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Minas dá café, Minas dá leite, Minas dá Samba!

Publicado por Sebastião Verly em Música
data: 06/10/2010

No famoso samba “Feitiço da Vila” Noel Rosa se vangloriava: “São Paulo dá café, Minas dá leite, e a Vila Isabel dá samba!”. Pois bem, Minas continua sendo disparado o maior produtor do melhor leite, o café saiu de São Paulo e veio para cá. E agora a melhor notícia que podemos dar: não é mais necessário ir ao Rio de Janeiro para conhecer uma boa roda de samba. Antes isto era privilégio de alguns, que podiam ir ao Rio e ainda tinham bons relacionamentos para chegar ao “samba da gema”. Na Bahia e no Maranhão, de maneira menos divulgada, sempre houve também bons terreiros com o autêntico samba. Depois, foi a vez de São Paulo valorizar esse gênero musical e cultural em seus terreiros. BH sempre teve bons sambistas, mas a população vinha se mantendo ao largo dessa bela manifestação.

Hoje, aqui em Belo Horizonte, além de terreiros temos bares até no centro e na Avenida do Contorno, onde podemos ouvir e dançar o samba no meio de gente que sabe apreciar a boa qualidade desse ritmo. Há promotoras e críticos que ainda se revezam para dar conta de mais de uma casa dessa maravilhosa diversão.

Numa roda de samba até os menos afeitos ao estilo mostram um arremedo de passos. Começam timidamente, um balanço no mesmo lugar, vão mudando os pés, fazem alguns trejeitos e o corpo começa a tremer e se deixa levar pelo verdadeiro samba. Alguns, para “entrarem no clima”, aparecem com chapéu de panamá com abas estreitas, camisas listradas na horizontal e até sapato bico fino e meia branca, puxando mais para o lado do malandro carioca. Os turistas e pessoal convidado pela primeira vez, comparecem com a roupa convencional e no decorrer da festa, depois de umas cervejinhas, entram no samba e vão aprendendo.

Os “gringos” até que se esforçam, mas dizem os entendidos que só os brasileiros e brasileiras sambam com ginga e malemolência. Não é à toa que o samba, gênero musical de origem africana, tornou-se uma das principais manifestações culturais populares brasileiras e transformou-se em símbolo de identidade nacional. E é sambando que o pessoal se diverte nas tardes de domingo no Quintal da Divina Luz, ali na rua Maria Aparecida, 375, no Bairro São Marcos, na região Nordeste de Belo Horizonte. Aos domingos, depois das quatro da tarde, percebe-se a movimentação de carros na rua pacata, o que indica a localização de uma das melhores rodas de samba de Belo Horizonte.

Porteiros educados e bem vestidos abrem o portãozinho de madeira rústica, que completa o resto do terreno à espera do muro que deverá sair em breve; um galinheiro com cerca de uma dúzia de galinhas dá o certificado de quintal; um terreno em declive protegido por frondosas mangueiras, carregadas nesta época do ano, que, aos poucos vai sendo aproveitado para acolher o crescente número de frequentadores. O engenheiro Ricardo, freqüentador de carteirinha, entre um e outro samba, vai bolando a próxima melhoria.

O ingresso masculino é R$10 e o feminino R$8. Não se vê brigas ou provocações, pois todos se deixam levar pela onda. Como diz Paulinho da Viola: “não queira navegar o mar, deixa o mar te navegar”. A garçonete Yara se desdobra para atender bem a todos os clientes: cervejinha gelada, com ou sem álcool, galinhada, torresmo com mandioca, frango a passarinho, bucho ou dobradinha e sempre outros pratos gostosos da culinária popular.

Daí a pouco chega o Serginho, dono do Quintal, cumprimenta os antigos e dá boas vindas aos novos e, por via das dúvidas, repete o cumprimento aos visitantes de primeira vez, convidando-os a se sentirem em casa.

