Tamanho da Letra: [A-] [A+]

A Tempestade

Publicado por Sebastião Verly em Cotidiano, Crônicas
data: 23/01/2017

A tempestade

Não sou escritor e nem quero imitar nenhuma das escritoras famosas como Clarice Lispector, nem Cecilia Meireles, nem Henriqueta Lisboa e muito menos imitaria Shakespeare para escrever lindamente sobre a tempestade. Suas tempestades eram muito diferentes entre si e, mais ainda, será diferente da “nossa” tempestade, que aqui descrevo.

Tomei a decisão de escrever depois de vários dias por que ainda permanecia sob o impacto da emoção que vivemos, há uma semana, e para isso aproveitei palavras e frases de outras pessoas que passaram por essa experiência que quero esquecer.

Eu tento ser um escritor, mais do que um viajante comum, para transcrever os acontecimentos vivenciados e, por imposição, atento aos fatos, à ocorrência, às circunstâncias e até um pouco sobre o que sentimos em relação ao descaso e frieza que enfrentamos ao passar pelo pedágio durante a tempestade…

Pensei em escrever sobre amor durante a tempestade, contar notícias boas durante a tormenta passageira. Mas, meu coração pede e, eu não ouso contrariá-lo, conto a tempestade como ainda grita em meu interior e mente.

Saímos de Colônia do Sacramento, na divisa do Uruguai e Argentina, tão felizes pelos dias que a vida me permitiu rever os meus melhores amigos que um certo Deus conservou para mim, por mais de 33 anos. Colônia é história, conhecimentos, amor e vida.

A estrada que nos levaria a Montevideo era, como se fosse há 34 anos, vazia, com um convite a andar um pouco mais depressa.

O céu era azul até demais. Eu viajava com o melhor filho do mundo que, no último ano, aliou-se à melhor nora deste planeta e contávamos casos que acabávamos de presenciar naquela monumental cidade. Cada narrador tinha a história mais bonita e, apesar tê-las vivido juntos, cada um queria falar um pouco a sua versão dos acontecimentos, fatos e beleza local. O azul do céu nos convidava aos mais belos sentimentos: amor, harmonia e paz…

Comentamos sobre a diferença da tarde do dia anterior quando voltávamos de Soriano, aquele Departamento do Uruguai que afirma sempre “aqui nació la pátria”, quando, no dia anterior, viajávamos com nossos anfitriões, casal amigo que maravilhosamente nos levou a rodar aqueles 700 quilômetros para rever onde estive naqueles anos maravilhosos que vivi na República Oriental do Uruguai. A esposa do nosso amigo assustava-se ao olhar para o céu e perceber que “lá longe” Montevideo, visto à distância, parecia receber uma tormenta pela escuridão que demonstrava, vista daqui distante. Por sorte, chegamos bem e cedo na Avenida 18 de Julio com Rua Yi, onde a tarde caia serena e mansa. Linda até. A tormenta havia se esvaído…

Já neste dia, durante a tarde, o Rio de la Plata estava como mar de Almirante e, agora, aqui na estrada, o tempo estava como céu de Brigadeiro.

De repente, não mais que de repente, tudo mudou. O humor se desfez e a tristeza profunda invadiu a nossa vida toda dentro do carro alugado para este passeio.

Em pleno dia, fez-se noite. E noite escura como breu, lá fora. Parece que a natureza quis testar nosso estado emocional de tanto bom humor. Aos poucos, o azul da tarde se manchou de escuro – muito escuro -, e o vento arrancava folhas secas e levantava papeis desprezados, transformando tudo em um redemoinho enorme.

A chuva ficava a cada instante mais violenta. E a tormenta ou tempestade se agigantava… O volume da chuva torrencial pela quantidade de pedras de granizo, vento com velocidade inacreditável que nos balançava dentro do carro, qualquer leigo sabia que era um tornado. Cheguei a imaginar que assim começam os tsunamis. Exagero causado pela tensão nervosa.

