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O dia em que fui porta-estandarte

Publicado por Sebastião Verly em Crônicas, Lazer, Memórias
data: 18/02/2010

O dia em que fui porta-estandarte

Retomo minha paixão pelo carnaval de Belo Horizonte em 1960. Aprontei-me todo, raspei os nascentes fios de barba, perfumei-me e fui lá para o ponto inicial, no início da Avenida Afonso Pena, próximo da Rodoviária antiga, que era e ainda é até hoje a polêmica Rodoviária que querem transferir. As escolas e blocos subiam a Rua Curitiba, uma das ruas obliquas à Avenida Afonso Pena para, mais na frente, entrar numa perpendicular e voltar à nossa avenida principal com muita animação.

Nas classes pobres a festa era mais pela animação. Chegavam nos lotações, pagando a passagem individual e desfilavam uma semana antes nas ruas da cidade sem nenhuma necessidade de o órgão de transito “fechar” o transito, que diga-se de passagem não era caótico como hoje. Se fosse preciso, o bloco ou cordão afastava-se para um lado e o carro que precisasse passava lenta e tranquilamente, curtindo o clima.

O confete, e um pouco menos a serpentina, voavam soltos pra todo lado. Nos blocos, os marmanjos desciam de seus caminhões com o lança perfume Rodo, o menor, e Rodouro, o maior, na mão para brincar com pedestres e motoristas. Jogavam beijos, faziam gracinhas. Em 1961, o então presidente Jânio Quadros proibiu o lança-perfume para todo o sempre.

A gente se esquecia das horas vendo tanta alegria.

Eu com 18 anos de idade, elegante e perfumado, achava-me o máximo ali no centro da cidade vendo o maior espetáculo da Capital. Olhava para todas as mulheres, imaginando que elas estivessem encantadas comigo. Todos “davam mole” para todos, as diferenças sociais eram abolidas sem nenhuma filosofia.

Nesse embalo foi que comecei a flertar com a porta-bandeira da “Unidos da Brasilina”, uma negrinha pouco mais velha do que eu e, além de bela, muito simpática. Como rebolava a mocinha! Trazia o estandarte ao chão e o levava para ao alto. A bateria distanciava um pouco e eu andava de costas sempre de olhos na minha negrinha. Já a considerava minha. Ela sentia a minha energia e devolvia dobrada, e eu fui me misturando no conjunto da escola e de vez em quando dava uma esbarradinha naquela encantadora mulher.

Consegui falar algumas palavras, mas não tinha certeza se ela ouvia. Entretanto a linguagem quase luxuriosa transmitiu o recado. Antes de entrar na Avenida, creio que chegava pela rua Tamoios, havia um bar com mesas, cervejas e salgados. Durante os dois quarteirões misturei-me na Escola e tentei tomar a bandeira que ela levava e comecei a balançá-la desordenadamente, ainda que eu pensasse que estava uma maravilha. Nisso, uma outra carnavalesca tomou-me das mãos o estandarte e fomos postos para fora, delicadamente. Saímos e sentamo-nos no bar para tomar uma cervejinha com direito a pegar na mão, uns beijinhos e um “agarra” mais apertado. Mas juro que ficou nisso!

Mas, na minha ficha-curriculum guardada para sempre na minha memória e também pros amigos mais gozadores, consta até hoje que já fui porta estandarte de escola de samba… por alguns segundos, é claro.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
Comentário
  1. Sua descrição é tão perfeita que é como se eu o visse através do ytube. Continuo perplexo sobre o fato de se lembrar das coisas com tantos detalhes, o quê torna a sua descrição muito rica.
    Parabéns mais uma vez.
    Um abraço,
    Carlos

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