Liturgia, a catástrofe musical…

Publicado por Antonio Carlos Santini 5 de janeiro de 2026
coral AP

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Aviso prévio: não sou liturgista. Sou apenas um bisavô que fica muito feliz por ainda poder subir a pé, aos 81 anos, o morro da igreja matriz.

Mas gosto de música. Sou autor de mais de 800 composições, mais de 70 delas gravadas por diferentes intérpretes como Pe. Ricardo Whyte, Pe. Ezequiel Dal Pozzo, Pe. Jonas Abib, Nelsinho Correa, Ghislaine Cantini, Celina Borges, Vilma Leal, Andréia Zanardi, Irmã Inez e muitos outros (alguns dos quais, sem minha autorização).

Não me lembro bem como as primeiras comunidades cantavam nas celebrações, logo após Pentecostes. A memória vai-se apagando com a idade. Mas imagino que o Espírito Santo, ainda fresquinho, inflamava os cantores. Pouco depois, Agostinho, antes de sua conversão, confessa que ficava comovido até as lágrimas com os cânticos dos cristãos.
Na alta Idade Média, Gregório Magno (†604) fez um trabalho notável de criação e organização musical. A ele devemos o melodioso cantochão, com esse riquíssimo acervo de salmodias, sequências, antífonas e hinos, cujas letras encerram inigualável riqueza doutrinária. Bastava prestar atenção nelas e receber o diploma de teologia…
Claro, os monges cantavam assim em seus mosteiros e abadias, mas é provável que todo este bem não se estendesse à população cristã em geral.

Com o tempo, parece que a coisa degringolou. Especialmente a partir do Renascimento, a música litúrgica ficou empolada, com os compositores competindo entre si para produzir peças mais operísticas e teatrais do que propriamente litúrgicas. Na missa “Assumpta est Maria”, de Palestrina, a execução do Credo dura 7 minutos bem contados. Na missa “L’Homme Armé”, do mesmo compositor, o Glória dura mais de 6 minutos, e o Credo, 8 minutos e 22 segundos. Na sua famosa missa “Papae Marcelli”, eram quase 47 minutos só de partes cantadas.

Com a polifonia e os superpovoados corais das basílicas e catedrais, o aspecto propriamente “artístico” ficava em primeiro plano. Certamente, ir à missa equivalia a ir ao teatro. Duvido que alguém ali pensasse no “sacrifício” de Cristo.

Em meus tempos de ginásio, anos 50, nós cantávamos a missa de Lorenzo Perosi, bem mais simples, mas ainda em latim. As “partes” cantadas eram estas: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Benedictus e Agnus Dei. Bastante enxutas, não esticavam a Santa Missa além de 1 hora e 30 minutos.

Nas paróquias, porém, a realidade era outra. E bem triste! Por exemplo, no chamado “Ofertório”, cantava-se habitualmente uma Ave-Maria, de Gounod ou de Somma (nunca de Schubert, que só tinha a primeira parte do texto). Depois, alguém me explique qual a relação entre estas composições (aliás, belíssimas!) e o que estava acontecendo naquele momento da celebração. As letras cantadas na Santa Missa eram geralmente melosas. Ou com um vocabulário não muito popular. Um hino para o Congresso Eucarístico Nacional de Belo Horizonte, em 1936, tinha esta letra:

“Qual resplende em manhãs purpurinas
O sublime clarão do arrebol
Sobre o altar das montanhas de Minas
Brilha a Hóstia mais fúlgido sol

Tu, que és Rei, e que aos povos dominas
Firma aqui teu trono Jesus!
E das plagas formosas de Minas
O Brasil para a glória conduz!”

Purpurinas… arrebol… fúlgido… plagas… Boa literatura! Não sei se o povo chegava tão alto. Mas o que ficou em minha memória infantil é que o povo todo cantava. E cantava à capela, sem nenhuma sustentação instrumental. Nem toda paróquia possuía o tradicional harmônio de fole e pedal. As mulheres à direita, do lado de Nossa Senhora, com véu na cabeça; os homens à esquerda, do lado de São José, com o chapéu na mão e cantando uma terça acima, entoavam com gosto o seu repertório: Queremos Deus, Ó Maria concebida, A nós descei, Dai-nos a bênção, Mãezinha do céu, Com minha mãe estarei…

Aí, veio o Vaticano II e passamos por um tempo de mudanças e atropelos, com tentativas de inovação quase sempre malfadadas. Até que começaram a aparecer letristas e compositores com peças mais apropriadas para a sagrada liturgia. Entre os principais, destaco o trabalho do Pe. José Weber, svd, de Irmã Míria Kolling, ICM (com belo trabalho de pesquisa no interior do Brasil, valorizando nossos gêneros e ritmos musicais), a parceria de Dom Carlos Alberto Navarro e Waldeci Farias, Frei Luiz Turra, OFMcap, José Acácio Santana, Frei Antonio Fabreti, ofm, Frei Joel Postma, ofm.

