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Respeito e discrição no meu novo apê

Publicado por Sebastião Verly em Cotidiano
data: 08/02/2019

Respeito e discrição no meu novo apê

Meu filho, João, sacrificou seus recursos atuais e futuros, comprou, reformou e mobiliou um paradisíaco apartamento bem de frente ao Parque Municipal e do Palácio das Artes, ao lado do Conservatório de Música da UFMG, bem perto do SESC – Paládio, área nobre onde se encontra de tudo que a gente precisa.

Às vezes, eu acho João parecido com seu xará, o gênio da bossa nova, João Gilberto. Extremamente cuidadoso com a própria privacidade, bem ao contrário de mim – cuja vida é um livro escancarado.

E encheu minha cabeça de recomendações: “não troque intimidades com moradores, só há uma senhora, a Helena, que é muito respeitável como constatei enquanto reformava seu apê, que ela merece contatos sempre respeitosos, é claro. … mantenha o apartamento sempre limpo e arrumado, ao pôr lixo na lixeira abaixe bem a mão para não cair fora, embale bem o lixo e o coloque RIGOROSAMENTE entre 8 às 17 horas que é o regulamento do prédio. Trazer “mulher”, NEM NO SONHO. Com os demais vizinhos um sério respeitoso e sincero BOM DIA.” Mais isso e mais aquilo tantos detalhes que às vezes, olvido algum. Procuro obedecer para evitar que minha conduta ultrapasse os limites permitidos na senectude.

Mas, a síndica, sempre a síndica, Sãozinha, que dá notícias do que todos moradores fazem, pensam e fantasiam, outro dia ela veio me contar que alguns moradores estão fazendo um abaixo-assinado contra uma cadelinha que late o dia inteiro. Diz que a dona é uma estudante de medicina que trouxe uma liminar do Juiz de Direito da Comarca obrigando o condomínio a acolher a cadelinha com direito de latir quando tiver vontade e andar de elevador quando for preciso. Arrematou: como a estudante sai cedo e deixa a cachorrinha só e ela late sem parar, incomoda os vizinhos, a maioria idosos, que adoram uma soneca depois do almoço.

Respondi apenas: no meu antigo endereço o barulho maior era o pipocar das pistolas, revólveres e o crepitar das metralhadoras na favela do Cafezal. Melhor latido estridente do que bala zumbindo, concorda?

Mas “defunto muito encomendado, vai pro inferno” já dizia mamãe. Sexta feira passada, eu estava bem à vontade em casa, vestido só com zorbinha, uma das três que comprei na vizinha “Elegância Masculina”, minha veste exclusiva dentro de casa na sala sentado na poltrona do computador olhei para a cama sem estender no quarto contíguo. Pensei, vou lá estender, como o João exige, mas primeiro vou terminar essa pesquisa para um texto que pretendo escrever sobre a arte, responder e-mails diversos ou enviar meus escritos para meus seis leitores e leitoras.

O apartamento 1708 fica no extremo do corredor e para correr o vento deixo a porta da sala sempre aberta. Foi então que ouvi o som de chave e o ranger da porta do apartamento ao lado. Ah!, imaginei, eu vou levar o saco de lixo, ainda com poucas cascas de frutas, só para ver a linda vizinha que já cumprimentei uma dezena de vezes. A “menina“ deve ter de 21 a 23 anos, uma silhueta esbelta, fina imagem despojada do ideal da beleza feminina, cabelos curtos e anelados, deixando à mostra a nuca e leves pelinhos negros, pernas bem torneadas, os lábios de design artístico, pele aveludada como dos mais saborosos pêssegos, cor encantadora do jambo, um corpinho mais lindo na compleição de mais ou menos um metro e sessenta.

Na pressa esqueci-me que estava só com a justa zorbinha branca das antigas, uma gracinha diga-se, a branca é sexy!!! Saí, rapidamente, e dei sorte que a vizinha também estava levando o seu lixo e me presenteou com aquele sorriso doce, sensual e provocante. A garota vestia um shortinho de seda da cor do corpo, uma blusinha finíssima também de seda e NADA MAIS! Sensualidade é atitude muito mais do que o jeito de se vestir.

Dei-lhe o BOM DIA “sincero e respeitoso”, como me ordenou o João, e já voltava CORRENDO para meu reduto, quando ela puxou assunto: “desde que o senhor se mudou para cá eu tenho vontade de ver seu apartamento que a Sãozinha disse que ficou uma joia com o bom gosto do João.”

“Ah, sim, deixa um dia em que o João vier eu chamo em sua porta para vir conhecer.”

“Ahn-Ahn!!, quero conhecer seu apê AGORA!!!”

Não tive alternativa: “Vamos entrar, não repare, pois, justo agora, eu ia arrumar a cama.”

Ela: “Não precisa desculpar eu também só arrumo semanalmente quando troco a roupa de cama.“

A moça, não lhe perguntei o nome, foi entrando na minha frente e passou pela cozinha que é a parte que eu mais gosto de mostrar no apertamento. Foi logo, ver o quarto. E disse: “Pode deixar, vou estender a cama pra você. Posso tratá-lo por você, né?”

Dobrou a colcha estendeu o lençol, alisou com as delicadas mãozinhas. Jogou-se na cama como faz uma criança e falou docemente:
“Nó! Cama de casal é uma delícia, né?’

Ela foi me puxando para o seu lado, com um sorriso puro, conservador e um tanto sedutor. Provocações irresistíveis! Loucura inimaginável!!! Agradeci a Deus por estar vivo: “era tudo que pedia diariamente.”

Mas como acontece, muitas vezes ao dia, a cachorrinha da estudante começou a latir ….

e EU ACORDEI!

Levantei-me da poltrona diante do computador onde ferrei no sono, estava ainda aberto na pesquisa Google, OBRAS DE ARTES POLÊMICAS, que mostrava “O jardim das delícias”, do pintor e gravurista holandês Hieronymus Bosch. Fechei a página. Havia copiado e salvado em arquivo “O Nascimento de Vênus”, deusa romana do amor, do pintor William-Adolphe Bouguereau, pintada em 1879.

Vesti um short, presente da minha amada sobrinha Cida, que o comprou justamente na “Elegância Masculina”

Estendi a cama. Vou lavar as vasilhas da cozinha e passar pano na casa. Do jeito que o João gosta.

Preciso dormir um pouco mais à noite!

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Antonio Ângelo

    Puro Nelson Rodrigues!
    Valeu, caro Verly.

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