Español
Tamanho da Letra: [A-] [A+]

O Jardim de Epicuro

Publicado por Tarzan Leão em Crônicas, Educação
data: 29/12/2009

O Jardim de Epicuro

Durante anos nutri uma grande simpatia por Epicuro. Mais pela sua pedagogia do que pela sua filosofia propriamente dita. Conta-se que Epicuro, a exemplo de Aristóteles, era também um peripatético. Não que ele fosse aristotélico no sentido estrito do termo. Mas, usava este recurso maravilhoso de ensinar na informalidade, enquanto caminhava pacientemente pelo seu jardim; daí o uso da expressão peripatético, ou seja, o que ensina caminhando. Neste sentido, o Cristo também fora um peripatético. Ele gostava de ensinar enquanto perambulava com seus discípulos.

O Jardim de Epicuro

Para a doutrina epicurista, o sumo bem reside no prazer. Porém, não podemos confundir essa busca do prazer com o hedonismo (do grego hédoné, que significa prazer). Para ele, é o prazer do sábio que devemos buscar, prazer entendido aqui como o domínio das emoções e a quietude da mente. O filósofo sofreu a vida inteira de cálculo renal, donde vem sua busca em dominar as emoções e buscar o prazer através do ascetismo e da doçura, ou imperturbabilidade da alma, a ataraxia. Epicuro formou uma comunidade de filósofos e vivia num jardim nos arredores de Atenas. Fizesse frio ou calor, lá estava ele com seus discípulos, caminhando tranquilamente pelo seu jardim. Anos atrás, fiz umas experiências peripatéticas. Gostava de levar os meus alunos para o anfiteatro ou para o pátio da faculdade para discutir filosofia. Se bem me recordo, nalgumas vezes esses encontros filosóficos foram em bares. Ninguém levava caderno, bloco de anotações nem nada. Eu levava apenas o meu violão. Havia reclamações. Poucos compreendiam o significado daquele gesto. Os próprios alunos, quando sabiam que a aula seria em estilo peripatético, invariavelmente diziam: ah que bom, hoje não vamos ter aula! O interessante é que quando reencontro esses ex-alunos, eles só conseguem se lembrar dessas aulas. Na década de 60, Djalma Maranhão, então prefeito da cidade do Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, desenvolveu um eficiente projeto de educação de jovens e adultos, coordenado pelo pedagogo Paulo Freire. A esse projeto deram o sugestivo nome “De pé no chão também se aprende a ler”. As aulas eram nas praias, nos mangues, debaixo de palhoças. Não importava. E deu certo. Deu tão certo que, tão logo os militares golpistas assumiram o poder exilaram Djalma Maranhão e encerraram o revolucionário projeto de alfabetização.

O Jardim de Epicuro

Os políticos, especialmente aqueles que nada entendem de educação, pensam que investir na área é construir bonitas escolas, equipá-las com modernos computadores conectados à internet, adquirir caros datas-show e outras tralhas tecnológicas. Mas, se esquecem de investir num personagem importante: o professor. Esse profissional humilhado e ofendido que, para poder viver dignamente, tem de trabalhar simultaneamente em até três empregos. Enquanto isso se acumula nos DRH (Departamentos de Recursos Humanos) uma quantidade assustadora de atestados médicos, muitos deles passíveis de questionamentos. E os governantes não percebem, ou fingem não ver, que esses atestados são um claro sintoma de que algo anda errado com o professor. De pouco adianta modernos equipamentos de informática, escola cheirando a tinta fresca se professores e alunos estão insatisfeitos. Aliás, outra verdade seja dita: não sobra tempo para o educador que tem três empregos navegar na internet. E não é diferente em relação aos alunos. O que eles querem é uma escola acolhedora, com professores felizes e satisfeitos e sempre dispostos à difícil e árdua missão de ensinar, ainda que as aulas sejam, a exemplo de Epicuro, pelos jardins e praças da cidade.

Compartilhar este Artigo

Leia mais artigos em Crônicas Educação

Tarzan Leão - Filósofo, professor e escritor. Residente em Paracatu - MG.
Comentário
  1. Liliana / São Paulo

    Desculpe, mas a questão é mais profunda.
    Trabalho na PMSP e tem professores que ganham R$ 4.000,00 (meu local de trabalho são vários) e não têm prazer e vêem seu oficio como uma obrigação.
    Tem horário de estudo, discussão em grupo, gestão democrática.
    Mas a preocupação maior é fazer mais cursinhos para evoluir e ganhar mais.
    Precisamos discutir a fundo esta questão do professorado.

Deixe um comentário