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Lembranças

Publicado por Sol Assis em Crônicas, Memórias
data: 03/11/2009

Lembranças

Quando somos crianças, em nossa imaginação as coisas têm muitas vezes um tamanho e uma importância grandiosas, e só quando crescemos é que percebemos o quanto nossa mente era fértil. …Não existe pessoa mais bonita e inteligente que nossa professora, nossa mãe é enorme, nosso pai um super-homem, nossa casa uma imensidão, o pé de manga e de goiaba do quintal então… não tem altura igual! Com o passar dos anos, as coisas mudam de proporção, e percebemos que nem tudo é tão grande assim.

Nossa professora não era tão linda nem tão sábia assim, nossa casa parece que diminuiu, nossa mãe, que antes nos segurava, agora se apóia em nosso braço para ter segurança, nosso pai hoje fala manso e está mais caseiro e devagar. Só os pés de manga e goiaba que, mesmo continuando quase que do mesmo tamanho, te fazem diminuto, sem acreditar que um dia você teve a coragem de subir em coisa tão alta…

Foi pensando nessas coisas que outro dia fiquei pensando em como é fantástica a imaginação de uma criança…

Fui a uma festa religiosa no interior de Minas Gerais na cidade de Ritápolis, próxima a São João Del Rei, e lá pude ver e conviver com um povo carinhoso, hospitaleiro e, acima de tudo, devoto do amor de Deus e de Santa Rita de Cássia.

A cidade linda, florida e festiva, enfeitada com amor e alegria trazia também a folia de seus vendedores ambulantes de guloseimas e lembrancinhas, que alegravam os visitantes e, mais ainda, os pequenos, que naqueles dias não tinham tempo pra nada, tantas eram as novidades.

Parando numa porta onde estavam fazendo enfeites, resolvi participar, ensinando e aprendendo a fazer enfeites, também entrei nos assuntos da cidade e fiquei sabendo da capa da Playboy, do rapaz “casador” e do roubo e devolução da imagem de quem mais interessava ali: Santa Rita de Cássia…

De manhã, na igreja linda e florida começam as festividades, e o bispo, do alto de seu poder, estimulava o fervor e devoção pela Santa, nos velhos, adultos e crianças, todos irmanados na esperança de bênçãos divinas, enquanto ocorriam alguns entreveros que só quem olha com carinho e curiosidade pode perceber.

Algumas crianças em locais estratégicos, quase ao pé do celebrante, começaram uma briga com palavras chulas, empurrões e até socos, enquanto os adultos olhavam pra cima, imersos no andamento da missa, quando no meio do empurra-empurra esbarram no suporte da Bíblia que caiu longe. Em seguida, vêm outras crianças contritas, incensando o ambiente com o turíbulo emprestando mais pompa à celebração antecedendo o ofertório, os incautos continuavam lá em tempo de ter os topetes chamuscados, e as mães, se é que tinham, não apareceram em nenhum momento pra acudir.

As beatas mais próximas reclamavam da falta de educação, e só conseguiram uma atenção especial depois de ter amargado uma longa fila, mas o bispo na sua tolerância e compreensão, carinhosamente acariciava a cabeça dos “anjos”, que, sem tomar tento da sacralidade de tudo, foram buscar mais o que fazer…

Quando a noite caiu é que foi a epopéia. Seu Higino, ilustre cidadão de muitas histórias e vitórias, na arte de fazer mais bonita a festa com sua fábrica de foguetes, rojões e chuvas de prata, deu o toque de sonho na hora de festejar Santa Rita. Em um quadro que acendia para tudo quanto é lado, com todas as cores bonitas e brilhantes, parecendo estrelas cadentes, presas de um jeito que só ele sabe fazer, surgiu o retrato da santa, era mais ou menos da minha altura, e olha que sou baixinha, os olhos dele brilhavam com a performance, e os dos meninos em volta mais ainda. Ele, talvez por estar cumprindo mais uma tarefa, e os meninos por estarem vendo a coisa mais grandiosa que já viram, pois daqui a alguns anos quando tiverem a minha idade, aquelas imagens, na lembrança, serão maiores e mais brilhantes que os painéis iluminados da Times Square.

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Sol Assis - Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
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