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Uma história fantástica

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas, Devaneios
data: 20/05/2020

Uma história fantástica

Conheci um camarada que disse ter estudado alguns anos em Pompéu e que adorava o professor Haroldo e a professora Mirléia, só pra eu ter certeza que ele falava a verdade.

José permitiu-me tratá-lo de Zé, contou-me sem meias palavras histórias fantásticas para um mortal comum. Foi conselheiro de Saddam Hussein no Iraque, de Muamar Kadafi na Líbia e conheceu num hotel em Chipre nada menos que Carlos, o Chacal, que na ocasião lhe foi apresentado como empresário do setor esportivo.

Durante sua visita, ele me contou sua passagem pelos Emirados Árabes a convite de um sheik que fez questão de desfrutar de seus conselhos. Em Dubai, hospedou-se em um hotel seis estrelas e era tratado como personalidade brasileira. Todas as noites saia para jantar e assistir maravilhosos espetáculos da Belly Dance, a Dança do Ventre.

Certa noite, quando estava encantado com o fulgor da belly dance, sem poder conter a baba farta que lhe escorria pela túnica, foi surpreendido pela talentosa dançarina que depois de arrebatar aplausos e apupos eufóricos da plateia, pulou do tablado e veio sentar-se bem no seu colo sob o olhar desesperado de potentados homens de negócio, nobres árabes e viajantes do mundo inteiro deixando-lhe um bilhete dobrado na mão. Atordoado depois que ela saiu voando, açoitada pelos olhares devoradores, tentou sem êxito ler o que estava escrito, nada entendeu, mas suspeitava tratar-se de um endereço. Como percebeu que o garçom se comunicava com ela, não contendo a curiosidade, pediu-lhe que traduzisse o conteúdo.

Ao olhar o que estava escrito, o garçom perdeu a compostura, avermelhou-se, agarrou o Zé pela gola, levou o ao caixa e de lá direto para a rua.

Desesperado com a situação, Zé tomou um taxi e a discrição do motorista despertou confiança e o desejo de mostrar lhe o bilhete. Ah, pra quê? O motorista parou o taxi, transtornado, abriu a porta do carro e o jogou numa rua sem viv’alma, nem quis receber a corrida, acreditem!

Depois de se recompor, com muito custo conseguiu pegar outro taxi e rumou para o hotel. Em lá chegando, contou para o recepcionista o ocorrido e esse lhe disse que todo hóspede ali devia se sentir em casa, e sempre que tivesse um problema recorresse a seus préstimos. Ele então arriscou-se a entregar-lhe o misterioso bilhete. Seu interlocutor imediatamente se transfigurou e ruborizou, exigiu o imediato fechamento da conta e ordenou que trouxessem as malas do Zé para a recepção ameaçando jogá-las na rua se ele não o fizesse em poucos minutos, não o deixaram sequer ir ao apartamento. Naquele dia se ajeitou em outro hotel, e no dia seguinte, desesperado, percebeu que seu último recurso era a embaixada brasileira.

Em lá chegando, foi recebido com água mineral e cafezinho pelo solícito adido cultural, que ao ler o bilhete perdeu a cor. Quando recobrou-se foi enfático e assertivo na recomendação que para o bem estar de todos ele embarcasse no primeiro voo e saísse do país. Condicionou sua ajuda ao compromisso de que ele além de embarcar no primeiro avião só lesse a tradução quando estivesse a mais de 200 milhas da costa, o que foi prontamente aceito por falta de alternativa.

Zé entrou no voo sentindo-se aliviado e pediu ao comissário que lhe avisasse quando ultrapassasse as 200 milhas. Com medo de sua própria reação emocional Zé decidiu pedir uma cerveja muito gelada para relaxar e não permitir que os demais passageiros e tripulantes percebessem sua mudança de ânimo quando lesse a tradução, e ao ser atendido com o maravilhoso sorriso da aeromoça de olhos verdes da cor do alto mar, tirou o papel do bolso e colocou-o debaixo da garrafa, aguardando que as condições para lê-lo estivessem cumpridas.

Depois de algum tempo o gentil comissário se aproximou anunciando que em 5 minutos atingiriam a pretendida distância. Marcou no relógio e quando deu a hora ele levantou a garrafa suada e ao abrir o bilhete viu que havia desbotado totalmente. Depois de tão fantástica aventura só lhe restava recordar os bons momentos.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
4 Comentários
  1. Abel Câmara

    Verly, adorei sua crônica. Sugiro abrir aqui um concurso para ver quem adivinha o que estava escrito no bilhete.

  2. Gabriel Perito

    Basta encadear os fatos para saber o que estava escrito no bilhete, eu já sei, qual o prêmio que ganharei? Esse concurso tem patrocinador?

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