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São João era natal

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 24/06/2020

Foto: Militão dos Santos lá vai o balão cai cai balão tinha traque a explosão a fogueira brincadeira a bombinha de salão o foguete as chuvinhas coloridas um clarão repentino lamparinas estreladas vão-se os fogos de artifício rebuliço diversão tem leitoa tem sanfona noite fria tem quentão céu se acende e o meu pai já me leva pela mão noite escura antigamente tudo esplende soltam bombas relampeia dentro em cada co...

O rio que quase apagou

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 18/06/2020

O som das águas ruivas do rio da pequena cidade, quase esqueci. Ficava no fundo do vale. Como eu, revoltou-se poucas vezes. Era brando, exceto quando a enchente exalava toda a sua fúria, a vontade de destruir. Hoje, enxuto, minguante: predominância de margens. O esquecimento devora, esfomeado, o seu, o meu manancial. Em seu curso, atravessei a infância. Água secou, lágrima também. Os peixes, o anzol no barro, a mantegue...

O pêndulo nos arrabaldes

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 11/05/2020

O poeta, qual enxadrista, avança, peça a peça, sobre o tablado onde dançam, entrelaçados, os tempos todos em que ele, o poeta, se refestelou. Delira perante a vitrine: ali expostas, uma a uma, as palavras que escreveu com seu sangue, desde a juventude, o inevitável caminho. Eis o script ante seus olhos de bardo que primeiramente os óculos e depois as larvas moldarão – ossos do ofício da sagrada mãe natureza. Terá ...

Despedidas

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 22/04/2020

Conforme me disse o amigo Conceituadíssimo poeta bomdespachense Que almeja cadeira na Academia Não devo sair de casa Pois estou à beira dos sessentanos. A isso acrescenta minha consorte Alguns comentários muito severos Sobre passado longo e futuro breve. Diria mais: futuro inconstante Pois não há nada mais incerto Do que o futuro, esse meu inimigo. Do passado posso ainda acrescentar Que esse companheiro jamais existiu Al...

O ermitão em sua gruta

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 31/03/2020

Agora vejo Dentro do atroz confinamento, Que perdi minha sombra. Percebo agora Mas já deve fazer algum tempo. Uma sombra, afinal, não some Sem mais nem menos Do dia pra noite. Ela nos deixa devagar, aos poucos. Lembro-me da minha sombra Acompanhando cada passo Nos paralelepípedos da rua, Nas calçadas, ao ritmo do baile, Conforme a dança. Andava eu debaixo da luz dos postes Naqueles dias primevos. Eu e minha sombra, esguia...

Antes e depois da enchente

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 26/02/2020

Debaixo de alguma porta Entrará este poema. Quem sabe estragará os móveis Ensopará o fogão, a geladeira Estragará cama, sofá, tapetes. Debaixo da nuvem escura Desaguará este poema. Trincará talvez o muro da casa Apagará uns nomes nas calçadas Carregará a fotografia da irmã. Sobre o asfalto insepulto Escoará enfim este poema. Até que um rio um mar o acolha Até que se transforme em vapor E um dia então chova em ...

A arte de viver

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 17/12/2019

Eu me pergunto: é isto a arte de viver? É um tal indiferente, lento procrastinar Antes que a última neve apague os amanhãs Em ofertórios e impossíveis súplicas? Mas e se um poema faz algo novo acontecer Ou se o silêncio vem depois tudo afastar Antes que os versos sucumbam ao leviatã E não permitam ao menos uma réplica. Alguém que cante vai tocar nos corações As teclas que levam as pessoas a mudar E é nesse momen...

Águas em dezembro

Publicado por Wesley Pioest
Data da publicação: 10/12/2019

Debruço o corpo sobre o parapeito Na noite de águas e relâmpagos E vejo sobrevoando na garoa Em torno da lâmpada do poste A inevitável borboleta noturna Eu, como a mariposa, procuro a luz E posso vê-la ao longo dos telhados Vencer a batalha contra a escuridão Como eu, quase todo santo dia Travo a minha contra o esquecimento Que penetra lentamente a medula Nos espelhos vítreos do hipocampo A devorar o passado e a memór...