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Um conto japonês

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas Culturais
data: 28/03/2018

um conto japones

Numa pequena aldeia do Japão antigo vivia um casal que muito se amava e estavam sempre felizes.

Todos os dias o marido saía muito cedo para trabalho caminhando pela rua onde poucas pessoas encontrava.

Tudo corria às mil maravilhas até que num certo dia, quando andava pensativo e olhando para o chão, encontrou um pequeno espelho de bolso. Imediatamente abaixou-se e o apanhou. Qual não foi seu espanto quando ali viu a foto do seu velho pai já falecido. Depois de muito olhar e matar a saudade embrulhou aquele pequeno tesouro num lenço e o guardou no bolso para que ninguém mais o visse.

À noite, ao voltar para casa, tratou de esconder seu precioso retrato. Escolheu um local onde ninguém imaginaria encontrar algo: atrás de um armário antigo que havia na cozinha.

Todos os dias, antes de sair e quando chegava do trabalho, dava um jeito de ver a fotografia sem que sua mulher percebesse.

Sua mulher já andava desconfiada com alguns novos hábitos do marido, mas nada falou. Até que numa noite ficou espionando a chegada do fiel companheiro. Como sempre, ele chegava e ia ver a fotografia do seu falecido pai. Dessa forma ela descobriu que ali havia um segredo.

Como todos sabem, não pode haver segredo entre marido e mulher japonesa. Todos sabem também que os japoneses são fisionomicamente muito semelhantes e isso muitas vezes causa confusão de identidade.

Ela esperou o marido dormir e foi ver o que havia de tão importante atrás daquele armário. Ao olhar o espelho seu susto foi imediato, seu marido tinha outra mulher e aquela era a fotografia que provava tal fato.

Durante a noite ela não conseguiu dormir e logo pela manhã interpelou o marido;

- Então você anda me traindo com outra! e não adianta negar porque tenho a prova.

- Como pode pensar isto?, você é a única em minha vida e sabe muito bem disso.

- Mentiroso! Traidor! aqui está a prova; uma foto dela que encontrei atrás do armário.

- Calma mulher; esta foto é do meu falecido pai.

- Como pode ser tão cínico?

E a discussão não tinha fim.

Naquele momento, por ali passava um velho monge que todas as manhãs andava pela rua meditando e orando. Diante de tão feroz discussão, resolveu intervir para apaziguar o casal. Aproximou-se e da porta perguntou o que estava acontecendo.

A mulher, ainda cheia de raiva, explicou:

- Meu marido está me traindo com outra; encontrei uma foto dela que ele mantinha escondida atrás do armário.

- Deixe-me ver, disse o velho monge. E apanhou o pequeno espelho.

- Ora, minha senhora, não é nada do que está pensando, esta foto é do meu irmão, que também era monge e morreu no mar, durante uma tempestade, quando pescava. Esta foto lhe pertencia e deve ser levada ao local onde ele faleceu para que ele finalmente descanse em paz. E foi embora levando a foto que depois atirou ao mar.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
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