Aquele gato, não é mais gato, hoje é tamborim…

Esta frase é parte de uma marchinha de Carnaval de 1954, intitulada “Couro de Gato”, em uma parceria de Popó, Rubens Silva e do conhecido ator Grande Otelo. Nos salões dos clubes, os foliões cantavam e dançavam ao som da marchinha.
Eis a letra:
“Aquele gato,
Que não me deixava dormir,
Aquele gato,
Agora me faz sorrir,
Às vezes saía bem da minha pedrada,
Pulava e dava risada,
Fugia, zombando de mim,
Aquele gato, não é mais gato,
Hoje é tamborim…
Paciência,
A vida é mesmo assim,
Fala, couro de gato,
Fala, meu tamborim…”
* * *
A vida é mesmo assim? Parece que não é mais. Aquilo que parecia “natural”, aceitável, até engraçado – apedrejar um gato ou esfolar o bicho para encourar um tamborim – hoje recebe condenação geral.
É claro que ainda esfolam chinchilas para fazer agasalhos de luxo para as madames; existem muitas ofertas na Internet. É como se um objetivo “prático” justificasse o ato. Coisas do utilitarismo. Então, a vida é mesmo assim…
Se os hindus se abstêm de consumir carne bovina devido à alta estima que o gado possui na divindade dhármica, ou seja, por motivos religiosos, já aqui no Brasil, em 2025, a produção resultante do abate (o termo significa “morte”) de bovinos chegou a 12,4 milhões de toneladas. Meu pai, quando jovem, trabalhou como magarefe no Frigorífico Anglo, em Mendes, RJ. Na época, o boi era morto, digo, “abatido”, com um golpe de marreta na nunca. Não sei como fazem agora, nestes tempos politicamente corretos…
Tempos novos que deviam ser mais humanos. Empresários não manteriam empregados em regime de semiescravidão. Médicos não arrancariam fetos aos pedaços da barriga da mãe, nem usariam embriões humanos como cobaias para experiências científicas.
Mas não são gatos, nem bois, nem fetos que estão nas manchetes e nas redes sociais. É o cão, o melhor amigo do homem. O cachorro “Orelha” foi vítima de horrenda tortura perpetrada por alguns adolescentes à procura de diversão.
Naturalmente, o crime foi noticiado e provoca notável reação. Aliás, justificada. Uma pessoa psicologicamente equilibrada ou socialmente educada não faria isso. O ato é contra a natureza. Coisa de tempos antigos, quando o exército vencedor jogava futebol com a cabeça do inimigo decapitado.
Por outro lado, não podemos esquecer que esses adolescentes são gente. São pessoas humanas. O ato desumano não deve ser colado neles em definitivo. Eles precisam de correção, de formação e – por que não? – de alguma forma punição. Mas não podem ser linchados. Certas reações contra esses adolescentes me parecem tão violentas quanto o ato que eles cometeram. Ódio contra ódio? Será que alguém se preocupou em rezar por eles e por suas famílias?
A vida NÃO é mesmo assim. Hoje, o tamborim tem “couro” de plástico. Mas nós não podemos ter o coração de pedra…
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