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Arrogância e autoconfiança

Publicado por Carlos Bittencourt Almeida em Psicologia
data: 28/05/2019

Arrogância e autoconfiança

Vou colocar de início sinônimos de arrogante para que não haja dúvidas: dono da verdade, metido, pretensioso, prepotente, ignorante, orgulhoso, insolente, vaidoso, autoritário, mandão, opressor, ditador, intrometido. Coloquei as palavras no gênero masculino, mas manifesta-se com frequência também nas mulheres.

Todos conhecemos pessoas que apresentam esta característica em alto grau. Não são pessoas fáceis de se conviver. Com frequência buscam posições de poder. Querem liderar. Gostam de cargos de chefia. Se possível buscam profissões de prestigio. Mas a pessoa arrogante expressa esta característica em qualquer situação de vida. Pode ser mendigo, doente, deficiente físico, pobre e mesmo assim arrogante. Tem mães e pais que exercem sua arrogância sobre seus filhos ou sobre animais. Gostam de desprezar os outros, são invejosos, gostam de criticar e falar mal das pessoas, principalmente daqueles que tem mais poder ou prestígio que eles. Com frequência são sérios, carrancudos ou então tem um sorriso cínico, debochado, dão gargalhadas de desprezo, sádicas. Tem mendigos que pedem esmola com raiva, como quem ordena e ficam furiosos se não são obedecidos.

Não admitem estar errados, querem impor suas opiniões sobre tudo e querem ser aplaudidos e reconhecidos. Se não conseguem ser admirados, gostam de ser temidos. Se não ganham naturalmente, apelam para a força ou violência. São vingativos, podem chegar até ao crime.

O arrogante pode ser também muito competente. Pode ser um dos melhores em seu campo de atividade. Pode ser famoso. Pode ser muito rico ou muito bonito. Aparenta ou quer aparentar ser muito independente, forte, melhor do que todos.

Por trás da fachada do poder, da arrogância, existe a dor da solidão. Existe o medo de ser desprezado, existe a dor de já ter sido humilhado, existe o medo do futuro, a insegurança diante das incertezas da vida. Por traz do rosto duro, debochado, da fachada de competência, existe o medo e a tristeza. Ele sabe que é um mentiroso, ele sabe que não dá conta de tudo, ele sabe que ninguém controla o futuro, que doenças, acidentes, crimes, podem acontecer com qualquer um. Ele sabe que não é autossuficiente. Ele sabe que a morte pode ocorrer a qualquer momento e se apavora.

A beleza às vezes facilita a arrogância. Uma mulher linda, admirada, cortejada e desejada por muitos, nem por isto terá a garantia de felicidade. Para viver bem, na intimidade amorosa, beleza não basta. É preciso competência nas relações humanas, inteligência emocional, honestidade, sinceridade, ternura. O teatro da beleza deslumbrante é pouco na intimidade.

Aquele que vive o teatro da autossuficiência, do dono da verdade, não tem amigos. Para isto seria preciso tirar a máscara. Pode ter muitos bajuladores, se for rico, bonito, muito competente em sua área de atividade ou se estiver em situação de poder. Mas a arrogância é como uma roda em alta velocidade. Não é possível tocá-la. Ela repele e fere quem tenta se aproximar.

A verdadeira autoconfiança nasce da competência por um lado e da consciência dos próprios limites por outro. Uma pessoa muito autoconfiante pode parecer arrogante ou dono da verdade. Se eu já fiz algo dezenas de vezes, e sei que faço bem, não vou ceder ou mudar de opinião diante da discordância ou oposição. Autoconfiança pode parecer teimosia, mas nasce da sabedoria, de uma longa experiência, de muitos desafios que foram vencidos com sucesso. A pessoa autoconfiante, diante de situações graves, pode ser completamente inflexível, pois não seguirá caminhos que levam ao fracasso ou desastre. Se preciso ficará só e deixará a multidão para viver solitário de acordo com a verdade da qual está seguro.

Quem tem autoconfiança sabe ser aluno. Começar de baixo. Sabe que existem imensos campos de habilidade e conhecimento na vida humana que desconhece e diante dos quais não tem ainda capacidades desenvolvidas para atuar com competência. Sabe ser a criança que aprende, quando percebe que aquele que ensina de fato sabe, demonstra que é capaz. Pode inclusive ser aluno de alguém que apesar de muito arrogante é também muito competente em alguma atividade.

Mas não se dobra diante da falsa competência, da arrogância dos poderosos. Pode aparentar submissão, se não tiver opção, mas não bajula nem é cúmplice do poder desonesto, da mentira. Será visto como inimigo pelos vaidosos que detém o poder, será castigado se for desobediente, mas não se vende. Se cede, quando não tem opção, é para preparar o salto para a liberdade.

Só a autoconfiança autêntica pode irradiar amor. A solidariedade nasce da consciência de que estamos todos juntos, precisamos e dependemos uns dos outros e nenhum de nós dá conta de tudo. Quem é autoconfiante sabe pedir ajuda, pois percebe e demonstra os próprios limites. Se a arrogância é como a roda que gira em alta velocidade e que não permite proximidade, a autoconfiança que emana amor é como a mão estendida, que busca a união com o outro, seja pedindo ajuda, seja oferecendo. Irradia calor, sabe abraçar, sabe receber se está desamparado. Tem gratidão pela vida, sabe agradecer quando recebe, sabe proteger e cuidar.

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Carlos Bittencourt Almeida - Psicólogo Clínico e escritor, residente em Belo Horizonte - MG Consultas online? envie suas perguntas.
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