E vai chegando gente: mulheres lindas, negras, mulatas e morenas de encher os olhos dos apreciadores do ramo. Há também brancas para todos os gostos. Aparecem jovens e velhos, todos com espírito de sambista, no mínimo, adquiridos pela fantasia ou pelo ingresso no Quintal da Divina Luz. Os sambistas do Quintal primam pelo samba de raízes, que alguns dizem “de raiz” profunda sensibilidade e amor à arte visando preservar este gênero, ritmo e estilo musical.

Gente mais velha, gente jovem, adultos e até crianças soltam a voz para presentear os ouvintes com as mais belas músicas. Sambas antigos com novos arranjos, sambas novos e inéditos fazem a alegria de quem tem esse privilégio dominical. Há um jovem no conjunto com carinha de adolescente que toca um cavaquinho como ninguém. Soube que ele ganhou o “prêmio jovem instrumentista” do BDMG. Bem merecido. As vozes das duas moças que cantam com a alma vibrante, abafam os chocalhos dos pequenos ganzás que elas manejam em suas delicadas mãos. As vozes masculinas também são excelentes. Todos extremamente bem afinados. É excelente ouvir o pessoal tocando cavaquinho e violões, instrumentos de percussão como o pandeiro, o surdo, a cuíca e o tamborim. Aliás, vale registrar que o som da cuíca, de tão bem tocada, marca mais um diferencial no som do samba daquele terreiro e chama a atenção quando se faz ouvir. Há um garotinho, o Cícero, que fez cinco anos neste setembro de 2010. O menino que toca ainda displicentemente encanta todo mundo. Segundo mestre Affonso, que estava presente, faz mais do que muita gente grande: “tem futuro este garoto!”.

Enfeitando o espaço diante dos músicos, uma “comissão de frente”, super animada vai criando gingas e coreografias sem parar, chamando a atenção de quem assiste o espetáculo. São belas morenas e mulatas. Homens que dançam à frente são poucos, até que chega o Ivanzinho, que sai lá do Bairro Suzana e, quando pode, vem com a filha, uma mocinha, que não desgruda dele por nada. O Ivanzinho dança com emoção à flor da pele. Chora de verdade pelo prazer de dançar. E as pessoas o admiram sempre. É um showman. Depois dele mais alguns marmanjos, mesmo na área mais alta do terreiro, apresentam aqueles passos de sambistas conhecidos como passos dos malandros do samba carioca.

Pessoas ligadas ao samba sempre estão presentes. São artistas anônimos ou de conhecimento apenas nas suas rodas, mas são excelentes artistas. Outros são de renome. Bartolomeu e Maristela que dão nome até à pimenta que é servida com os petiscos solicitados pelos clientes: “amor ardente”. O Carlos, diretor do Conservatório de Música da UFMG, tem mesa e cadeira cativa no Quintal. Na mesma mesa assentam os tradicionais amigos da casa. Outro dia, estava presente no meio de tanta gente, um filho do Toninho das Gerais, sambista consagrado no Brasil. Quando Mestre Affonso chega cumprimentando a todos vai logo falando, “tô aqui eu e minha pretinha”. Sua “eleita” diz ele, é a única mulata de sua vida, mas deixaria o “velho” Sargentelli de queixo caído. Aliás, as mulatas ficam à vontade naquele Quintal. E como são lindas e atraentes. Que molejo!

O ambiente do Quintal da Divina Luz é de muita alegria e paz. Mesmo se alguém quisesse ser diferente, o clima local, o ambiente de musicalidade e dança, servem de controle e trariam todo mundo para as relações de camaradagem de riso fácil e de harmonia plena.

O bom é saber que aos domingos, de 17 às 22 horas, tem sempre samba de raízes para lavar a nossa alma que enfrenta tantos desafios na rotina semanal.

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Sebastião Verly - Sociólogo, Cronista, residente em Belo Horizonte - MG.
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