meu irmão Isidoro, que trabalhava como auxiliar de oficina, passou aqueles dias envolvido com seu fusquinha amarelo-creme. Não me surpreendia, é o que ele mais gostava de fazer nas horas vagas. Apreciava ficar horas a vê-lo mexer no motor, tirando e repondo peças… Fazia-lhe perguntas que, se estava com paciência, respondia. Desta vez estava carrancudo, dando sinais de que mal suportava minha presença.

- Vai pra dentro menino, vê se não me enche a paciência – resmungava rispidamente.
Naquela fatídica semana, ouvi de minha cama, no quarto que dividia com ele, discussão que teve com meu pai.

- Alguém tem que tomar uma atitude nesta casa – gritava o velho. Será que não tem ninguém pra limpar a honra da família? Esta menina nem dezoito anos tem, e o moleque desaforado tratou ela desta maneira, que nem mulher da vida.

A uma certa altura, depois do muito que meu pai falou, ouvi Isidoro falar aos berros:

- Você quer que mais uma desgraça aconteça. Então espera, a desgraça vai acontecer.

Depois, ouvi a porta da sala batendo e alguém saindo. Era meu pai retornando ao bar. De madrugada, mamãe mandou Isidoro sair à procura dele, que foi encontrado caído numa ruela próxima. Isidoro o trouxe carregado para casa, o que não era tão difícil. Papai estava acabado e do homem forte que fora sobrara um molambo de pessoa, só pele e ossos. Sujeito acabado e acabrunhado, abatido por derrotas sem conta.

Só quando fui visitar meu irmão na cadeia, anos depois, quando reapareceu após ter fugido, é que fiquei sabendo com algum detalhe o que aconteceu naquela tarde.

- Foi uma loucura, Pedrinho, um pesadelo – contou-me olhando através das grades o céu carregado de azul enquanto comia os biscoitos e salgados que mamãe lhe enviava.

- Pai não me deixou solução, tive que cumprir eu mesmo o trabalho. Tinha aqueles rompantes, dava de valente, mas era um covarde destruído pela pinga. E o tempo todo dando indiretas pra mim, como a dizer que eu não ia ser capaz de dar cabo da missão, de vingar o que o sujeito fez a Lucinha. Afinal, “uma de menor, uma panaca sem juízo”, costumava repetir quando destramelava a língua.

Isidoro fez uma pausa e tomou um gole do café cheiroso que lhe trouxera.

- E não tinha jeito, todo santo dia era falando de honra, falta de vergonha e sei lá mais o que, o tempo todo zoando nos meus ouvidos. Até que fiquei tomado, ruminando dia e noite a maldita idéia de ter que tomar atitude.

Respirou fundo, o semblante carregado, e a seguir perguntou por Vilma, sua namorada à época. Quis saber se estava com alguém, se tinha se casado.

- Casou não – respondi – continua morando com a tia, no mesmo lugar depois da ponte.

Ficou parado, pensativo, voltando a falar:

- Cai na esparrela, não teve jeito. Chegou hora que não mais dava pra fugir, deixar pra lá. Minha mãe até dizia: “Filho, vamos cuidar de sua irmã agora, esquece as sandices de seu pai, ele anda mole dos miolos. Não vai nesta conversa de ir atrás do outro que no final tudo acaba ainda pior. Pior pr’ocê, pra todo mundo”. E arrematava: “Tô rezando, Isidoro, rezando sem parar pra que Deus Nosso Senhor ilumine seu espírito pr’ocê num partir pr’uma doidice sem volta”. Mais o que! A idéia martelava seguido, não dava descanso. Pai era me ver e começava de pronto a ladainha do absurdo de a gente deixar as coisas como estavam. “A cidade toda anda falando desta menina, na venda fazem patacoada falando que breve vou ter um neto pra criar. Já gritei com um, quis brigar com outros, mas não tem jeito, vivem de me apoquentar.” Por mais que eu quisesse, por mais que soubesse que aquilo ia trazer uma desgraceira sem fim, sentia que não tinha escapatória. Era o escrito, tinha que ser cumprido. Sobrou pra mim, não tinha mesmo remédio. Deus é testemunha que tentei resistir. A razão apontava pr’um lado, o espírito do mal puxava pro outro.

E passou a descrever o dia fatídico.

- Logo de manhã, quando acordei, vi o revólver em cima da mesinha ao pé da cama. Foi ele que deixou ali, era o sinal pra eu partir pra ação… Carregado de balas, os seis buracos do tambor e ainda algumas de sobra. Pus a arma debaixo da camisa.

Aí relatou que pegou o carro, desceu o beco em que morávamos, lembro ainda do fusca virando a esquina, subiu a Capivari até o Larguinho, embicou para a São José, chegou à rua da Biquinha – próxima ao Arraial dos Lobos – e estacionou já no final dela, inicio da estrada de terra que seguia rumo à BR, num local ermo em meio ao mato que ali existia à beira do Ribeirão dos Machados.

