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Quase um embornal

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 17/09/2019

Foto: Marina Jardim, óleo sobre tela, Pedras de Rubim No meu agora fatigado coração Que não é grande nem pequeno Cabe toda a pequena cidade. Junto com ela vem a Cangalha Que é como chamam aquela serra Cinzenta e partida ao meio. Ainda sobra algum espaço Para o bar de Eliezer, que fechou. Cabe também o bigode de Eliezer. Tem lugar para Seu Nonô erguer O posto de gasolina e a oficina. No meu coração, que de perto é P...

Esse meu fado

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 16/08/2019

No quarto crescente desta madrugada um anjo empilha versos invisíveis ao lado da minha cama enquanto durmo, assim imagino. Não alcei altos voos mas entrego os meus poemas como uma dádiva, acredito. Dos versos invisíveis extraio a minha gramática está escrito. Na ribanceira minguante deste outono o anjo assopra poema em meu ouvido mas eu logo o perco quando acordo, assim imagino. Não entreguei a alma mas me dobrei ao sen...

Das imperfeições

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 22/07/2019

antevejo a extrema-unção destes anos tão longevos por garimpar a perfeição e só ter na bateia erros e se descobrisse acertos caberiam juntos nas mãos deixando fugir aos dedos a astúcia da imperfeição Da perfeição (Lucio Ferraz) Nesta procura de acertos Aprendi com gratidão, Que de infinitos erros, Compõe-se a perfeição Compartilhar este Artigo

Em obras II

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 03/07/2019

Escuto no fim da tarde A voz do saxofone Da janela de Hidelbrando. Escuto a minha infância No ar se desmanchando. A velha casa desbota Debaixo do azul do céu O inferno é mais embaixo. Escuto seu crepitar Como fosse um São João Em mil e uma fogueiras. Os rapazes ficam murchos As moças perdem o viço. A juventude é um rio Que nunca passa de novo Como areia de ampulheta. E ainda escuto Agnério Tentando parar o tempo Na in...

O rapaz que foi embora

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 23/05/2019

A casa mais antiga não tinha piano Tinha a moça mais bela e um dentista Do qual a gente tinha medo Porque tinha uma broca torturante Que doía no fundo dos nossos dentes. Cidade pequena tem dessas coisas Se olhar com olho de rapina Verá o anjo Dielson descer à terra E dizer que o mundo hoje não vai acabar E fazer a mágica dos pães e dos picolés. A minha alma mortal que nunca se rende Estará à espreita naquela varanda...

A vida é um vício

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 14/05/2019

Aprendi a fumar cachimbo: baforei. Mas a fumaça faz mal, é prejudicial ao pulmão e ao meio ambiente. Parei. Aprendi a tomar cachaça: eu bebi. Mas a bebida é um pecado original e muito tempo depois me arrependi. Aprendi a roubar no jogo: aí joguei. Mas o jogo é coisa pra profissional e jogando é que se aprende. Apanhei. Compartilhar este Artigo

Refração

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 23/04/2019

Para: Claudio Bento Os sons passam por mim indecantados Como a luz que perfura o vidro e se Multiplica sobre a superfície adversa. Os sons, quando passam por mim, tomam Forma e sentido, apalavram-se, acendem Como fósforos abruptos e vociferantes E explodem fogos de artifício no cume Da maravilhosa, insone noite de São João. Ou levantam voo, foguetes na direção de Marte ou Saturno, para depois pousarem em Silêncio numa ...

Ao seu feitio

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 21/03/2019

Um cara ao olhar dentro de si Não encontrará todas as partes Mas verá além da pequena cidade E se desencantará em forma de arte Até que alcance o outono esse cara Salgará a terra em que pisou Até que chegue o inverno esse cara Dispensará todas as promessas Menos a que realmente importa Aquela a que seu pai lhe condenou E não mais se traduzirá em palavras Como o barro que saiu do chão Toma outra forma por obra da m...