Apesar do intenso trabalho destes dedicados músicos, o que se vê hoje é uma verdadeira bagunça musical, atropelando as celebrações. Vou dar alguns exemplos:

– A celebração eucarística inclui 3 cânticos processionais: entrada, apresentação das oferendas e comunhão. São cânticos de um povo a caminho, em marcha; por isso mesmo, pedem um compasso binário (esquerda, direita!) ou quaternário. E aí aparecem os músicos com um número valseado (3/4, 6/8), como se fosse possível marchar dando 3 pulinhos! Perdeu-se a noção de caminhada, de uma Igreja peregrina.

– O segundo cântico processional deve acompanhar a procissão das oferendas, quando o pão e o vinho são levados até o altar. Chegando as oferendas ao altar, este cântico deve ser logo interrompido, pois o sacerdote vai rezar duas orações que pedem a resposta da assembleia: “Bendito seja Deus para sempre!” Na prática, porém, na maior parte das paróquias, tal procissão nem acontece, mesmo assim a turma da música canta o tempo todo e a assembleia não ouve o padre rezar aquelas orações que acompanham a pequena elevação do pão e do vinho.

Então, perde-se o foco no rito que está ocorrendo no altar, situação agravada pela enxerida sacolinha vermelha que passa de banco em banco, forçando o fiel a baixar a mão na algibeira, em busca de uma moeda de 5 centavos, e impedindo-o de elevar o coração juntamente com as oferendas já citadas.

Às vezes passo rapidamente em frente a TV, exatamente na hora de um Salmo responsorial. E lá está a mocinha, miando em um tom altíssimo, que a assembleia não consegue acompanhar. E o refrão do Salmo, que todos deviam cantar, é inacessível a um mortal comum devido ao excesso de melismas que a praga da música gospel inoculou entre nós, especialmente onde domina a influência da Renovação Carismática Católica.

Querem mais? A solista entoando um cântico em tom menor, e o violeiro tentando acompanhá-la em tom maior. Cânticos escolhidos com base no gosto pessoal, e não na função litúrgica da celebração. Cânticos de comunhão que não fazem nenhuma referência à Eucaristia, ao maná, ao corpo e ao sangue, à mesa de irmãos, à partilha.

Querem mais? Os instrumentos em volume tão alto que se torna impossível ouvir a letra cantada. Ora, o grupo instrumental devia “servir” humildemente na sustentação do canto, e não se sobrepor a este. Aliás, em templos de dimensões normais, é suficiente o acompanhamento acústico, sem amplificação.

Se os cânticos executados na liturgia eucarística não fazem o devido papel de integração do fiel com a ação litúrgica, eles passam ser um “corpo estranho” na celebração. Na verdade, deixam de ser “música” para serem “musak” – aquele produto musical sem alma e sem cheiro, típico da música instrumental ambiente que se ouve nas salas de espera, no elevador e espaços públicos para criar um ambiente neutro. Em linguagem popular, estão “enchendo linguiça”.

Cabe, porém, um elogio. Nem tudo está perdido. Nas missas transmitidas pela TV Aparecida, vemos e ouvimos um excelente cuidado musical. Excelentes organistas e solistas, um coral bem ensaiado e cânticos adequados à liturgia. Uma prova de que é possível elevar alguns graus na qualidade deste serviço.

Alguém me pergunta: – E não tem conserto?

E eu respondo, como antigo participante de um belíssimo coral do Centro Musical de Volta Redonda, regido pelo saudoso maestro Nicolau Martins de Oliveira, recentemente falecido:

– Conserto? Ora, todo concerto tem conserto. Seria preciso que entrassem em concerto o pároco e os músicos. De preferência, dar formação musical a esses garotos que têm taquicardia quando veem um bemol pela frente. Ensinar a eles a tal “dinâmica” na interpretação e apresentar-lhes esse ilustre desconhecido que se representa com as letras minúsculas pp: o pianíssimo. Sim, esses músicos tocam o tempo todo com o volume máximo, ignoram o valor dos matizes sonoros. Confundem palco e coro, confundem show e missa, confundem apresentação com serviço pastoral.

Talvez tenha sido a rebeldia dos músicos que levou um pároco, nos anos 80, a usar cânticos gravados de um CD durante a missa, em lugar da “banda”. Não parece a melhor solução, mas é a medida do desespero dos meus amigos párocos diante do caos musical em nossa Igreja…

A banda não pode ser um bando. A função dela é ajudar a rezar. A banda boa não é aquela que toca bem. É aquela que faz cantar…

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