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Bar do Portuga na Lagoinha

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas Culturais, Memórias
data: 17/12/2020

bar do portuga na lagoinha

Lembranças ajudam a viver. Sem nada para fazer em casa ia até o Bar do Portuga, ali na esquina, pedia uma pinga e ficava à espera de que aparecesse alguém com disposição para ouvi-lo. Sempre aparecia outro com tempo também ocioso. Muita coisa era inventada pela sua cabeça septuagenária. Outra parte poderia ser confirmada por registros de diferentes áreas. Sentava e, havendo ouvidos, lá vinha a história.

Era em 1936, quando a ponte do Rio São Francisco foi inaugurada. Nas terras do município de Abaeté, ficava a estação de Pompéu, a antiga estação de Nossa Senhora de Pompéu, da Estrada de Ferro Oeste de Minas que, a partir de então, passou a ser Rede Mineira de Viação, no humor popular Rapadura Melenta Véia, ou até melhor, Ruim Mais Vai. Mais tarde veio a se chamar Viação Férrea Centro Oeste, até ser sucateada e ter seus trilhos e dormentes carregados.

A estação mais próxima era a do Paredão. Da Estação de Pompéu ao Paredão, o melhor era esperar dia que tivesse trem de passagem por ali. Dias e horários era coisa que não havia. A cavalo era muito ruim de ir por que só restavam os espaços estreitos entre os trilhos e os barrancos na maior parte do terreno. A pé, só quem deveria andar na linha eram os funcionários da ferrovia.

Do lado da ferrovia, os pobres trabalhadores contratados pela RMV amontoavam a lenha para queimar nas fornalhas que geravam a força para mover o trem. Em montes menores, ficavam os dormentes pelos quais se pagava melhor preço. No meio dos trilhos parafusados nos dormentes semeavam uma ganga, cascalho minerado ali na região. Na véspera do tráfego o trólei passava na frente com o limpa trilho retirando tudo que estivesse ente os trilhos para prevenir acidentes.

A linha seguia serpenteando paralela com o curso do rio. Naquele tempo o São Francisco era o SÃO FRANCISCO. E era só o leito de pedra e água correndo limpa e com profundezas. Nalguns desvios do curso do rio, a gente podia beber com a mão, era água pura e cristalina. Chegou a ponte e a Prefeitura de Abaeté contratou os filhos e marido de Dona Sinhá para retirar galhos de mato que se ancoravam nos pilares da ponte. Os dois meninos, como o velho os chamava, desciam amarrados em cordas que ficavam seguras nas mãos do pai e de mais dois companheiros contratados para ajudar na limpeza. Eram pagos pelo serviço, supervisionado pelos feitores da Prefeitura.

Dava mais trabalho era na ocasião das chuvas. Árvores inteiras arrancadas pela força da correnteza chegavam arrastadas até a ponte. Dona Sinhá ficava ali segurando na mão o rosário feito de contas de lágrimas rezando o terço sem parar. Durante anos, todos os meses a limpeza era bem feita.

Na estação, que terminou com o abaetense Cizínio da Conceição como agente o movimento era uma vez ou outra quando chegava uma carga geralmente para o comércio de Pompéu. O mais era o telégrafo com fios que recebia informações totalmente inacessíveis para o povo da região.

No lado mais alto do terreno, uma vendinha que passava de dono em dono por falta de fregueses. E mais engraçado é que tudo era do lado de Abaeté e era conhecido como Porto de Pompéu, que dali distava 17 quilômetros, já Abaeté distava 50.
Sim, antes da ponte ser construída, depois dela com menor movimento, muitos barqueiros atracavam um pouco a montante para fazer pequenos fretes para um lado e para o outro. Depois ficou só o nome. Até o Paredão, que fica bem mais distante, ainda é mais conhecido do que o Porto de Pompeu.

Encerra a conversa, ao sorver as últimas gotas do copinho de cachaça. Devagar voltava para casa, “caçar alguma coisa pra comer”, como ele dizia. Amanhã, na mesma hora estará ali no mesmo local à espera de novo ouvinte.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
2 Comentários
  1. Antonio Ângelo

    Delícias de casos, Verly! Sendo de Bom Despacho, tudo isto ainda está muito vivo em minha memória. Viagens pela RMV,vindo a BH, sem hora de chegar. Se estivesse chovendo, então… Neste Brasil meio sem jeito, pena que – ao invés de ampliar – lá se foram as linhas férreas.
    E viva Pompéu!

  2. ALMIR DUARTE

    O resgate das ferrovias no Brasil, e em especial,em nossas montanhas das Gerais, além de ser uma importante lição de conservação dos bens culturais,traria outros grandes beneficios, como a diminuição de veículos nas estradas, como consequente, menos acidentes, além da apreciação das belas paisagens, que Minas Gerais oferece. A memória das ferrovias não deve morrer, muito antes pelo contrário, deve ser resgatada e ampliada, trazendo turismo e serviços para o nosso Estado.

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