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A moldura

Published by Wesley Pioest in Poetry
data: 25/03/2021

A moldura

O poeta sorri, na fotografia.
Atrás dos bigodes, da cabeleira
indômita, é apenas um rapaz
que espera o futuro.
Dito de outra forma: o poeta
sorri para o futuro, esperançoso.
Naqueles dias, e eram bons os dias,
o poeta desce a Juiz da Costa Val
e sobe a Contorno. Vai sem rumo?
Vai para o mundo, vai para a vida.
É ele que gasta a sola do sapato,
é nele que bate o inquieto coração.
O poeta é democrata, como seu país
em chamas, como a vizinhança,
como a moça bonita de vestido
amarelo. Por isso, o poeta sorri
na fotografia. O poeta tem amigos.
Os amigos do poeta são seu tesouro.
Ele os guardará na algibeira da
memória, debaixo do sol, da neve,
sob vento forte, sobre o rol dos anos.
Vê-se, na fotografia, ao redor dos dentes,
o sorriso de um moço interiorano
que veio da pequena cidade.
Vê-se, na fotografia, refletida nos óculos,
uma saudade danada que ainda hoje
dói até os ossos. Uma dor da moléstia.
O poeta, irrigado de tanta juventude,
essa fada indomável, não tem medo.
Enfrenta o que der e o que vier.
Talvez um dia se arrependerá.
Será tarde. Mas nunca é tarde demais.
Por isso o poeta acha graça.
As vidas são tantas, a cidade pequena.
Nem a capital pode ser maior que
o sonho a embalar aquele sorriso.
O poeta, tendo nascido velho,
envelhece cedo, um ermitão em sua gruta,
sombra de sua sombra, espelho de mil
faces refletidas no umbral dos anos.
Tudo isso a câmera vai capturar
em menos de um segundo: o antigo.
E o antigo, veja só, é a moldura do novo.

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Wesley Pioest - Nasceu em Rubim, estudou em Belo Horizonte, passou por Itacarambi, Muriaé e passa atualmente por Gonzaga. Sempre em Minas. Seu vale é o Jequitinhonha, de onde veio e para onde há de voltar dentro em breve, por bem ou por mal. Publicou a Revista “Liberdade”, os livros “Impressões da Aurora”, “Jequitinhonha – Antologia Poética I e II”, “A Fala Irregular” e “Cabrália”. Parceiro inconstante de Rubinho do Vale, Vagner Santos e Romeu Santos em letras para canções.
2 Comentários
  1. selma nunes terra

    lindo!!!
    bucólico!!!
    obrigada

  2. antonio angelo

    belo horizonte existia, e não era apenas um quadro na parede

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