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Uma história e depois outra

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas Culturais, Memórias
data: 28/12/2017

uma história e depois outra

Minha mente sempre gostou de inventar histórias. E contava e ainda conta para mim com tantas evidências que eu acreditava e ainda acredito piamente nelas.

Minha cidade, onde fiquei isolado do mundo até os 15 anos, era meu mundo. Quase todos os casos que eu ouvia, não sei que parte do meu cérebro optava por gravar sua triste versão, ou a tristeza era real como eu aquilatava.

Assim, foi a história da moça criada pela avó, que eu via todos os dias. Passava na porta da casa da velha e via um jovem que se dizia parente, o Zezé e a menina Luzia a sofrer todo tipo de humilhação, através da simples roupa que a velha lhes oferecia. Do Zezé eu não tinha pena por que o via forte e saudável e poderia aguentar muito e quando quisesse poderia romper com tudo e cair no mundo de verdade. Já a Luzia me cumprimentava sempre com um terno sorriso que para mim continha toda a tristeza do mundo. Na casa onde ela era criada, criada no pior sentido, ainda existiam dois filhos homens e duas filhas mulheres.

A velha era considerada uma das mais ricas da cidade. Mas vivia enfurnada em casa, segundo o imaginário social, tramando perversidades. Luzia era tratada como escrava. Tinha dois vestidos iguais, feitos de chita barata, que ela lavava todas as noites. Não saia de casa pra nada. Mal, mal chegava na porta da frente da casa, que ficava bem ao lado da Praça da Matriz, no centro da cidade.

A velha ganhou um apelido que não era aceito pelos filhos e muito menos por ela. Dizem que foi ela quem roubou ou mandar roubar o caro instrumento musical comprado pelos paroquianos para a Igreja Matriz.

Ficou viúva, diziam, pelas maldades que fazia com o finado marido. Em casa, só dirigia a palavra à moça para xingar e dar mais ordens e exigir sempre mais trabalho.

A moça cuidava de tudo na casa. Com o tempo os filhos foram casando-se, sem que diminuísse a escravidão e até, roupas das filhas e seus maridos eram trazidas para ela lavar e passar com ferro de brasa.

Fazia de tudo: sabão com carniças que vinham da fazenda na periferia. Lembro-me de certa vez que um novilho, castrado por um dos filhos, morreu em cima de um estaleiro improvisado. Eles esquartejaram o boi e trouxeram para a menina destrinchar para a venda, de porta em porta, na cidade. O que vendeu no primeiro dia, mesmo a carne já estando esverdeada como mostra de apodrecimento, ainda saiu. No segundo dia virou material para o sabão. E tome trabalho para a moça.

Na fazendinha que a família possuía nos fins da rua, ordenhavam meia dúzia de vacas magras, triando o leite que a velha bebia e ainda sobrava para a moça fazer doces e quitandas, bolos e biscoitos. Fazia apenas. Os doces eram postos em compoteiras que ficavam no criado mudo ao lado da cama da velha. Os bolos eram só para ela, as filhas e filhos. Luzia comia a comida que sobrava nos pratos da família, habituados a grande desperdício.

Mudei-me da cidade e a imagem da Luzia veio comigo para a Capital. As lembranças eram constantes e eu nunca mais tive noticias da moça. Sua imagem com aquele vestido de chita velho e desbotado esteve comigo anos e até décadas, toda vez que via uma menina pobre pelas ruas da Capital. Mas, este mundo é pequeno.

Lá um belo dia, como diz o escritor Olavo Romano, conheço um jovem, já metido na política da minha querida e saudosa cidade, bem falante contando de sua formação e experiências. Um jovem inteligente. Disse-me que era da minha cidade. Meu conterrâneo, eu deveria saber sobre seus pais, pois conhecida praticamente todo mundo na cidade quando a deixei com menos de 20.000 habitantes.

Eu quis saber, tenho mania de perguntar, de quem ele era filho. Pelo nome do pai eu não descobri. Mas quando ele disse que era filho da Luzia, de inicio não acreditei que seria aquela mesma moça de cujo sofrimento compartilhei por tantas décadas. E era ela mesma! Contei para ele como vi a vida da senhora sua mãe.

Daquele dia em diante joguei fora a enorme carga que trazia na memória e toda vez que me comunico com ele, silenciosamente, agradeço de coração por tê-lo conhecido e me aliviado de 60 anos de angústia. Final feliz é sempre raro nesse tipo de história.

Minha terra tem histórias que só acontecem lá ou em Nova York, Berlim e Bombaim. Esta é uma delas com final feliz e uma enorme emoção sentimental muito agradável.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Antonio Ângelo

    Nova York, Berlim ou Bombaim [e até mesmo Pequim], Pompéu tem de tudo um pouquim, né Verly?
    Que bom que esta Gata Borralheira saiu da escravidão e – se não foi a Princesa – certamente soube se libertar das amarras.
    E vivas à Macondo Mineira!

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