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Verdadeiras Verdades

Publicado por Sebastião Verly em Memórias
data: 31/08/2011

Tenho uma vontade imensa de conhecer alguém que ganhou na loteria, mas tenho ainda mais vontade de conhecer alguma pessoa que ganhou esses concursos de tampas de margarina ou caixinhas de creme dental.

De uns tempos para cá jogo na loteria toda vez que o prêmio da mega-sena ultrapassa 10 milhões de reais. Fiz uma declaração oficial que se eu ganhar não ficarei com um centavo. Só quero ter a certeza de que é possível ganhar naquele prestigiado jogo.

No próximo concurso desses do caminhão do Faustão, promovido pela TV Globo, vou concorrer também. Antes de minha partida desta para outra vida, quero eliminar essas duas curiosidades.

Nos anos 1948 e 1950, em frente à casa onde eu morava, havia uma senhora chamada Fiúca, que apesar de solteira, para nossa curiosidade, tinha uma meia dúzia de filhos. Em minha casa, usávamos no dia a dia, o sabão de barra, o mesmo que era usado para lavar roupa, para tomar banho. Como presente de aniversário ganhávamos de nossas irmãs mais velhas uma miniatura do sabonete Lever que a gente guardava para os dias de festas religiosas. Na casa da Fiúca eles usavam o Lifebuoy que era ainda mais cheiroso. Ainda hoje, mais de 60 anos depois, sinto o cheiro do sabonete nas bacias d’águas jogadas pela janela dos quartos onde os meninos nossos vizinhos tomavam banho.

Já naquele tempo havia uma lenda que dizia que o sabonete Lifebuoy oferecia como prêmio um carro novo para quem encontrasse a chave em seu interior. O tempo passou e mudei-me para Belo Horizonte, no inicio de 1960. Aqui na capital, nos anos seguintes, a lenda prosseguia. Agora já diziam que era a chave de um Volkswagen Sedan, o popular Fusca.

A crença na possibilidade de ganhar o prêmio era tão forte que era comum você chegar nas drogarias e lojas para comprar um sabonete e todos eles estavam com um pequeno sinal de agulha que, segundo diziam, os empregados perfuravam na esperança de tocarem a preciosíssima e sonhada peça de metal.

Tínhamos um colega de pensão super pão-duro, cujo sonho era ficar rico. Diga-se de passagem, ele está hoje, de fato e de direito, muito rico. Naquele tempo, nas pensões, repúblicas e hotéis os hóspedes se tornavam amigos de fato e tínhamos acesso aos quartos e armários uns dos outros.

De certa vez, um amigo do colega “pão duro” entrou em seu quarto, abriu habilmente o sabonete e introduziu ainda com perfeição uma chave de Fusca. Meia dúzia de colegas sabia da brincadeira e todos ficaram atentos, ninguém comentava nada. Lá um belo dia, ao tomar banho, o nosso amigo sentiu a pontinha metálica da chave. Ele não conteve a euforia, e foi contar justamente para o autor da pegadinha. Discutiram excitadamente e foram a uma farmácia nas imediações e, como todos acreditavam na lenda, deram, sem propósitos, mais credibilidade para nossa brincadeira.

O assunto foi parar na Mila, naquela época única agência distribuidora dos veículos Volkswagen de Belo Horizonte, e levaram até ao conhecimento do Dr. Moacyr Carvalho de Oliveira que era o dono da Concessionária. Parece que até os empregados da Mila acreditavam na história.

Feito o desmentido, o nosso amigo ficou uma fera. Durante alguns dias ele não falava com a maioria dos colegas de hotel, salvo com seu grande amigo que era o único autor intelectual e artífice da gozação. Depois desta, espero que alguém nos conte ou nos relembre outros truques de marketing, que de tão bem engendradas acabaram parecendo verdadeiras verdades.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Verly

    Olha gente, eu quis mostrar, especialmente para quem acredita em tudo que sai pela voz do povo ou, hoje em dia pela internet, que a maior parte é lenda. São chamadas lendas urbanas.
    E como tem mentira espalhada por aí. E o MAIS SÉRIO: COMO TEM GENTE QUE ACREDITA EM TUDO!
    VERLY

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