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Agosto, último desejo

Publicado por Wesley Pioest em Poesia
data: 03/08/2012

Mate-me, querida. E me enterre entre as catedrais

Em agosto, quando a chuva e o vento empinam seus

Papagaios à luz da tarde. Mate-me lentamente.

Os anjos virão cantar, ou sorrirão, suas harpas não

Mentem. Deixe que eu veja o céu enquanto morro.

O céu é lindo, nos dias de sol e chuva, as nuvens

Dizem coisas que não entendo, coisas belas, sendo

Passageiras como a vida que levo até o último suspiro.

A minha sombra escreverá sob a árvore que caiu na

Última prece, lenta, ao ritmo do relógio, indo e vindo

Pelas ruas da cidade cinza. Mate-me, querida, antes

Que anoiteça, a facadas, como um gesto de amor e de

Solidão. Pelo que fomos, pelo que perdemos, pelo que

Deixamos de ser. E me enterre entre os arbustos. Ou,

Se preferir, jogue-me do penhasco, como nos livros.

Eu serei o seu segredo, a luz que brilha no frio da ave

pousada na fenda da terrível montanha, em pleno gelo,

Enquanto nossos filhos brincam no shopping center.

Jogue-me no poço de petróleo, acenda o fogo e me veja

a queimar, quase um cigarro, semente, andarilho, um

Cigano, tropel de corvos a levar minha alma, a minha

Última alma, a que não manchei com palavras.

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Wesley Pioest - Nasceu em Rubim, estudou em Belo Horizonte, passou por Itacarambi, Muriaé e passa atualmente por Gonzaga. Sempre em Minas. Seu vale é o Jequitinhonha, de onde veio e para onde há de voltar dentro em breve, por bem ou por mal. Publicou a Revista “Liberdade”, os livros “Impressões da Aurora”, “Jequitinhonha – Antologia Poética I e II”, “A Fala Irregular” e “Cabrália”. Parceiro inconstante de Rubinho do Vale, Vagner Santos e Romeu Santos em letras para canções.
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