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Exame Toxicológico: santa solução?

Published by Rosely Fantoni in Transportation and Traffic
data: 18/03/2016

Dia 2 de março entrou em vigor mais uma lei no Brasil, cujo objetivo principal é reduzir o número de acidentes de trânsito. Trata-se do comentado exame toxicológico, que pretende detectar o consumo de drogas nos motoristas profissionais de ônibus, caminhões e carretas, categorias C, D e E da CNH, a Carteira Nacional de Habilitação.

Isto se a lei realmente se mantiver, pois a Justiça está suspendendo a obrigatoriedade quando solicitada pelos órgãos de trânsito de cada Estado, que alegam não ter como fazer esse exame por falta de laboratórios.
Infelizmente em nosso país, existe uma triste cultura de leis que “pegam” e outras que “não pegam”. Só para reativar a memória, vale lembrar-se do kit de primeiros socorros e do extintor de incêndio do tipo ABC, sendo que este último somente há pouco tempo deixou de ser obrigatório.

Considerando que 5% da frota brasileira é composta por caminhões, mas contribui com 40% dos acidentes com vitimas fatais em nossas rodovias, há de se pensar que com a aplicação da referida lei reduziremos consideravelmente nossos mortos.

Sinceramente não apostaria muito neste milagre, até porque dá para duvidar do santo. Vejamos alguns pontos a respeito. Para começar este exame está previsto somente quando a pessoa tira ou renova sua habilitação, é admitido ou desligado de uma empresa.

O motorista de caminhão autônomo só passará pelo exame no ato da renovação de sua carteira. E é este profissional que trabalha muito mais do que 14 horas por dia, exatamente porque precisa pagar, além de suas contas habituais, o alto custo de seu principal instrumento de trabalho, o caminhão.
Vale refletir também sobre as péssimas condições as quais nossos motoristas se submetem pelas estradas. Dormem em cabines apertadas e durante poucas horas o que não oferece condição de recuperação, comem quando possível e geralmente alimentos pouco saudáveis e, na sua maioria, apresentam sérios problemas de saúde como hipertensão, sobrepeso e altas taxas de colesterol.

Este profissional fica fora de casa em média mais de 200 dias por ano, o que também gera transtornos em sua vida afetiva e social, além de conviver com o medo e estresse permanente em função dos constantes relatos de assalto.
Sinceramente, como educadora, espero estar errada e que os acidentes realmente reduzam a partir desta lei, não em função da crise econômica que, a exemplo de outras épocas, teve um reflexo na redução no volume de tráfego nas estradas e consequentemente diminuiu o número de acidentes, mas sim pela conscientização das pessoas e respeito às leis de trânsito.

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Rosely Fantoni - Mestre em Promoção de Saúde e Prevenção da Violência pela Faculdade de Medicina da UFMG. Psicóloga, Especialista em Educação Ambiental, Psicologia de Trânsito e Psicologia Organizacional e do Trabalho. Consultora e professora na área de Psicologia e Educação para o Trânsito. Coordenadora da Gerência de Educação para o Trânsito do DER/MG.
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