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E fez-se o caos

Publicado por Antonio Ângelo em Poesia
data: 19/07/2018

E fez-se o caos

Diverte-se no Paraíso
em sua pureza original
nua, sem se notar nua
a pele reverberando a luz
na iridescência de um cristal
os músculos se estendendo
em harmonioso moto contínuo
dando forma a uma escultura
que um dia Rodin revelará

Anda descuidada em meio aos vergéis
onde outras criaturas já existiam
Na estrato vegetal, flores, gramíneas, matas
acima o arco-íris tracejando o céu
e um amplo universo em derredor viceja
em inédita composição a estender-se
sem os limites dos horizontes

De seus lábios que nunca beijaram
de seu quadril sem concupiscência
de seus olhos que se abrem
para as águas que em toda parte cintilam
emana a força do Criador
que a fez para ser presença permanente
companheira do homem recém forjado

Mas chega o instante – quando o tempo mal se delineara
em que cedendo a irrefreável tentação
como dois rios que se encontram
um plácido, franciscano
outro turbilhonado, amazônico
em que o bem e o mal se conformam
a se debater num caudal amorfo
cenário de corredeiras incoercíveis
que o próprio Deus engendrar não urdira

Ela caminha até a árvore
de onde pende um fruto vermelho
que há de tudo conspurcar
empurrando-os a um mundo temerário
que sob ciclones rodopiará milênios afora

Mundo em que reinará um outro senhor
incapaz também de ceder a compaixões
e que não descuidará – todos esforços há de envidar
para que nunca, nunca mais seja permitido
que a paz retorne ao reino dos viventes

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Antonio Ângelo -
Comentário
  1. Wesley

    Ainda um travo da maçã nos atravessa o passo. É o redemunho, que o poeta tentará a vida toda em vão domar, cada qual em sua faina, antinomia, na peleja das palavras, tão bem manejadas pelo santo antonio dos belos horizontes, quiçá bom despacho.

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