Soltei um lamento a toda altura: “chegou um furacão”! Não sei se eu disse “chegou” ou se disse “vem aí um furacão”. O Criador havia certamente perdido completamente a noção dos limites a que seus filhos podem ser submetidos, perdeu o controle ou … as estribeiras!

Nada mais se via. Não falávamos. Silêncio estarrecedor!

A autopista virou um rio raso e violento que corria e arrastava tudo o que encontrava pelo caminho. Pela primeira vez na vida eu senti medo e impotência total. Não havia como não sentir. Não era possível imaginar que houvesse mais a quem recorrer.

Árvores de muitos metros eram sacadas hasta fuera e passavam por nosotros em vôos rasantes como aves gigantescas. O vento passava muito de 100 quilômetros por hora. Sacos plásticos, essa praga dos tempos modernos que levam dezenas de anos para sua desintegração, giravam cheios de ar como balões de aniversário. “Voavam como pássaros”, comentou meu filho.

O perigo estava no ar, na terra, na frente, dos lados e bem atrás. Não dava para ver um palmo à frente do carro e mal se via para fora do parabrisa.

Logo sua intensidade aumenta como se o Dono do mundo num pranto convulsivo resolvesse lavar com suas lágrimas toda sujeira e mal que o homem espalha sobre o paraíso que Ele lhe deu para viver o amor em paz e harmonia, e que ele degrada com sua ganância, acumulação, ambição e egoísmo.

Camila, a pessoa mais doce que conheci neste mundo, segurava o volante com firmeza. Pensei e disse-lhe que me parecia melhor emparelhar-se com a mureta que separa a as duas pistas. Com uma calma inédita em todo o mundo, ela me explicou que fazia justamente o movimento contrário para evitar que o carro abalroasse o tal muro que separa as duas direções, uma vez que a força do vento o jogava contra aquele aparato.

Na vinda, neste mesmo dia pela manhã, notamos que toda a estrada estava em reparos. Escavações para um conserto de qualidade tecnológica quase formavam valas contínuas ao longo de toda a rodovia, tomando quase todos os acostamentos.

Havia a grande possibilidade de cair numa dessas valas, num Arroyo Chuá, daqueles pequenos que cortam a estrada em muitos pontos. Não se enxergava nada mesmo! Parar seria mais perigoso ainda pois quem vinha atrás também não enxergava nada e não se via de forma nenhuma um possível espaço de acostamento.

Redemoinhos de lama e água rodopiavam na horizontal da estrada e as línguas voluptuosas de barro, água, pedras de gelo que pareciam do tamanho de uma laranja como nunca havia visto lambiam pelos lados e pipocavam sobre o carro. Mais parecia o inferno aqui na terra, com água em lugar de fogo.

O céu agora iluminado pelos clarões súbitos dos relâmpagos estrondava e era rasgado intermitentemente pelos raios erráticos em flashes ofuscantes na sombra assustadora. O silêncio dentro do carro contrastava com a fúria barulhenta e ameaçadora da natureza. Tentei discernir as gotas de chuva grossa que caiam do infinito como as tais lágrimas de revolta do Todo Poderoso. Parar na estrada nos pareceu temerário. Aumentaria o barulho e o efeito daquelas enormes pedras de gelo que só perdiam em barulho para os raios que caíam sem parar. A luminosidade do céu turvava ainda mais a nossa vista.

No posto do pedágio, não nos permitiram ficar e ainda esbravejavam loucamente com uma estupidez desmedida – dále, dále, dále, dále, – dezenas de vezes gritados assim como se os empregados daquele posto tivessem ficado loucos, completamente loucos! Nem dinheiro quiseram. Dále!, dále!, com seus berros completavam o macabro cenário do Apocalipse.

Eu sentia uma tristeza, pena e autocompaixão por não acreditar em Deus, nem mesmo em São Miguel Arcanjo e mais ainda porque não doutrinei meu filho para entregar-se nas mãos do Senhor dos Céus e da Terra e de seus Arcanjos para ter a quem recorrer em momentos assim.