- Foi lá que deixei o carro e fui andando, subindo de volta até chegar perto da rodoviária. Dei volta no Grupo Escolar e rumei pro Bar do Tirésio. Do outro lado da rua deu pra certificar que estava lá. Era onde tomava umas com os amigos… Foi então que entrei porta adentro de supetão, já de dedo no gatilho. Lembro dos olhos dele, estatalados, pregados em mim, num terror sem medida. Não deu nem tempo pra pedir misericórdia, sapequei fogo. Quatro tiros. Enquanto ele despencava da cadeira, houve correria pra tudo quanto é lado. Mal vi o sangue brotando do peito, ele começando a estertorar, lembro a cena como se fosse hoje, é um filme que não sai de minha cabeça, fugi desabalado, sem olhar pra trás. Chegando no carro, dei a partida e sai destrambelhado a mais de cem por hora. De caso pensado, rumo ao Triângulo pra depois sumir nos cafundós do Goiás.

- Mas Isidoro – quis saber – como é que pode? Tinha mesmo que terminar assim?

Olhei para ele e fiquei penalizado. Barba crescida, ainda tão novo e com a vida desbaratada numa encrenca daquele tamanho. Andou trabalhando em fazendas, indo de um lugar para outro até que se cansou e resolveu apresentar-se à justiça. Pagar pelo que devia.

- Tinha que ser, tinha que ser, Pedrinho. Cê precisava de ver o ódio do velho… E como ele ficou em cima de mim. Falava sem parar que ele mesmo ia acabar fazendo qualquer loucura, que ninguém tinha culhões para tomar atitude, e patati-patatá… Que o bandido que desonrou Lucinha andava por ai cheio de gabolice, sem tomar conhecimento da situação em que ela estava. Bateu em Lucinha, chegou a machucá-la. Seria pior se mãe não entrasse no meio. Por várias vezes eu vi ele pegando da arma e saindo. E ficava esperando as coisas acontecerem. E não teve jeito. Aos poucos também fui sendo dominado por um ódio sem comparação. Saia pela vila e achava que todos ficavam mangando de mim. Chegava nos lugares e era só cochichos, risadinhas. Quando entrava em casa e via a barriga da irmã crescendo, as coisas só pioravam. Ela tinha feito segredo até que não deu pra esconder, o ventre estufando… Ela ficava pelos cantos, chorando sem parar. Um dia, chegou pra mim e pediu pra não deixar que pai acabasse com o moço. Aquilo mexeu comigo, me deixou descabeceado, mais ainda. Então a sirigaita ainda gostava do dito cujo, o salafrário que a deixou naquele estado! Não restou solução. E nem foi eu, parece que foi um espírito malino que tomou a decisão por mim. Resolvi cumprir o que era tarefa que só eu podia cumprir.

Pegou o maço de cigarros debaixo do colchão do catre, acendeu um, dando baforadas longas, olhar perdido alem da janela gradeada.

- No dia, assuntei comigo mesmo, passei noite toda agoniado, e conclui que não podia mais retroceder. Não tinha como brigar com o demônio que o tempo todo cochichava no meu ouvido: – “Vai lá, resolve esta parada, deixa de ser maricas”. Era o que ouvia sem descanso.

Da cela dava para se ver o quintal vizinho onde laranjas, limões-capeta e abacates rebrilhavam ao sol. Na cerca de bambu crescia o trançado do pé de chuchu. Um bem-te-vi veio pousar bem próximo, num galho de arbusto, e destampou a cantar. Terreno abaixo, um campinho de terra onde a meninada corria atrás da bola. Mais abaixo ainda, o mato onde cresciam lobeiras e alguns cavalos pastavam, quase beira do rio que corria remansoso, rumo ao das Velhas.

- Pedrinho, vou pedir uma coisa pr’ocê, mas é segredo. Pode? Num vai dizer pra mais ninguém.

- Lógico, Isidoro – respondi.

- Então…

Parou um pouco, ficou matutando. Depois continuou:

- Ocê podia procurar a Vilma… Diz pra ela que ainda gosto dela e que se ela topar esperar, saio daqui e caso com ela. Dá o recado pra mim?

- Dou sim, mano. Lógico que dou.

O céu tomava coloração diferente, um anil mais forte, e o frio de finalzinho de tarde intrometia-se cela adentro. Despedi-me de Isidoro e tomei a rua. Fui pensando naquela história, de como a família desmoronou depois do sucedido. Ou antes, com mais certeza, muito antes, com os desregramentos de meu pai. Que, afinal, o vício levou para outra depois de estropiar-lhe o fígado. Nada o fez abandonar a bebida. Pelo contrário, mais e mais invernou na cachaça. Minha mãe, coitada, era na rotina do fogão para o tanque e do tanque para o fogão. E ainda com o neto para cuidar enquanto Lúcia saia para o trabalho de balconista numa lojinha de varejo.

Quanto a dar o recado de Isidoro para Vilma… Bem, não quis dizer a verdade. Não naquela hora. Vilma havia se casado com um caminhoneiro e mudado para outra cidade. Nunca mais ouvi falar dela. Sumiu sem deixar rastro. Alem do mais, como pedir a ela para esperar por um noivo que ia gramar anos de prisão?

A vida tem suas senhas, seus mistérios. Carece entendê-la, atinar com suas manhas.

A tarde já se confundia com a noite. Tratei de rumar para casa.

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