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João Bobo

Publicado por Antonio Carlos Santini em Comportamento, Crônicas Culturais
data: 18/10/2016

joão bobo

Nas vilas do interior, havia um tipo humano bastante comum: um rapaz com certa deficiência intelectual ou mental, mas inofensivo, capaz de conviver sem problemas com a sociedade. Quase sempre era objeto de brincadeiras e zombarias – naquele tempo não se falava em bullying – nem sempre amistosas. Uma das gravações de Ivon Curi, o conhecido chansonnier dos anos 50, contava a história de um deles: o “João bobo”.

“João bobo, coitado, tolinho,
Falava sozinho, sempre a caminhar,
Mas quando passava a seu lado
A Rosa do Prado, parava o olhar.
Rosinha era moça bonita,
De seda ou de chita, chamava a atenção.
A todos seu amor vendia,
Mas nada queria com o pobre do João…”
E o refrão era iniciado com uma gargalhada:
“Ah! João bobo é gozado,
Quer casar com a Rosa do Prado…”

* * *

Em um de seus livros, Guimarães Rosa contou a história de outro “bobinho”, que morava em uma fazenda, convivendo tranquilamente com os ditos “normais”. Um dia, alguém comentou que o rapaz era bobo, mas não podia permanecer inútil. Alguma coisa ele devia fazer para merecer o angu que comia. Assim, resolveram que ele podia ir até o vilarejo para fazer pequenos mandados ou dar recados.

Na primeira vez, alguém o acompanhou para que aprendesse o caminho da fazenda à freguesia, dizendo ao pobre para observar os detalhes da estrada e, assim, ser capaz de repetir sozinho o trajeto.

Dias depois, mandaram o bobo – desta vez sem companhia – para alguma tarefa na cidade. O tempo passava e ele não voltava. Saíram a seu encalço e o acharam perdido em um atalho pouco utilizado. O bobo se desculpou, dizendo que o caminho tinha ficado muito diferente.

E se escusava: – No outro dia, havia um tatu atravessando a trilha; hoje ele não passou. Outro dia, um sabiá cantava num galho da sumaúma; hoje não vi passarinho nenhum. E assim por diante. O bobinho havia escolhido pontos de referência em permanente mudança, por isso perdeu-se no caminho.

* * *

Lembrei-me dos bobos de antigamente para falar dos bobos do século XXI. Muita gente escolhe como referenciais coisas absolutamente mutantes, efêmeras, instáveis. Pode ser a Bolsa de Valores, o dólar, um emprego qualquer ou um romance com uma top model. Escolhem coisas assim como o foco de sua existência e, em pouco tempo, veem desaparecer os seus referenciais, perdendo-se nos atalhos espinhosos da sociedade de produção e consumo.

Os princípios eternos, as relações duradouras, os valores duráveis nem passam por sua cabeça.E eles se acham espertos, sabidos, muito “normais”. Mas são bobos. Apenas bobos…

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Antonio Carlos Santini - Licenciado em letras – Português e Francês. Professor de Artes e Ciências Humanas. Evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia/ Licenciado en letras - Portugués y Francés. Profesor de artes e ciencias humanas. Es evangelizador católico, compositor de músicas religiosas, autor de varios libros de catequesis y poesía. Residente em Belo Horizonte MG
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