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Antecipação da manhã

Publicado por Wesley Pioest em Poesia
data: 13/04/2011

 

Dona Dica foi descansar aos 84 anos.
Aprendeu a fumar aos sete
Com o pai, miúda, na roça –
Mas parou este ano (para quê?).
A irmã, aos 89, também parou.
São duas horas da tarde, e vai chover.
Os galos cantam anunciando
Eh, tarde!, chuva!, velório!
Ou apenas querem, aos gritos,
Que venha a madrugada.
Um galo aqui perto canta alto – outro
Galo lá adiante responde, e mais
Outro cacareja acolá. Sinfonia.
Na pequena cidade de Gonzaga
Os galos antecipam a manhã.
Dona Dica foi parteira, deixa uma órfã.
Daqui a pouco seguirá o enterro
Nesta tarde que poderia amanhecer
Para dar sentido aos galos e à vida.
Ou para apenas nos sobressaltar.
Assim como me surpreendo a esta hora
Com os galos premonitórios
A madrugada dentro da tarde
E a procissão de gentes e almas.
Escrevo epitáfios como um louco,
Volto às palavras a que pertenço e ocultam
Um pouco da poesia que me resta
E o que de mim vai seguindo:
Cortejo em busca de significação.

Tudo se traduz em esquecimento.

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Wesley Pioest - Nasceu em Rubim, estudou em Belo Horizonte, passou por Itacarambi, Muriaé e passa atualmente por Gonzaga. Sempre em Minas. Seu vale é o Jequitinhonha, de onde veio e para onde há de voltar dentro em breve, por bem ou por mal. Publicou a Revista “Liberdade”, os livros “Impressões da Aurora”, “Jequitinhonha – Antologia Poética I e II”, “A Fala Irregular” e “Cabrália”. Parceiro inconstante de Rubinho do Vale, Vagner Santos e Romeu Santos em letras para canções.
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