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Eu e seu Joaquim

Publicado por Wesley Pioest em Crônicas Culturais, Memórias
data: 13/02/2019

Eu e seu Joaquim

Seu Joaquim tem toda razão quando afirma que o homem é um jumento. Eu tenho nove anos, a ditadura militar ainda não lançou sua nuvem escura em minha alma, a pequena cidade é a minha nação, e a tarde que se vai incendeia o horizonte. Escuto sua voz de trovão para nunca mais me esquecer.

A casa é de adobe, o chão de terra batida, as telhas vãs escoam o vento pelas frestas. Enquanto os meninos sobem o morro do Ipê para se aventurar nos quintais entardecentes, eu me quedo hipnotizado pelas estórias que Seu Joaquim vai contando, cada qual mais assombrosa, uma intrincada na outra, como um fio longo e rouco.

Com o olhar povoado de pássaros negros e fantasmas que lhe espantam o sono, noite após noite, Seu Joaquim equilibra as costelas em um tamborete tão esquálido quanto sua trágica figura de Dom Quixote mulato. As coisas que ele conta e que eu desconheço, descobrirei daqui a muitos anos, nas telas dos cinemas metropolitanos, para o bem e para o mal.

A pequena cidade cresce com a leva de camponeses despejados pelas fazendas, multiplicando ruas e telhados, debaixo de um sol que esturrica tudo, menos a imaginação dos meninos. Quando a noite cai, o medo nos aguarda: depois das dez horas, o motor a diesel descansa e os postes afundam na mais completa escuridão. Só um novo dia nos salvará.

Mas é em outra densa noite sem fim que Seu Joaquim atravessa as horas contando causos para manter-se ao abrigo da loucura que o persegue e que um dia há de captura-lo definitivamente, sem que qualquer um de nós possa adivinhar onde e quando. Sob as suas unhas vejo a terra de onde viemos e que o chamará primeiro, depois virá ao meu encalço.

A voz de escrivão percorre os labirintos da pequena casa na pequena cidade, em sua imensa pobreza e simplicidade, desafiando o futuro que o esqueceu e a sorte que o abandonou antes mesmo de nascer – e que me atormentará enquanto vivo eu for para lembrar e agradecer a sua irrepetível lição de nunca mais: o homem é um jumento.

Seu Joaquim tinha mesmo razão.

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Wesley Pioest - Nasceu em Rubim, estudou em Belo Horizonte, passou por Itacarambi, Muriaé e passa atualmente por Gonzaga. Sempre em Minas. Seu vale é o Jequitinhonha, de onde veio e para onde há de voltar dentro em breve, por bem ou por mal. Publicou a Revista “Liberdade”, os livros “Impressões da Aurora”, “Jequitinhonha – Antologia Poética I e II”, “A Fala Irregular” e “Cabrália”. Parceiro inconstante de Rubinho do Vale, Vagner Santos e Romeu Santos em letras para canções.
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