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Os passes mágicos

Publicado por Editor em Castaneda e Don Juan
data: 03/01/2013

Eles foram descobertos pelos antigos feiticeiros. Tudo isso começou com a extraordinária sensação de bem-estar que os feiticeiros experimentavam quando em estados de consciência intensificada. Eles sentiam um vigor tão extraordinário e fascinante que lutavam para repeti-lo nas horas de vigília.

A princípio, eles acreditavam que isso era uma disposição de bem-estar que a consciência intensificada criava. Logo descobriram que nem todos os estados de consciência intensificada produziam a mesma sensação de bem-estar.

Um exame mais cuidadoso revelou-lhes que, sempre que a sensação de bem-estar ocorria, eles tinham estado envolvidos em algum tipo específico de movimento corporal. Perceberam que, enquanto estavam em estados de consciência intensificada, seus corpos se movimentavam involuntariamente de determinadas maneiras eque isso era de fato a causa da sensação incomum de plenitude física e mental.

Os movimentos que seus corpos executavam automaticamente em consciência intensificada eram uma espécie de herança oculta da humanidade, algo que tinha sido profundamente armazenado para ser revelado apenas àqueles que estivessem procurando por ele. Os feiticeiros antigos eram como mergulhadores de águas profundas que, sem o saberem, recuperaram aquela herança.

Eles começaram arduamente a reunir os movimentos de que se lembravam. Seus esforços valeram a pena. Foram capazes de recriar movimentos que lhes tinham parecido reações automáticas do corpo num estado de consciência intensificada.

Encorajados pelo sucesso, foram capazes de recriar centenas de movimentos sem no entanto alojá-los num esquema compreensível. A idéia deles era que, em consciência intensificada, os movimentos aconteciam espontaneamente e que havia uma força que guiava o efeito dos movimentos sem a intervenção da vontade deles.

Esses movimentos não eram apenas chamados de passes mágicos, eles eram mágicos! Produziam um efeito que não pode ser descrito através de explicações comuns. Esses movimentos não são exercícios físicos ou meras posturas do corpo, são tentativas reais de alcançar um estado mais favorável de ser.

A magia dos movimentos é uma mudança sutil que o praticante experimenta ao executá-los. É uma qualidade efêmera que o movimento traz para os seus estados físico e mental, uma espécie de brilho, uma luz nos olhos. Essa mudança sutil é um toque do espírito,como se através dos movimentos o praticante restabelecesse uma ligação não utilizada com a força vital que os sustenta.

Outra razão para os movimentos serem chamados de passes mágicos é que os praticantes são transportados, em termos de percepção, para outros estados em que podem sentir o mundo de uma maneira indescritível. Devido a essa qualidade, a essa magia, os passes devem ser praticados não como exercícios, mas como uma maneira de chamar o poder com um gesto.

Você pode praticá-los da maneira que desejar. Os passes mágicos intensificam a consciência, independentemente da idéia que você faça deles. O mais inteligente seria apenas aceitar que a prática dos passes mágicos leva o praticante a deixar cair a máscara da socialização – o verniz que todos nós defendemos e pelo qual morremos. O verniz que adquirimos no mundo e que nos impede de alcançar todo o nosso potencial. O que nos faz acreditar que somos imortais.

A intenção de milhares de feiticeiros permeia esses movimentos. Executá-los, mesmo de uma maneira casual, faz a mente chegar a uma pausa.

Chegar a uma pausa

Tudo o que fazemos no mundo, reconhecemos e identificamos, convertendo em linhas de semelhança, linha de coisas que estão associadas de propósito. Por exemplo, se eu lhe digo garfo, isso imediatamente traz à sua mente a idéia de colher, faca, toalha de mesa, guardanapo, prato, xícara e pires, copo de vinho, carne, banquete, aniversário, festa. Você poderia continuar nomeando tais coisas indefinidamente. Tudo o que fazemos está assim associado.

Para os feiticeiros, o estranho é que eles vêem que todas essas linhas de afinidade, todas estas linhas de coisas associadas de propósito, ligam-se à idéia do homem de que as coisas são imutáveis e eternas, como a palavra de Deus.

Parece que em nossas mentes todo o universo é como a palavra de Deus, absoluta e imutável. Essa é a maneira como nos conduzimos. No mais profundo de nossas mentes existe um dispositivo restritivo que não nos permite parar para examinar que a palavra de Deus, como a aceitamos e acreditamos que ela seja, diz respeito a um mundo morto. Por outro lado, um mundo vivo está em constante fluxo. Ele se movimenta. Ele se altera completamente.

A razão mais abstrata pela qual os passes mágicos dos feiticeiros da minha linhagem são mágicos é que, praticando-os, nosso corpo compreende que tudo, em vez de ser uma série contínua de objetos que tem afinidade entre si, é uma corrente, um fluxo. E se tudo no universo é um fluxo, uma corrente, aquela corrente pode ser detida. Pode-se represá-la e, assim, o seu fluxo pode ser detido ou desviado.

Os feiticeiros de minha linhagem ficaram chocados quase até a morte ao compreenderem que a prática dos seus passes mágicos ocasionava uma parada do, de outra maneira, ininterrupto fluxo dascoisas. Construíram uma série de metáforas para descrever essa parada e, no esforço para explicar isso ou para reconsiderá-lo, fizeram confusão. Escorregaram para o ritual e a cerimônia. Começaram a encenar o ato da parada do fluxo das coisas. Acreditavam que, se determinadas cerimônias e rituais estivessem concentrados em um aspecto definido dos seus passes mágicos, os próprios passes mágicos poderiam atrair o resultado específico.

Rapidamente, a quantidade e a complexidade dos seus rituais e cerimônias se tornaram mais complicados do que a quantidade dos seus passes mágicos. É muito importante concentrar a atenção em algum aspecto definido dos passes mágicos. Entretanto, essa fixação deve ser leve, divertida, destituída de morbidez e severidade. Deve ser feita por ela própria, sem realmente esperar retornos.

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