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O ermitão em sua gruta

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 31/03/2020

Agora vejo Dentro do atroz confinamento, Que perdi minha sombra. Percebo agora Mas já deve fazer algum tempo. Uma sombra, afinal, não some Sem mais nem menos Do dia pra noite. Ela nos deixa devagar, aos poucos. Lembro-me da minha sombra Acompanhando cada passo Nos paralelepípedos da rua, Nas calçadas, ao ritmo do baile, Conforme a dança. Andava eu debaixo da luz dos postes Naqueles dias primevos. Eu e minha sombra, esguia...

Antes e depois da enchente

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 26/02/2020

Debaixo de alguma porta Entrará este poema. Quem sabe estragará os móveis Ensopará o fogão, a geladeira Estragará cama, sofá, tapetes. Debaixo da nuvem escura Desaguará este poema. Trincará talvez o muro da casa Apagará uns nomes nas calçadas Carregará a fotografia da irmã. Sobre o asfalto insepulto Escoará enfim este poema. Até que um rio um mar o acolha Até que se transforme em vapor E um dia então chova em ...

A arte de viver

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 17/12/2019

Eu me pergunto: é isto a arte de viver? É um tal indiferente, lento procrastinar Antes que a última neve apague os amanhãs Em ofertórios e impossíveis súplicas? Mas e se um poema faz algo novo acontecer Ou se o silêncio vem depois tudo afastar Antes que os versos sucumbam ao leviatã E não permitam ao menos uma réplica. Alguém que cante vai tocar nos corações As teclas que levam as pessoas a mudar E é nesse momen...

Águas em dezembro

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 10/12/2019

Debruço o corpo sobre o parapeito Na noite de águas e relâmpagos E vejo sobrevoando na garoa Em torno da lâmpada do poste A inevitável borboleta noturna Eu, como a mariposa, procuro a luz E posso vê-la ao longo dos telhados Vencer a batalha contra a escuridão Como eu, quase todo santo dia Travo a minha contra o esquecimento Que penetra lentamente a medula Nos espelhos vítreos do hipocampo A devorar o passado e a memór...

Ópera na madrugada

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 13/11/2019

Enquanto durmo A alma me abandona Vaga ao léu pela casa antiga Perambula sobre as ruas da pequena cidade Dialoga em sonhos Com o espírito dos ausentes Para depois retornar fatigada ao abrigo do meu corpo. E assim acordo para mais um dia Outro sonâmbulo neste mundo turvo Ao alcance da tristeza, da solidão e do desalento À procura da passagem que conduza enfim ao princípio Com a pressa dos computadores e dos automóveis Na...

Natureza morta

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 15/10/2019

a vida é um desfazimento que não tem começo nem fim como a sombra da lua tenta espalhar-se até lugar nenhum como o homem triste na rua silenciosa espia, inútil, o jardim a vida é como na pintura onde rústica e bela sobre a mesa entre talheres jaz esquartejada uma flor de urucum Compartilhar este Artigo

Quase um embornal

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 17/09/2019

Foto: Marina Jardim, óleo sobre tela, Pedras de Rubim No meu agora fatigado coração Que não é grande nem pequeno Cabe toda a pequena cidade. Junto com ela vem a Cangalha Que é como chamam aquela serra Cinzenta e partida ao meio. Ainda sobra algum espaço Para o bar de Eliezer, que fechou. Cabe também o bigode de Eliezer. Tem lugar para Seu Nonô erguer O posto de gasolina e a oficina. No meu coração, que de perto é P...

Esse meu fado

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 16/08/2019

No quarto crescente desta madrugada um anjo empilha versos invisíveis ao lado da minha cama enquanto durmo, assim imagino. Não alcei altos voos mas entrego os meus poemas como uma dádiva, acredito. Dos versos invisíveis extraio a minha gramática está escrito. Na ribanceira minguante deste outono o anjo assopra poema em meu ouvido mas eu logo o perco quando acordo, assim imagino. Não entreguei a alma mas me dobrei ao sen...