Tamanho da Letra: [A-] [A+]

Sensualidade e Erotismo

Publicado por Carlos Bittencourt Almeida em Psicologia
data: 25/04/2019

Sensualidade e Erotismo

Estas são palavras às vezes usadas como sinônimos, mas aqui vou diferenciá-las. Sensualidade, do modo como vou usar neste texto, tem um sentido amplo, abrangente. Significa nossa percepção através de ver, ouvir, tocar, cheirar, saborear, mover-se, vivenciar o equilíbrio ou o desequilíbrio, vivenciar sensações internas em nosso próprio corpo, sentir frio ou calor. É a nossa sensualidade que nos permite viver e agir em um corpo humano. Quando um dos canais de percepção sensual falha a perda é enorme. Ser surdo, cego, não ter paladar ou olfato, ter partes do corpo insensíveis ao toque são prejuízos de grande magnitude na nossa relação com o mundo que nos cerca e com as pessoas.

A sensualidade é nossa fonte primária de prazer, dor e de informações sobre o mundo. Existem pessoas que tem percepções sensuais muito intensas e outras que são menos sensíveis, mais embotadas. Alguns tem um dos canais sensoriais muito desenvolvido. Por exemplo os músicos necessitam ter ou desenvolver a audição em alto grau, distinguir as menores diferenças sonoras. Quem cozinha para outros necessita o paladar muito desenvolvido. Quem trabalha com cores ou objetos pequenos precisa de muita acuidade visual. Quem dança frequentemente necessita um grande número de canais sensoriais com bom desempenho: visão, audição, sentido do equilíbrio, sentido do movimento, tato.

Ser muito sensual, no sentido de percepções sensoriais refinadas, precisas, agudas, torna a vida da pessoa mais intensa, no sentido do prazer e do sofrimento. Existem perfumes e fedores, alimentos com bom sabor, ou mal temperados. Para alguém com percepção musical muito desenvolvida agrada a boa música ou a bela voz, mas pode haver sofrimento ouvindo certo tipo de música ou execuções musicais ruins ou desafinadas. Para quem tem grande sensibilidade para formas e cores a beleza visual comove e a feiura ou desarmonia pode causar sofrimento. Toda arte: música, pintura, escultura, arquitetura, cinema, poesia, culinária, dança, só pode chegar a nós através de nossa sensualidade.

A capacidade de ter uma relação sensual rica e intensa com o mundo e as pessoas também varia dependendo da idade da pessoa ou do seu grau de saúde. As crianças em geral têm uma relação intensamente sensual com a vida. À medida que a vida transcorre nossa memória se enriquece e podemos ter com o mundo relações menos intensas, porque nossa memória é um mundo sensível recriado dentro de nós e pode ser fonte de alegria, sofrimento ou aprendizado. Nosso mundo interno, em grau maior ou menor, pode nos desligar do mundo e das pessoas. Dependendo do momento ou situação isto pode ser vantagem ou empobrecimento. Para alguém que perde a visão, resta a memória. Para aquele que está preso ao leito ou com limitações de movimento, pode servir de consolo a vida vivida no passado, que dentro de nós nos pertence para sempre.

Outras pessoas sofrem traumas através dos órgãos sensoriais e podem viver com fobias e aversões geradas pelo passado. Medos intensos de água, de fogo para alguém que sofreu afogamentos ou queimaduras. Medo da sexualidade para quem foi vítima de violência sexual.

Ao envelhecer podem haver perdas significativas nos órgãos sensoriais: visão, audição, olfato, paladar, equilíbrio, sexualidade. Não é algo que se possa comemorar, mas frequentemente pode ser atenuado por cuidados preventivos ou paliativos.

