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O Molde do Homem

Publicado por Editor em Castaneda e Don Juan
data: 08/03/2012

Um dos aspectos mais inflexíveis de nosso inventário é nossa idéia de Deus. Esse aspecto é como uma cola poderosa que prende o ponto de aglutinação à sua posição original. Para aglutinar outro mundo verdadeiro com outra grande faixa de emanações, é preciso dar um passo obrigatório a fim de afrouxar todos os laços do ponto de aglutinação.

Esse passo é ver o molde do homem. O molde do homem é um imenso feixe de emanações na grande faixa da vida orgânica. É chamado de molde do homem porque esse feixe aparece apenas no interior do casulo do homem. O molde do homem é a porção das emanações da Águia que os videntes podem ver diretamente sem qualquer perigo para si mesmos.

O molde do homem é um padrão de energia que serve para estampar as qualidades de humanidade em uma bolha amorfa de matéria biológica. Por uma analogia mecânica descreve-se o molde como uma matriz gigantesca que imprime os seres humanos continuamente como se chegassem a ela pela correia transportadora de uma linha de produção em massa. Cada espécie tem um molde próprio, e cada indivíduo de cada espécie, moldada pelo processo, mostra características particulares ao seu próprio tipo.

Os antigos videntes, assim como os místicos de nosso mundo, têm uma coisa em comum – foram capazes de ver o molde do homem, mas não de compreender do que se trata. Os místicos, através dos séculos, proporcionam-nos relatos comoventes de suas experiências. Mas esses relatos, embora belos, são prejudicados pelo grosseiro e desesperador engano de acreditarem que o molde do homem seja um criador onipotente e onisciente; e assim era a interpretação dos antigos videntes, que chamavam o molde dos seres humanos de espírito amigável, protetor e salvador do homem.

Os novos videntes são os únicos que têm a sobriedade de ver o molde do homem e compreender o que é. O que chegaram a perceber é que ele não é um criador, mas o padrão de cada atributo humano sobre o qual podemos pensar e de alguns que não podemos sequer conceber. O molde é nosso Deus porque somos aquilo com que nos estampa, e não porque nos criou do nada e nos fez à sua imagem e semelhança. Cair de joelhos na presença do molde do homem chega à arrogância e ao egocentrismo humanos.

A crença de que Deus existe é baseada na fé, e, como tal, uma convicção de segunda mão que não soma nada; a crença na existência de Deus é, como a de todas as pessoas, baseada em ouvir dizer e não no ato de ver. Ainda que você seja capaz de ver está destinado a cometer o mesmo engano que os místicos cometeram. Todos os que vêem o molde do homem automaticamente presumem que se trata de Deus.

A experiência mística é uma visão casual, um acontecimento fortuito que não tem significação, mesmo porque é o resultado de um movimento ao acaso do ponto de aglutinação. Os novos videntes são de fato os únicos que podem emitir um julgamento honesto sobre esse assunto, porque eliminaram as visões casuais e são capazes de ver o molde do homem com a freqüência que lhes apetecer.

Viram, portanto, que aquilo que chamamos Deus é um protótipo estático de humanidade destituído de qualquer poder. Pois o molde do homem não pode, sob quaisquer circunstâncias, ajudar-nos intervindo em nosso favor, ou punir nossos erros ou recompensar-nos de qualquer maneira. Somos simplesmente o produto de sua estampa; somos sua impressão. O molde do homem é exatamente o que seu nome nos diz, um padrão, uma fôrma, uma matriz que dá forma a um certo punhado de elementos semelhantes a fibras, que chamamos homem.

A Barreira da Percepção

Agora, a única coisa que ainda lhe resta fazer para completar a explicação do domínio da consciência é quebrar sozinho a barreira da percepção. Você deve deslocar seu ponto de aglutinação sem ajuda de ninguém. E alinhar outra grande faixa de emanações. Não fazê-lo é transformar tudo o que você aprendeu e fez comigo em mera conversa, simples palavras. E as palavras não valem quase nada.

Quando o ponto de aglutinação está-se movendo para fora de sua posição costumeira e atinge certa profundidade, rompe uma barreira que momentaneamente destrói sua capacidade de alinhar emanações. Experimentamos isso como uma lacuna perceptiva. Os antigos videntes chamavam esse momento de muro de névoa, porque uma barreira de névoa aparece sempre que o alinhamento das emanações falha.

Existem três maneiras de lidar com isso. Podemos considerá-lo abstratamente como uma barreira da percepção; pode ser sentido como o ato de atravessar com o corpo inteiro um painel de papel esticado; ou pode ser visto como uma parede de névoa.

Os exercícios de aglutinar outros mundos permitem ao ponto de aglutinação ganhar experiência em deslocar-se. A intenção, ou intento, é o que faz o ponto de aglutinação deslocar-se.

O domínio da consciência é o que dá impulso ao ponto de aglutinação. Afinal, nós seres humanos somos na realidade bem pouco; somos, em essência, um ponto de aglutinação fixo em certa posição. Nosso inimigo e ao mesmo tempo nosso amigo é nosso diálogo interno, nosso inventário. Seja um guerreiro; desligue seu diálogo interno; faça seu inventário e depois atire-o fora. Os novos videntes fazem apurados inventários e depois riem deles. Sem o inventário, o ponto de aglutinação torna-se livre.

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