Na verdade pensei em desafiar esse Deus tão prepotente já que a tormenta parecia ter sido por Ele ordenada. Nos meus tempos de infância, nessas ocasiões, cantávamos as “excelências”. “Uma excelência nesta rua vai passar, senhora da piedade também saiu para acompanhar. Essa reza é tão santa que essa tormenta vai abrandar. Rezava-se ou cantava-se de uma até 99 excelências até que a chuva parasse ou pelo menos diminuísse.

Mas, achei mais prudente manter o silêncio. Uma possante caminhonete, até que enfim, sentimos que ainda havia vida por ali, passou por nós e, durante uns cinco minutos, seguimos suas lanternas. Além do mais, aquele veículo certamente era dirigido por gente da terra que conhecia bem aquele trecho, foi-se embora e nos quedamos huérfanos novamente.

Nada mais fazia sentido. Conversar não havia como. Os vidros, de um carro totalmente fechado, embaçaram-se completamente com a umidade e vapor de nossa ofegante respiração.

A chuva batia freneticamente no parabrisa, os quilômetros passavam lentamente, mas depois de séculos, eu imaginei que havíamos vivido tanto tempo, a tempestade começou a abrandar-se. Do meu banco traseiro ainda vi o rosto de Deus a pilhar de nosso desespero. Deus é um cara gozador e adora molecagens!

A estrada era apenas uma lâmina de água suja, um borrão, sem sinais das faixas brancas ou amarelas que a demarcam.
Agora a salvo eu voltei a imaginar o Dono de tudo isso como um desleixado condutor de sua obra, incompetente mesmo ou mandrião, tanta raiva eu sentia!

Ao lado, sentia pena dos dois jovens que se mantiveram bem mais tranquilos que eu, que vivia sempre a me gabar então de meus 72 anos de experiência, logo eu que achava que já tinha visto tudo!

Parece que os dois souberam que aquela era uma das mais sábias lições do mundo.

Chegamos ao hotel. No quarto, esfrego os olhos e tento eliminar o cansaço da viagem do dia que se tornou viagem noturna que sempre evitamos. Passei mais uma hora a pensar como é a vida: ninguém sabe nada, ninguém viu nada! A cada dia aprendemos mais, por bem ou por mal!

Com meu interior totalmente vazio, acordo no dia seguinte e começo a me tornar humilde. Tristeza e um vazio sem fim…
Uma nova e real humildade que da próxima vez, pode até me levar a pedir clemência a Deus, todo poderoso.

O Cara, esse Deus de tanta gente, não brinca em serviço. Ele adora jogar dados.

Compartilhar este Artigo

Leia mais artigos em Cotidiano Crônicas

Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Leila

    Sr Sebastião, vou aproveitar este espaço para registrar uma oração que faço no momento como este e de forma preventiva toda vez que entro em um carro ou avião para iniciar uma viagem, eu a faço também quando qualquer um dos meus vai também fazer o mesmo.

    “EVOCAÇÃO A SÃO MIGUEL ARCANJO
    São Miguel Arcanjo à direita
    São Miguel Arcanjo à esquerda
    São Miguel Arcanjo à frente
    São Miguel Arcanjo atrás
    São Miguel Arcanjo acima
    São Miguel Arcanjo abaixo
    São Miguel Arcanjo por dentro
    São Miguel Arcanjo por fora
    São Miguel Arcanjo agora
    São Miguel Arcanjo sempre!
    Príncipe da Invencível Milícia Celeste
    Aceite Nossa Lealdade à sua ordem Justa, Harmoniosa e Implacável!
    Faça de Nós uma extensão da sua Espada da Lâmina Flamejante!
    Nos manteremos Sóbrios, Humildes, Serenos, Discretos e Prudentes!
    Cumpriremos Nossa Missão, Nosso Aprendizado e Honraremos nossos Débitos!
    Jamais sentiremos Medo, Jamais nos Intimidaremos e Não entraremos em Disputas Desnecessárias!
    Usaremos toda Força que nos é Dada para o Bem Comum, pois sabemos que Somos Parte do todo!
    Estamos Certos que sob seu comando SEREMOS SEMPRE VITORIOSOS!
    Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Amém!”

Deixe um comentário