A nossa relação com as pessoas ou com os seres que nos cercam pode ser muito sensual, sem ser erótica. Quem gosta de animais conhece o prazer de afagar seu cão, gato, cavalo ou pássaro. Entre pais e filhos pode haver uma relação muito sensual não erótica. A mãe com seu bebê, o bebê com sua mãe. Pegar, tocar, cuidar, brincar, afagar, abraçar, carregar no colo. A alegria de ver e ouvir a criança se desenvolvendo. A alegria da criança ouvindo a voz do pai ou da mãe que retornam ao lar, que o toca, beija, abraça. Também entre irmãos ou amigos pode haver o prazer do toque, do abraço, do ver e ouvir, do caminhar juntos, do ficar de mãos dadas. O erótico pode estar totalmente ausente nessas situações. E, no entanto, o toque corporal não erótico pode ser um forte meio de expressão de afeto, apoio, aconchego, alegria, amor.

O erotismo é uma vivência particular da sensualidade relacionada com a sexualidade humana, podendo buscar meramente o prazer sensual, ou, ao mesmo tempo, vir associado a intensos sentimentos de amor, ternura, desejo de companhia, de partilhar a vida. Pode ou não envolver sensações de desejo ou prazer nos órgãos sexuais. Um casal pode em muitos momentos ter uma relação intensamente erótica que não envolve prazer sexual localizado. Posso desfrutar horas da companhia da mulher que amo, de mãos dadas, abraçados, rindo, conversando, caminhando, dançando, sem que haja naquele tempo desejo sexual direto. Mas aqui existe uma sensualidade sexualizada. Como a flor guarda em seu interior o perfume, a sensualidade erótica entre pessoas que se amam e se desejam ou que apenas se desejam, guarda no passado ou no desejo de encontros futuros a sexualidade direta, genital.

E este desejo, tenha ou não já sido vivido de modo sexual, pode ser recíproco ou unilateral. Existem duplas onde um deseja intensamente vida sexual, mas o outro não, quer apenas a companhia, o contato físico sensual não erótico. Ou então podem acontecer situações onde existe o desejo sexual completo de uma pessoa, mas a outra deseja apenas uma sensualidade erótica leve, difusa, que nunca chegue aos beijos na boca e a estimulações nos órgãos sexuais. Também pode ser recíproca uma relação levemente erótica entre duas pessoas. Ambos não querem mais do que o prazer do toque, do olhar, da companhia, a alegria de conviver. O erotismo flutua belamente entre os dois, mas por motivos particulares, que podem ser diferentes para cada um dos participantes, nenhum dos dois quer uma relação erótica muito íntima ou muito explícita. Podem nunca ocorrer beijos na boca ou toques mais íntimos, mas mesmo assim ambos se nutrem sexualmente, eroticamente. Nestes casos podem haver contatos corporais calorosos contidos, ou um relacionamento quase sem toques, aparentemente nada erótico, mas o erotismo flutua como nuvem, como perfume entre ambos.

O relacionamento sexual humano se vale de todos os canais sensoriais, mas cria um momento sensual singular, específico, que não se parece com as outras vivências sensuais humanas. E com frequência pode estar permeado de sentimentos intensos. Pode criar entre duas pessoas que se amam a vivencia sensual mais intensa da vida destas pessoas, onde o sensual se entrelaça com fortes sentimentos, mais ou menos sublimes, ou ainda ser uma ocasião na qual um dos dois ou ambos, vivenciam percepções que transcendem a sensualidade, são suprassensíveis, embora incluam a sensualidade humana plena e os sentimentos humanos mais ternos, profundos e intensos.

Compartilhar este Artigo

Leia mais artigos em Psicologia

Carlos Bittencourt Almeida - Psicólogo Clínico e escritor, residente em Belo Horizonte - MG Consultas online? envie suas perguntas.
Comentário
  1. Ricardo

    É um texto interessante, as dá a impressão de usar de forma equivocada o termo sensualidade, pois caberia melhor sensibilidade. Ora, sensualidade aponta para a dimensão prazerosa, e toda a descrição no texto coloca aspectos onde o prazer não está em questão, daí a observação. No que se refere ao erotismo, acredito que um bosquejo pelo grego ajudaria a produzir um entendimento mais ampliado do termo. Aliás, dos três termos em consideração no meu comentário, pois acredito que a diferenciação se produziria melhor a partir daí.

Deixe um comentário