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Novos tempos

Publicado por Antonio Ângelo em Poesia
data: 18/02/2019

Novos tempos

O carteiro daquela vila
perdida nos sertões gerais
especula:

Porque o trabalho se amesquinhou?
Cadê as cartas do namorado
que vinham de longe
e deixavam a mocinha saltitante?
Perguntava, tão logo o via:
Senhor Carteiro, que traz para mim hoje?

Agora a moça ao fim da rua
depois da ponte sobre a linha férrea
já não o espera no alpendre
em meio a vasos, margaridas, samambaias
com olhos brilhantes de expectativa.

O carteiro, em pleno mormaço da manhã
senta-se à sombra da figueira na praça
na monotonia de um dia
que não promete emoções.

Em peroração sem freios
vai perquirindo, questiona:
será que o namoro acabou?
Onde andam todas aquelas missivas?

Caro carteiro, se alguém não disse
digo-lhe eu:
os tempos mudaram, o correio não é mais o mesmo
tendo chegado o tempo do celular
que nestes confins aportou.

Pega os trecos, vá para roça
capinar pastos, ordenhar as poucas vacas
apascentar seus dias ora intermináveis.
Cartas de um tudo – inclusive as de amor
cederam lugar em definitivo
para os tais whatzapp, face, email…

Cartas, creia-me, são coisas do passado
seu ofício, meu desconsolado amigo
carece de importância nos dia de hoje.

A mocinha do fim da rua
entenda que permaneça na penumbra do quarto
em ligação direta com o namorado
e por certo se esqueceu
de que existe neste vilarejo
alguém que nem tanto tempo faz
lhe trazia num simples envelope
cravejado de selos coloridos
promessas de aventuras
a turbilhonar seu coração juvenil.

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Antonio Ângelo -
2 Comentários
  1. Sem duvida somos do tempo desse carteiro . a quanto tempo não ouvia falar na palavra alpendre. Novos tempos, eu sabia seu nome . porque o trabalho se amesquinhou.. esse artigo me deixou cheio de lembranças da casa de Caeté onde papai começou a exercer sua medicina e nos filhos darmos os primeiros passos , até do enterro de minha irmazinha Iza Maria . Só podia vir de voce ,meu amigo , tais lembranças.Querido amigo. Abraços fraternos por este artigo
    denso e doce.

  2. wesley

    Na imaginação interiorana do poeta aa, vejo rubim, vejo bom despacho, vejo em retrospectiva a nossa lenta caminhada rumo ao patíbulo (num alpendre?). Em rubim de todos os santos, o carteiro foi expedito, gildásio, sempre alguém que se foi. Quais cartas nos aguardarão, aa?

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